Da perda de uma fazenda no interior paulista à advocacia nos Estados Unidos: a trajetória de uma brasileira que transformou adversidade em propósito

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Da perda de uma fazenda no interior paulista à advocacia nos Estados Unidos: a trajetória de uma brasileira que transformou adversidade em propósito

Em uma casa simples de dois cômodos, no interior de São Paulo, uma menina cresceu aprendendo cedo que estabilidade não era garantia era conquista diária. Décadas depois, seria justamente essa percepção sobre perda, reconstrução e perseverança que a levaria a construir uma carreira jurídica nos Estados Unidos, onde hoje auxilia brasileiros em processos migratórios e de regularização.

A história começa em Campinas, em uma família onde trabalho e disciplina faziam parte da rotina. O pai foi o primeiro a concluir o ensino superior. A mãe estudou apenas até a quarta série antes de começar a trabalhar. Os recursos eram limitados, mas havia uma certeza dentro de casa: o futuro dependeria de esforço e educação.

Ainda criança, acompanhou os pais construindo, aos poucos, uma nova casa para a família. As paredes surgiam conforme o dinheiro permitia e a mudança aconteceu antes mesmo da conclusão da obra. A experiência ajudou a moldar uma visão de vida baseada na adaptação constante e na capacidade de seguir em frente diante das incertezas.

Mas foi aos 15 anos que sua trajetória mudou de rumo.

A família perdeu cerca de 100 alqueires de terra em Lençóis Paulista após uma disputa judicial. O episódio representou seu primeiro contato com o impacto que uma decisão jurídica pode ter sobre a vida de uma família inteira.

Foi naquele momento que decidiu se tornar advogada.

Anos depois, parte da família se mudou para os Estados Unidos. O que parecia uma experiência temporária acabou se tornando definitivo. Vieram os desafios da adaptação, dos estudos e do trabalho. Houve períodos em que manteve até três empregos simultaneamente, além de atuar como modelo para ajudar a financiar sua formação acadêmica.

“Houve momentos em que eu me sentia completamente sozinha. Mas também foi nesse processo que entendi que resistência não é ausência de medo. É continuar mesmo sem saber exatamente como tudo vai terminar”, afirma.

Sua trajetória acadêmica incluiu a graduação em Contabilidade pela University of Central Florida e, posteriormente, o doutorado em Direito pela Barry University, concluído com honras. Durante esse período, conciliou os estudos com a maternidade e, posteriormente, conquistou aprovação nos exames da Ordem dos Advogados de Nova York e Nova Jersey.

A carreira jurídica começou na Flórida e encontrou um propósito natural junto à comunidade brasileira. Com o crescimento da imigração, passaram a surgir cada vez mais solicitações de orientação jurídica em português. O que começou com atendimentos pontuais transformou-se em uma atuação dedicada a brasileiros que buscam construir uma vida legalmente estruturada nos Estados Unidos.

Hoje, à frente do próprio escritório, trabalha diariamente com histórias marcadas por recomeços, inseguranças e expectativas.

“Muitos chegam aos Estados Unidos sem rede de apoio, tentando reconstruir a vida enquanto lidam com medo, pressão emocional e dúvidas jurídicas. O processo migratório mexe profundamente com a identidade das pessoas”, explica.

Ao longo da carreira, também participou de palestras e encontros voltados à comunidade brasileira no exterior, incluindo eventos realizados em ambientes ligados a instituições como Yale, Harvard e MIT.

Ao conversar com brasileiros que desejam viver nos Estados Unidos, fala não apenas como advogada, mas como alguém que conhece as dificuldades do processo por experiência própria.

A casa de dois cômodos ficou no passado. O que ela representa, porém, permanece atual: a ideia de que algumas trajetórias conseguem transformar adversidades em oportunidades — e, no processo, abrir caminho para que outras pessoas também enxerguem novas possibilidades.

 

Por Coluna João Costa em 06/06/2026
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