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Walter Felix Cardoso Junior
wfelixcjr3.carrd.co
A instituição apodrece quando passa a proteger mais seus segredos do que seus princípios.
Há quem pense que a corrupção começa sempre com uma mala de dinheiro, uma ordem criminosa ou uma conversa sussurrada em sala fechada. Às vezes começa assim. Mas, muitas vezes, começa de modo bem mais banal: com um favor aparentemente inocente.
Um recém-chegado a um ambiente de poder — seja no Legislativo, no Executivo, numa estatal, num tribunal, numa força armada, numa grande empresa, num sindicato, numa igreja ou em qualquer estrutura onde cargos, verbas, promoções e prestígio estejam em jogo — raramente é convidado a vender a alma no primeiro dia.
Seria grosseiro demais.
O método costuma ser outro: aproximação, acolhimento, gentileza, facilidades, pequenos agrados, vantagens discretas, elogios calculados, convites exclusivos, promessas de proteção e acesso a círculos onde se decide “como as coisas realmente funcionam”.
Às vezes, o anzol mais eficiente não vem com ameaças. Vem com admiração.
A pessoa não é corrompida de uma vez. Ela vai sendo testada. Testam sua vaidade. Sua ambição. Sua solidão. Sua necessidade de pertencer. Seu medo de ficar isolada. Seu desejo de subir. Sua fraqueza diante do prazer. Sua tolerância à mentira. Sua disposição de fazer vista grossa.
Quando descobrem a brecha, começam a ampliá-la para entrar por ela.
Pode ser dinheiro. Pode ser cargo. Pode ser contrato. Pode ser viagem. Pode ser informação privilegiada. Pode ser proteção hierárquica. Pode ser promoção. Pode ser silêncio sobre um erro. Podem ser companhias indevidas. Pode ser vantagem para parente, assessor, amigo ou empresa próxima.
O mecanismo varia. A lógica é a mesma. Primeiro, oferecem algo. Depois, lembram que ofereceram. Em seguida, pedem algo pequeno. Depois, algo maior. Quando a pessoa percebe, já não está apenas recebendo favores: está pagando por eles com a própria liberdade e consciência.
Foi capturada. Ou, pior: foi recrutada.
E o capturado pode até continuar usando terno, farda, toga, batina, crachá, medalha ou discurso patriótico. Mas, por dentro, já não se move com inteira autonomia. Move-se condicionado por compromissos invisíveis.
Aí nasce o verdadeiro perigo.
Porque o erro inicial talvez fosse pequeno. Mas, para escondê-lo, será necessário cometer outros. Para sustentar a mentira, será necessário cooptar cúmplices. Para proteger os cúmplices, será necessário calar testemunhas. Para calar testemunhas, será necessário distribuir favores, ameaças ou promessas. Para manter todos alinhados, será necessário transformar a instituição num sistema de autoproteção.
É assim que uma organização apodrece sem declarar que apodreceu.
O discurso oficial continua limpo. As cerimônias continuam solenes. Os símbolos continuam nas paredes. As palavras antigas continuam sendo repetidas: honra, dever, lealdade, democracia, justiça, pátria, serviço público, bem comum.
Mas, por baixo, já não é isso que governa. Governam o medo, o segredo, a conveniência, a sobrevivência e a chantagem recíproca.
Por isso, a corrupção mais profunda não é apenas a que rouba dinheiro público. É a que sequestra consciências. É a que transforma pessoas livres em reféns. É a que converte instituições, antes vocacionadas ao serviço, em máquinas de proteção de seus próprios desvios.
O sistema não precisa corromper todos. Basta comprometer alguns, intimidar outros, promover os obedientes, isolar os incômodos e ensinar aos novos que ali existe uma regra não escrita: quem vê demais, fala de menos; quem aceita demais, manda menos em si mesmo.
E talvez seja por isso que tantas pessoas, depois de certo tempo em certos ambientes, parecem deixar de ser quem eram. Não porque tenham mudado de opinião. Mas porque foram envenenadas por concessões sucessivas.
Esse mecanismo cabe em qualquer regime. Nas democracias, porém, torna-se ainda mais perverso quando se esconde atrás de palavras nobres, ritos legais e discursos de virtude pública.
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