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A ilustração incomoda? É para incomodar.
Ela existe para confrontar quem ignora as consequências da negligência, da imprudência e da omissão dos que deveriam proteger e exigir seriedade. Que ela sirva de alerta — porque o silêncio antes da tragédia é também uma forma de cumplicidade.
Angra dos Reis vive hoje o resultado previsível de década de descaso. No sábado, 20 de setembro, mais um acidente náutico grave tirou a vida de uma jovem querida, uma guia de turismo. Joyce Conceição de Oliveira Araújo, de 28 anos. Ela estava a bordo de um taxi boat que foi atingido por uma lancha chamada Love Knot, causando o naufrágio da embarcação e sua morte no local.
Joyce era formada em Turismo pela UFRRJ, mãe de um menino de quatro anos, casada com o saxofonista Eliaquin, e filha do pastor Carlinhos, da Igreja do Belém. A tragédia gerou grande comoção na cidade e nas redes sociais.
A lancha Love Knot, foi conduzida por Alessandro Celestino Pereira de 46 anos, preso em flagrante por homicídio culposo, agravado por negligência na navegação e por ter fugido do local sem prestar socorro. O nome dos proprietários estranhamente não foi divulgado.
Alguns moradores, ambientalistas e frequentadores não se surpreenderam: há anos alertam que o crescimento desordenado do turismo náutico, aliado à fiscalização pífia, formaria a “tempestade perfeita” para tragédias. Mas infelizmente a grande maioria da população não se importa com a prevenção e em apurar as causas.
No domingo, menos de 24 horas após o acidente, inúmeras embarcações voltaram a circular pela baía com total desprezo às normas de segurança e às restrições impostas — como se nada tivesse acontecido.

Explosão de Embarcações, Explosão de Acidentes
De acordo com dados levantados junto à Capitania dos Portos e a órgãos estaduais, o número de embarcações registradas na região praticamente dobrou nos últimos dez anos — passando de cerca de 7 500 em 2014 para mais de 14 000 em 2024. Os acidentes acompanharam esse ritmo: de pouco mais de 30 ocorrências por ano em 2014, Angra passou a registrar acima de 110 acidentes anuais só em 2023.
O número de vítimas lesionadas também disparou: eram menos de 15 feridos por ano em 2014; em 2023, foram mais de 80. Em 2025, antes mesmo do final do ano, já se registram mais de 90 acidentes, com dezenas de feridos e ao menos quatro mortes confirmadas — incluindo as duas do último sábado.
Fiscalização Irrisória, Turismo Irresponsável
Enquanto a frota cresce, a fiscalização encolhe. A Capitania dos Portos dispõe de apenas duas embarcações para cobrir toda a Baía de Angra. A Turisangra (fundação municipal de turismo) não exerce fiscalização efetiva sobre escunas, lanchas e jet skis turísticos, que operam em sua maioria à margem de normas elementares de segurança ou respeito ao meio ambiente.
Não há limite para numero de embarcações turísticas operarem. Em redes sociais escolas náuticas oferecem habilitação por menos de 500 reais, e o lucro por passeio a barqueiros é superior a 50%, não tendo controle de recolhimento de impostos. Segundo informações não comprovadas, verdadeiras “máfias” se formam em algumas localidades, obrigando barqueiros a pagar um percentual ao que “comanda” a região.
Gestores públicos e operadores privados em grande maioria comportam-se com igual irresponsabilidade. A gestão turística amadora atrai visitantes que desconhecem e desrespeitam regras básicas de navegação e proteção ambiental. Condutores de jet skis circulam de forma imprudente, promovendo “eventos” sem autorização e avançando em áreas de banho com manobras arriscadas, próximo ao continente e ilhas. Isso tudo comumente explicito em fotos publicadas em redes sociais. Não é difícil achar no Google.
Moradores denunciam essas práticas há pelo menos 10 anos; inclusive ao MPRJ e ao MPF. “Pressões do turismo predatório sobre políticos” teriam, segundo relatos, abafado providências mais severas, no âmbito administrativo. Há caso gritante de vereadores filmarem essas pressões e postarem em suas redes sociais.
O Ministério Público Federal precisou de cinco anos de inquérito civil para, só em 2023, entrar e obter uma decisão suspendendo operações náuticas na Praia da Biscaia — onde escunas de até 200 passageiros embarcavam diretamente na faixa de areia inclusive com motores ligados, pondo banhistas em risco. Denunciantes foram ameaçados e muitas operações migraram para praia próxima, do Objetivo, também proibida por lei, mas nada aconteceu até o momento, mesmo sendo local de moradia de um vereador que nas redes sociais afirma denunciar malfeitos da prefeitura.
Leis Desrespeitadas, Hipocrisia Exposta
Mesmo diante de proibições expressas, alguns barcos turísticos continuam operando irregularmente na Biscaia. Segundo a Capitania, apenas as embarcações denunciadas ou flagradas pela sua reduzida viatura náutica acabam notificadas — um controle claramente insuficiente.
Como exemplo, dois barcos da Pousada Floresta Mar (antiga Bromélias) — que nas redes sociais se apresenta como “amiga da natureza” — vêm sendo reiteradamente flagrados descumprindo a decisão da Justiça Federal, segundo denúncias e imagens encaminhadas à Capitania. Os mesmos gestores arrendaram o bar D’Boa, também na Biscaia, já autuado pela Postura Municipal por poluição sonora. Para denunciantes, trata-se de um modelo de exploração nocivo ao território: “essas pessoas não vêm para investir no turismo, vêm para explorar no pior sentido da palavra; aceitam tudo o que o hóspede quer e faz, mesmo sendo incompatível com o uso sustentável dentro de uma APA. Aqui tudo é o dinheiro, e quem vai contra é perseguido como aconteceu com donos de uma pousada e uma moradora, infelizmente.”
A hipocrisia não para aí: jets skis com escapamentos adulterados espalham ruído ensurdecedor por praias que deveriam ser de contemplação e relaxamento. Moradores descrevem Angra hoje como “uma praia de favela” pela ausência de cultura de preservação, placas ignoradas e turismo massificado de baixíssima qualidade.
“Hoje quem vai à praia em busca de sossego encontra apenas gritaria e caixas de som. Estamos numa área ambiental protegida. Antes, pobres e ricos dividiam o mesmo espaço com respeito; não era assim, pelo contrário. Agora esses turistas e usuários em sua grande maioria não vêm para relaxar, mas para extravasar — e é uma pena que não saibam a diferença”, relata um morador do Centro.
Ele alfineta: “Muitos turistas do Rio e outros locais trazem para cá seus hábitos urbanos desenfreados e não têm noção de que estão diante de uma experiência diferente: o contato com uma natureza única. Querem desfrutar do que o rico desfruta, mas não se comportam como tal. E a elite endinheirada veranista antiga, que dizia amar a cidade, reclama, mas não se empenha. ”
“Crônica de uma Morte Anunciada?”
Para uma moradora de Jacuecanga, nascida na cidade e que pediu anonimato por medo de represálias, a prefeitura é o elo mais fraco: “A Capitania até melhorou relativamente a fiscalização no último ano, mas a prefeitura não tem interesse nem pessoal competente”. Ela diz que prefere ficar em casa do que se expor ao caos da Biscaia ou praias similares, onde antes havia rico bioma marinho — “até estrelas do mar nas margens” — agora desaparecida sob a pressão do turismo predatório. Nem sair de barco: “está tudo uma bagunça, e a natureza está em ultimo lugar.”
Se antes propagandas turísticas vendiam a imagem de pessoas mergulhando em meio à vida marinha, num turismo voltado ao bem-estar e à contemplação, hoje dominam nas redes sociais pacotes de passeios de barcos com churrasqueiras a bordo e consumo farto de bebidas. A vocação original do local foi invertida: transformaram um cenário singular em mais um destino qualquer, apenas com uma paisagem bonita ao fundo para postagens.
Nas redes sociais, quase a totalidade dos perfis de notícias locais se limitam a exaltar as belezas da cidade ou a relatar acidentes, sem cobrar soluções estruturais. “Esses acidentes são uma crônica de uma morte anunciada”, resume outra moradora. “Denunciamos por anos, quase ninguém se importou. Agora choram mortes e reclamam quando a situação já está fora de controle.”
O Mal Brasileiro: Ignorar o Futuro
Angra dos Reis se tornou o retrato de um mal nacional e principalmente no Rio de Janeiro: a indiferença diante dos sinais de risco. Indicativos claros de que algo iria ocorrer foram ignorados por anos. Hoje, com vidas perdidas e ecossistemas praticamente destruídos, a conta chegou. Se a Capitania e a prefeitura não assumirem de fato suas responsabilidades — com fiscalização efetiva, autuação severa e ordenamento rigoroso do turismo náutico —, tragédias como a do dia 20 serão apenas o prenúncio de uma temporada cada vez mais sangrenta nas águas de Angra.
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