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Walter Felix Cardoso Junior
wfelixcjr3.carrd.co
“Alexa, para que serve um exército quando o centro do poder já não teme a lei?” A pergunta parece absurda. Talvez por isso mesmo seja útil neste momento de poucas luzes. Há questões que só conseguem aparecer pela ironia, porque a linguagem comum já foi domesticada demais para dizer o essencial.
Um exército existe, em tese, para proteger a soberania, defender a integridade territorial, resguardar a Nação contra ameaças externas e, em situações extremas, sustentar a própria possibilidade de existência do Estado. Mas há um problema pouco confortável nessa definição: ela pressupõe que ainda exista uma distinção razoavelmente clara entre Estado, governo, poder e crime.
Quando essa distinção se dissolve, tudo se complica para a sociedade.
Não se trata de perguntar se militares devem governar. Não devem. Ponto. Essa é uma falsa saída, quase sempre vendida por quem não compreendeu nem a política nem a caserna. A pergunta é outra: como preservar a ideia de Defesa Nacional quando parte relevante da estrutura de poder já não se comporta como guardiã da lei, mas como sua administradora seletiva?
A crise, nesse caso, não é apenas institucional. É moral.
Uma nação pode sobreviver a governos ruins. Pode sobreviver a erros administrativos, a ciclos econômicos medíocres, a lideranças fracas e até a períodos de confusão política. O que ela dificilmente suporta por muito tempo é a normalização da inversão: quando o cidadão honesto passa a temer o Estado, e o infrator passa a manejá-lo.
Nesse ambiente, o soldado permanece no quartel, o juiz permanece no tribunal, o parlamentar permanece no plenário, o burocrata permanece no gabinete — mas algo essencial já saiu do lugar. A forma segue de pé. O espírito, porém, começa a desertar.
E talvez seja essa a verdadeira tragédia: não a ausência de instituições, mas a presença de instituições esvaziadas de finalidade; instituições que foram sequestradas para atender interesses inconfessáveis.
Daí nasce, repito, a pergunta incômoda: para que serve a força organizada de uma nação se ela já não consegue reconhecer com clareza o que deve proteger?
Defender fronteiras é indispensável. Mas e quando a erosão vem de dentro?
Proteger o território é missão nobre. Mas e quando o saque não cruza a fronteira, apenas atravessa corredores oficiais no centro do poder?
Preparar-se contra ameaças externas é dever permanente. Mas e quando a ameaça mais corrosiva é a fábrica de narrativas tendenciosas, a naturalização da mentira, da impunidade e da captura do Estado?
Nenhum exército sério existe para substituir a política. Mas também não pode fingir que a política, quando degradada, não afeta a própria Defesa e a Segurança Pública.
Uma Força Armada não é partido político, não é tribunal, não é polícia moral da República. Contudo, também não pode ser reduzida a ornamento fardado de cerimônias, distribuidora de condecorações a esmo, enquanto a substância nacional se desfaz ao redor.
O dilema é cruel: quando a lei perde autoridade moral, a ordem vira encenação.
E, quando a ordem vira encenação, todos passam a representar papéis. O governante representa legitimidade. A burocracia representa neutralidade. A imprensa venal representa espanto seletivo. As instituições representam normalidade. E os homens de farda, muitas vezes, representam disciplina diante de um palco que já não respeita o próprio roteiro.
Talvez a resposta à pergunta da Alexa seja simples e dura: um exército ainda serve para defender a Nação.
Mas, para isso, precisa lembrar que a Nação não é o governo. Não pertence ao ocupante temporário do cargo. Não é a conveniência do momento. Não é o medo de desagradar poderosos.
A Nação é algo anterior, mais profundo e mais permanente: é o povo, o território, a memória, a língua, a continuidade histórica, a esperança comum e o pacto invisível entre os que vieram antes e os que ainda virão.
Quando o centro do poder deixa de temer a lei, a primeira missão de qualquer instituição séria é não perder a vergonha na cara.
Porque, antes de faltar munição, combustível, comida no rancho, soldo, orçamento para existir ou doutrina, uma nação começa a perder-se quando suas legiões já não sabem a quem servem.
E talvez seja por isso que a pergunta continue ecoando:
Para que serve um exército quando o centro do poder já não teme a lei?
Serve, antes de tudo, para lembrar — se ainda tiver um mínimo de dignidade — que a farda não pertence ao governo.
Pertence à Nação.
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