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Por Igor Mello via ICL
“Prezado Rodrigo, boa tarde! Tudo bem? De acordo com conversas entre nossas diretorias, gostaríamos de cadastrar o Banco Master e o Banco Master de Investimentos na Cedae”, escreveu em um email Sandra Rullo, head de Planejamento Estratégico do Banco Master de Investimentos. A executiva enviou a mensagem no dia 27 de junho de 2023.
A resposta de Rodrigo Borges Mendes, gerente financeiro da Cedae, veio dois dias depois: “Sandra, necessito informações financeiras do banco, como: PL, indicadores que representam solidez financeira e rating”.
O diálogo é o início da negociação que levaria a um investimento de mais de R$ 200 milhões da estatal de saneamento básico do governo do Rio de Janeiro em fundos do banco de Daniel Vorcaro. A conversa seria mera formalidade, não fosse um detalhe crucial: àquela altura, as normas internas da Cedae proibiam que a companhia alocasse dinheiro no Master.

Email entre executiva do Banco Master e gerente da Cedae (Crédito: Reprodução)
Diante dessa proibição, executivos da Cedae indicados pelo ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) fizeram uma série de mudanças na política de investimentos da estatal. Em muitos casos, as alterações parecem feitas sob medida para permitir que dinheiro fosse aplicado no banco de Vorcaro, à revelia até mesmo de um parecer jurídico que apontava todos os riscos contidos na manobra.
A autorização para o aporte no Master veio poucos dias após as alterações serem concluídas, em setembro de 2023. O dinheiro deixou os cofres da empresa em outubro daquele ano.
Essa corrida contra o tempo é minuciosamente exposta por centenas de páginas de documentos obtidos com exclusividade pelo ICL Notícias. Eles integram um processo em curso na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para investigar possíveis irregularidades na operação.
As circunstâncias do aporte milionário também entraram na mira do desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro. Ele substituiu Aguinaldo Ballon, escolhido por Cláudio Castro para comandar a Cedae em março de 2023, e nomeou em seu lugar o procurador do Estado Rafael Rolim.
O ICL Notícias apurou com exclusividade que a primeira medida de Rolim como presidente da Cedae foi determinar a criação de uma Comissão de Sindicância para “apurar as responsabilidades sobre os investimentos realizados pela Companhia, em particular os feitos no Banco Master”. A investigação foi iniciada nesta semana e tem prazo de 30 dias para ser concluída.
Mudanças beneficiaram Master
As mudanças foram conduzidas por dois nomes vindos da cozinha do Palácio Guanabara. Nomeado diretor financeiro da Cedae em novembro de 2022, Antonio Carlos dos Santos havia ocupado o cargo estratégico de assessor-chefe do gabinete de Castro pouco antes de ir para a estatal, entre junho e setembro de 2022.
A ascensão de poder no governo Castro representou uma reabilitação para ele: policial federal aposentado, Santos chegou a ser mencionado em um relatório da PF na investigação que culminou na queda de Wilson Witzel do governo, sob a acusação de corrupção na saúde durante a pandemia de covid-19. Santos aparece como um nome ligado a José Carlos de Melo, ex-pró-reitor da Universidade Iguaçu (Unig), um dos pivôs daquele escândalo.

Antonio Carlos dos Santos (esq) e Aguinaldo Ballon (dir) posam com João Doria durante evento do Lide: cúpula da Cedae é ligada a Cláudio Castro (Crédito: Reprodução/ Instagram)
Foi Santos o principal responsável por conduzir as mudanças que afrouxaram as regras de investimentos da Cedae e, de quebra, acabaram por beneficiar o Master.
O principal entrave para o investimento da estatal no conglomerado de Daniel Vorcaro dizia respeito às avaliações de crédito. Àquela altura, o Banco Master só era avaliado por uma agência de rating internacional: a Fitch dava a nota de BBB — à instituição financeira — a menor classificação que ainda é considerada grau de investimento.
As normas da Cedae, por sua vez, exigiam a avaliação por duas das três gigantes do setor — além da Fitch, fazem parte do grupo a Standard and Poor’s e a Moody’s. Pior: exigia uma nota mínima de A –, muito acima da classificação dada ao banco de Vorcaro.
Santos resolveu os dois problemas em uma tacada só: reduziu a exigência de avaliação para apenas uma agência de rating, e a nota mínima para a BBB –, justamente a classificação obtida pelo Master.
Ativos com esse rating mais baixo passaram a poder receber investimentos de até 10% da carteira da Cedae. Com os R$ 200 milhões aportados, o Master chegou a dispor de 9,49% das aplicações da estatal em dezembro de 2023 — ocupando quase toda a margem prevista para instituições financeiras com classificação mais baixa.

Investimentos da Cedae em dezembro de 2023: Master tinha uma das maiores fatias, mesmo tendo pior rating (Crédito: Reprodução)
Isso colocou o banco de Vorcaro como o terceiro maior destino de investimentos da Cedae, atrás apenas da Caixa Econômica Federal e do Santander. O Master, um banco surgido em 2019, tinha a mesma fatia do Bradesco, 3º maior banco do país. E ficava acima de outros gigantes do setor como o Banco do Brasil e o BTG Pactual.
Demora para recuperar dinheiro
Após a mudança nas regras internas, a cúpula da Cedae aportou R$ 200 milhões no Master em outubro de 2023.
O CDB do Master prometia uma rentabilidade superior a 116% do CDI, uma taxa considerada no mercado muito alta para esse tipo de aplicação. A informação consta em uma nota técnica elaborada por Hedmilton Mourão Cardoso e Mauro Luís Rodrigues Marques, dois dos principais assessores de Santos na Cedae. O documento foi elaborado no dia 2 de outubro de 2023 — mesma data em que os R$ 200 milhões foram transferidos da Cedae para o Master.
O documento também informa que os CDBs do Master estariam ligados a dois fundos de investimento: o G5 Acqua Fundo de Investimentos Renda Fixa Simples e o Sul América Premium Fundo de Investimentos Renda Fixa Referenciado DI Crédito Privado.
Outra das alterações feitas na política de investimentos foi justamente a ampliação do rol de tipos de fundos que poderiam receber investimentos da Cedae, autorizando que o dinheiro fosse parar em investimentos com maior risco.
Notícias sobre a situação financeira caótica do conglomerado de Daniel Vorcaro ganhavam espaço na imprensa desde o fim de 2024 — quando a revista piauí publicou uma extensa reportagem sobre o assunto. Embora tivesse a obrigação de monitorar a situação dos bancos nos quais investia, a diretoria da Cedae só se movimentou para recuperar os recursos em posse do Master em setembro de 2025, após o Banco Central (BC) negar a compra do banco de Vorcaro pelo BRB.
Outra nota técnica afirma que “o Banco Master foi impactado por mídia negativa relacionada à dúvida sobre a sustentabilidade de seu modelo de crescimento” e garante que “todo esse movimento foi monitorado de perto”. O parecer diz que a compra do Master pelo BRB, cujo burburinho surgiu em março de 2025, “impulsionaria a estratégia de negócios” de Vorcaro e “geraria maior dinamismo” para o BRB. “Conceitualmente o negócio fazia sentido para ambas as instituições”, avalia a Cedae.
A negociata envolvendo o Master e o banco estatal do Distrito Federal, sob o governo de Ibaneis Rocha (MDB-DF), fez água e a estatal de saneamento do Rio de Janeiro foi pega de calças curtas. O anúncio do veto do BC ocorreu em 3 de setembro de 2025.
A movimentação para recuperar o dinheiro aplicado só começou no dia seguinte, mas já era tarde demais. A primeira solicitação de resgate do valor aplicado foi feita pela Cedae no dia seguinte ao veto do BC. E o horário do email denota o desespero da medida: às 8h01 daquela manhã, o gerente financeiro Rodrigo Borges Mendes escreveu: “Conforme orientações do assessor I Mauro Marques, solicito o resgate total referente ao CDB do Banco Master, ativo CDB425CRQ0H”.
Às 15h50, Mendes volta a cobrar a devolução do dinheiro ao executivo do Master Alberto Felix de Oliveira Neto: “Estamos aguardando o resgate e a transferência do valor“, escreveu o gerente.
Sem condições de arcar com a avalanche de pedidos de resgate de suas aplicações, a cúpula do Master tentou ganhar tempo. “Recebemos a comunicação de resgate da aplicação abaixo e solicitamos sua reconsideração neste momento”, respondeu Oliveira Neto.
O executivo tentou tranquilizar a Cedae, ao afirmar que o Master iria insistir no negócio com o BRB: “Informamos que as instituições mantêm o interesse na operação e estão realizando as tratativas para a continuidade da operação. Não obstante, informamos que o Master possui planos adicionais para que permaneça a continuidade dos seus negócios independente da realização da operação”.
A proposta de Vorcaro era manter sob a posse do banco os R$ 200 milhões aplicados originalmente e devolver para a Cedae apenas o rendimento que o CDB havia acumulado até então, cerca de R$ 50 milhões. Propunha fazer isso em suaves prestações: apenas R$ 10 milhões seriam devolvidos ainda em setembro de 2025. A partir daí, queria pagar R$ 10 milhões por mês até janeiro de 2026.
Só então o Master passaria a devover os R$ 200 milhões investidos, novamente em prestações mensais de R$ 10 milhões, somados rendimento dos juros mensais. O plano de Vorcaro faria com que o dinheiro só voltasse integralmente para os cofres da estatal em setembro de 2026.

Email de Antonio Carlos dos Santos propõe parcelamento ao Master (Crédito: Reprodução)
O risco do Master quebrar já era discutido abertamente no mercado, mas Antonio Carlos Santos e Aguinaldo Ballon toparam parcelar o dinheiro a que a Cedae tinha direito. Santos exigiu apenas que as parcelas fossem de R$ 20 milhões por mês.
A primeira foi depositada pelo Master em 15 de setembro de 2025. Mais R$ 20 milhões foram transferidos pelo Master em outubro, em dois pagamentos.
O derretimento do Master logo veio: o rating do banco despencou para CC na classificação da Fitch, o que representa, na prática, risco iminente de calote. O saldo que a Cedae ainda tinha a receber era de R$ 220.486.968,53.
O calote viria a se confirmar em novembro, quando o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do império de Daniel Vorcaro.
Hoje, a Cedae mobiliza escritórios de advocacia e a consultoria G5 Partners para tentar recuperar o dinheiro perdido no Banco Master. A despesa, contratada sem licitação, deve superar a casa dos R$ 10 milhões.
Ligação com Cláudio Castro
Embora não represente diretamente dano aos cofres públicos, o rombo na Cedae na prática afeta as já combalidas contas do estado do Rio de Janeiro. Isto porque o governo fluminense é dono de mais de 99% das ações da empresa — e quase todo lucro distribuído pela Cedae vai para o caixa do Palácio Guanabara.
Só em 2025, a Cedae remeteu R$ 242,3 milhões em lucros e dividendos ao governo do estado, mesmo diante das perdas com a liquidação do banco de Daniel Vorcaro.

Aguinaldo Ballon e Cláudio Castro em camarote na Marquês de Sapucaí (Crédito: Reprodução/ Instagram)
O episódio liga diretamente a movimentação em favor do Master na Cedae à cúpula do governo Cláudio Castro. Além de Antonio Carlos dos Santos, que foi assessor direto do ex-governador, o presidente da Cedae também era ligado ao grupo político que controlava o estado.
Antes de assumir o comando da Cedae, Aguinaldo Ballon foi o braço direito do secretário da Casa Civil de Castro, Nicola Miccione. Miccione era considerado uma espécie de primeiro ministro no governo do Rio e era o sucessor dos sonhos de Cláudio Castro para o mandato tampão de governador provocado por sua renúncia, em março deste ano.
Nos bastidores da política fluminense, é consenso que Castro e seus aliados colocaram pessoas de confiança em uma série de postos estratégicos na empresa pública de saneamento, com o objetivo de fazer uso político da empresa.
Desde seu primeiro mandato, Castro viu na Cedae uma galinha dos ovos de ouro. Os bilhões arrecadados com os leilões de concessão para a iniciativa privada dos serviços de saneamento em dezenas de municípios bancou sua reeleição.
Por um lado, o dinheiro permitiu a realização de obras por todo o estado –movimento essencial para elevar a popularidade do até então desconhecido governador. Por outro, irrigou com centenas de milhões de reais a contratação de cabos eleitorais nos cargos secretos da Fundação Ceperj e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Ironicamente, foi justamente o escândalo dos cargos secretos que deixou Castro inelegível.
Em dezembro de 2025, Castro envolveu a Cedae em nova polêmica: uma pedalada fiscal de mais de R$ 150 milhões. Castro deveria ter pago o valor para a Cedae até o fim de 2025, mas decidiu adiar o pagamento para o fim do primeiro trimestre deste ano, quando já estaria fora do Palácio Guanabara. A manobra revelada pelo ICL Notícias injetou dinheiro que deveria sanear a estatal para Castro gastar às vésperas de deixar o governo para concorrer ao Senado.
Ballon e Santos aprovaram a medida mesmo diante das perdas causadas pela aplicação no Banco Master, que fizeram os cofres da companhia sangrarem. Conforme noticiou o ICL Notícias, Aguinaldo Ballon não se opôs. Afirmou que o adiamento do repasse pelo governo do estado “não representa risco financeiro para a Companhia, pois a mesma possui recursos suficientes para a realização do pagamento integral dos dividendos”. Contudo, semanas depois o indicado de Castro afirmou ao Conselho de Administração da Cedae que cortes seriam necessários para sanear as contas da empresa, dada a previsão de déficit para 2026.
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