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O Rio de Janeiro é mesmo um estado com memória curta e paciência menor ainda. Por anos, operação policial era sinônimo de reclamação, protesto e desconfiança. “Só faz barulho”, “atrapalha trabalhador”, “não resolve nada”, “só aparece em época de interesse”. Era esse o repertório. Agora, quando a megaoperação entra em cena com força total, o mesmo povo que vivia no modo crítica aparece no modo aplauso. E não é achismo, é número.
Levantamento divulgado em janeiro de 2026 aponta que quase 70% dos fluminenses aprovam a megaoperação policial deflagrada no Rio de Janeiro. A pesquisa Arrow Pesquisas mostra 68,85% favoráveis e 24,43% contrários. Traduzindo para o português das ruas: a maioria está dizendo “vai pra cima” e uma minoria ainda segura o “pera aí”.
E é aí que mora a ironia. O povo não virou fã de operação, não. O povo virou foi refém do cansaço. O fluminense cansou de acordar com notícia de tiroteio, de perder ônibus por causa de barricada, de viver com medo de bala perdida, de ver comércio fechando cedo e criança crescendo achando normal o som de rajada. Quando a vida vira sobrevivência, a discussão fica simples. Entre o desconforto da operação e o conforto do crime mandando, o povo escolhe o que parece mais próximo de ordem.
Essa pesquisa da Arrow não é só sobre aprovação. Ela é um termômetro do humor popular, e o humor popular está no limite. Não é amor pela polícia, é desespero por paz. Não é torcida por confronto, é pedido por circulação. O trabalhador quer ir e voltar. A mãe quer que o filho chegue em casa. O idoso quer andar na rua sem medo. O comerciante quer abrir a porta sem pagar pedágio para bandido. A comunidade quer viver sem dono.
O curioso é que outras pesquisas, em outros momentos, já mostraram o contrário. Quando o clima era outro, quando a operação parecia mais teatro do que resultado, a opinião pública batia pesado. Reclamava do impacto no dia a dia, reclamava do excesso, reclamava da falta de estratégia, reclamava que o Estado só lembrava de certos lugares para entrar armado e sair correndo. A crítica era quase automática. Só que o crime também não ficou parado. Cresceu, se organizou, ocupou espaço, fez do medo um serviço diário. Aí, meu amigo, a régua muda.
No Rio, a população não é incoerente. Ela é prática. Se a sensação é de abandono, pede presença. Se a presença vem com barulho, reclama do barulho. Se o barulho promete resultado, aplaude o barulho. É uma sociedade cansada de promessas e viciada em urgência. E quando a urgência domina, a operação vira esperança, mesmo que seja esperança de curto prazo.
O recado desse levantamento é direto e sem romantismo. O fluminense está pedindo ação e está pedindo agora. A mesma operação que ontem era “problema” hoje virou “solução”, nem que seja por alguns dias de alívio. E se tem uma coisa que o povo aprendeu é que, no Rio, alívio virou artigo de luxo.
No fim das contas, a pergunta não é se o povo gosta de operação. A pergunta é outra, bem mais incômoda: o que aconteceu com o Rio para a população aplaudir qualquer sinal de força como se fosse salvação. Porque quando a sociedade começa a comemorar o mínimo como se fosse vitória, é sinal de que a rotina já passou do aceitável faz tempo.
Por: Arinos Monge.
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