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Na crônica anterior, falamos da cidade que perdeu o poder. A antiga capital que acordou, depois da fusão dos estados, com a desagradável sensação de ter sido promovida a coadjuvante da própria história. Mas cidades, assim como pessoas, raramente sobrevivem apenas de cargos, títulos ou funções administrativas. Algumas descobrem outras maneiras de permanecer relevantes. Niterói, curiosamente, encontrou uma delas no volume alto de uma guitarra.
Como o Rio de Janeiro estava ocupado demais tentando ser o postal do mundo, Niterói começou em silêncio uma vocação que não era muito turística e era bastante cultural. É claro que a cidade nunca teve a monumentalidade da vizinha, mas justamente por isso tenha produzido algo intelectualmente mais interessante: gente interessada em criar coisas. Porque a cultura raramente nasce do concreto ou da paisagem. Ela nasce das conversas, das inquietações e daquela saudável mania de achar que o mundo pode ser melhor depois de mais uma rodada de chope.
Havia universidades, teatros, cineclubes, bares enfumaçados e apartamentos pequenos onde alguém inevitavelmente carregava um violão desafinado e uma convicção política ainda mais desafinada. Niterói foi se tornando uma espécie de laboratório urbano da classe média intelectualizada, esse ecossistema curioso onde jovens discutiam cinema europeu sem dinheiro para pagar o aluguel.
Foi nesse cenário que surgiu a Fluminense FM.
Por trás daquela aventura radiofônica estava Luiz Antonio Mello, jornalista, produtor cultural e um dos personagens mais importantes da história recente da cultura niteroiense. Foi ele quem percebeu que havia uma juventude inteira procurando uma trilha sonora que o rádio tradicional simplesmente ignorava. Em vez de seguir as fórmulas seguras da época, resolveu apostar no risco. A decisão parecia improvável: instalar, em Niterói, uma emissora dedicada a sons que grande parte do mercado considerava estranhos demais para fazer sucesso. Felizmente para a música brasileira, ele estava certo.
"A Maldita", como ficou conhecida, foi uma das maiores ironias culturais da história brasileira. Em plena transição da ditadura para a democracia, enquanto boa parte do rádio nacional ainda parecia sequestrada entre baladas previsíveis, comunicadores excessivamente animados e um certo terror estético patrocinado pela indústria fonográfica, uma rádio de Niterói resolveu agir como se o futuro já tivesse chegado.
E talvez tivesse mesmo.
A Fluminense FM não apenas tocava música. Ela introduzia linguagens, comportamentos, estéticas e sonoridades que o país ainda tentava compreender. Punk rock, new wave, pós-punk, rock brasileiro, bandas independentes e experimentações sonoras começaram a circular pela cidade como quem distribui material subversivo em horário comercial.
O mais curioso é que aquilo tudo acontecia justamente em Niterói, cidade frequentemente tratada pelo resto do estado como uma espécie de sala de espera geográfica do Rio de Janeiro. Enquanto muitos ainda viam a cidade apenas como lugar de travessia, ela ajudava silenciosamente a moldar parte importante da cultura jovem brasileira.
A Maldita teve um papel decisivo na formação do rock nacional dos anos 1980. Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Blues Etílicos e tantas outras bandas passaram por aquela frequência antes mesmo de se tornarem fenômenos nacionais. Mas a revolução não vinha apenas de Brasília, São Paulo ou do Rio; havia também uma cena local pulsando entre bares, universidades e estúdios improvisados. Bandas como a Alynaskyna, com o icônico Paulinho Guitarra, mostraram que Niterói não estava apenas ouvindo a história. Estava ajudando a compô-la.
Naturalmente, isso produziu uma geração inteira convencida de que possuía uma sofisticação cultural superior. E talvez possuísse mesmo. Durante algum tempo, conhecer certas bandas alternativas funcionava quase como documento de identidade informal da juventude niteroiense. Havia um certo prazer elitista em ouvir algo que o resto do Brasil ainda não entendia direito.
Mas reduzir a Fluminense FM a uma rádio de rock seria injusto. Ela ajudou a consolidar uma ideia mais profunda: a de que cultura também pode ser instrumento de identidade urbana. Enquanto a cidade tentava se recuperar economicamente da perda da capitalidade, começava simultaneamente a construir outro tipo de influência, menos institucional e muito mais simbólica.
Niterói dificilmente voltaria a controlar o poder político estadual. Mas começava a produzir algo igualmente relevante: imaginário.
A cidade desenvolveu uma vida cultural muito acima de seu tamanho. Teatro, música, cinema, literatura, universidades, festivais, produção intelectual. Havia uma sensação difusa de que Niterói funcionava melhor como espaço de criação do que como espaço de comando. Menos burocracia. Mais repertório.
E existe certa lógica nisso. Cidades excessivamente ocupadas em administrar poder raramente têm tempo para experimentar cultura. Niterói, depois da fusão, perdeu parte da máquina estatal, mas ganhou certa liberdade para reinventar sua personalidade.
Claro que nada disso eliminou os velhos problemas urbanos. O Centro continuava esvaziando lentamente. A dependência econômica em relação ao Rio permanecia. As barcas continuavam exercendo sua pedagogia diária da travessia. Mas havia agora uma diferença importante: a cidade começava finalmente a produzir autoestima sem precisar recorrer exclusivamente ao passado de antiga capital.
Niterói deixava de ser apenas a cidade que perdeu alguma coisa.
Passava lentamente a ser a cidade que criou alguma coisa.
E foi ali, entre guitarras, fitas demo, universitários sem dinheiro e programadores de rádio funcionando à base de café e teimosia, que Niterói começou verdadeiramente a reaprender quem era.
Porque algumas cidades governam estados.
Outras influenciam gerações.
Filinto Branco
cronista de ideias
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