Dois filmes, dois ex-presidentes um ganhou R$ 1 milhão e o outro R$ 159 milhões em fundos suspeitos: o cinema político brasileiro tem um novo gênero — o true crime

Dois filmes, dois ex-presidentes um ganhou R$ 1 milhão e o outro R$ 159 milhões em fundos suspeitos: o cinema político brasileiro tem um novo gênero — o true crime

Vorcaro bancou cinema político: Temer levou R$ 1 milhão, Bolsonaro… bom, senta que lá vem história

Enquanto o documentário sobre o emedebista custou uma fração do orçamento, o longa sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro recebeu um investimento 159 vezes maior — e a Polícia Federal quer saber de onde veio o dinheiro

O ditado popular diz: "Quem tem padrinho não morre pagão." E, pelo visto, quem tem um banqueiro com acesso a fundos bilionários também não morre sem um documentário bonitinho contando sua versão da história. O problema é quando o "padrinho" está preso e o dinheiro… bem, o dinheiro tem cheiro.

O marqueteiro Elsinho Mouco — e olha que o sobrenome é irônico para quem passou o dia desmentindo e depois confirmando a própria história — admitiu que o Fundo Moriah Asset, vinculado à família Vorcaro, investiu R$ 1 milhão no filme "963 Dias", documentário sobre o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB).

Inicialmente, Elsinho negou o patrocínio. Depois voltou atrás. Depois o jurídico entrou em cena. Depois ele soltou uma nota. Parece mais roteiro de novela das nove do que produção cinematográfica.

"Fui procurado com perguntas sobre o apoio financeiro do Banco Master ao filme. Como contratos de patrocínio podem conter cláusulas de confidencialidade, respondi que a lista de patrocinadores seria conhecida no dia da estreia", disse Elsinho em nota. "Diante do noticiário recente, nosso jurídico entendeu que o interesse público deveria prevalecer sobre o sigilo."

Traduzindo: o buraco é mais embaixo.

O filme que vale uma fortuna… dos outros

O documentário sobre Temer teve orçamento total de R$ 12 milhões. O fundo Moriah Asset comprou uma cota de R$ 1 milhão — menos de 10% do total. Até aí, nada de anormal. Teria sido um mecenato cultural legítimo, daqueles que qualquer empresa faz para pagar de bonitinha no Carnaval.

O problema é o outro filme.

O longa "Dark Horse", sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL) — e pasmem, estrelado pelo ator Jim Caviezel, o mesmo que interpretou Jesus Cristo em A Paixão de Cristo — recebeu R$ 159,2 milhões de fundos e estruturas financeiras investigadas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.

Desse montante, estima-se que R$ 61 milhões tenham saído diretamente do bolso (ou dos fundos) de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, atualmente preso em Brasília acusado de comandar um esquema de fraudes financeiras.

Como diz o outro ditado: "Quem anda com os porcos, farelo come." A diferença é que, neste caso, quem andou com os porcos comeu R$ 159 milhões.

O áudio que não deveria ter vazado (mas vazou)

Na quarta-feira (13/5), o site Intercept Brasil revelou que o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu patrocínio de Vorcaro para o filme sobre a história do pai. Mensagens e áudios do senador cobrando pagamentos relacionados ao longa vieram a público.

Interlocutores de Flávio, claro, tentaram normalizar. "Ah, é só um funcionamento privado", disseram. "Vorcaro também financiou filmes sobre Temer e sobre o Lula."

O detalhe inconveniente? O ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social (Secom), negou qualquer patrocínio do dono do Banco Master a obras sobre o atual presidente Lula. Ou seja: tentaram usar Lula como escudo, mas o escudo estava furado.

O dinheiro que a PF quer contabilizar

Os relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontam que a Entre Investimentos e Participações aparece como intermediária de pagamentos ligados ao filme Dark Horse. A empresa recebeu ao menos R$ 159,2 milhões de fundos investigados.

A PF ainda tenta descobrir quanto desse montante foi parar efetivamente na produção cinematográfica e quanto foi desviado para empresas envolvidas no longa. O projeto total previa investimento de R$ 124 milhões — e a participação de Vorcaro sozinho representa quase metade de todo o orçamento.

Para efeito de comparação: enquanto o filme de Temer recebeu R$ 1 milhão de um fundo vinculado à família Vorcaro, o filme de Bolsonaro recebeu R$ 61 milhões — ou 61 vezes mais se considerarmos apenas a parte do próprio Daniel Vorcaro, e 159 vezes mais se considerarmos o total dos fundos investigados.

Ou, como diria o poeta no monólogo: "Se isso fosse um crowdfunding, o filme do Bolsonaro teria arrecadado o equivalente a 159 pessoas dando R$ 1 milhão cada. Só que, neste caso, o dinheiro veio de fundos que a polícia está investigando. Mas tudo bem, é só uma produção cultural, né?"

Uma história, dois pesos, duas medidas

O documentário de Temer se chama "963 Dias" — referência ao período em que ele esteve no poder após o impeachment de Dilma Rousseff. A estreia está prevista para o final de junho. Será interessante ver os créditos finais e conferir quantos patrocinadores aparecem — agora que o jurídico autorizou a divulgação.

Já o filme de Bolsonaro, Dark Horse, continua sob investigação. E o ator Jim Caviezel, que viveu Jesus no cinema, agora vive um ex-presidente que a PF investiga. Hollywood que se cuide: parece que o mercado de "biografias bancadas por investigados" virou um gênero próprio no Brasil.

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Por Ultima Hora em 14/05/2026
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