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A lenda que vira exemplo: no aniversário de Ralph Gracie, a família que escreveu a história do jiu-jítsu e o poder do esporte como ferramenta de transformação social

Foto no aniversário: Malvino Salvador ator e Jiujiteiro e Ralph gracie
Entre kimônos e política, o patriarca do MMA nacional recebe amigos, autoridades e — nos bastidores da festa — acende o debate sobre segurança, drogas e o futuro da juventude brasileira
Uma data para celebrar o legado
No último dia 25 de maio, Ralph Gracie completou 54 anos. Mas o que poderia ser apenas mais uma comemoração familiar ganhou contornos de encontro histórico. O lutador, faixa preta de sétimo grau em jiu-jítsu brasileiro e membro da dinastia que revolucionou as artes marciais no mundo, recebeu amigos, discípulos e lideranças em uma celebração que reuniu esporte, memória e posicionamentos políticos.
Com mais de três décadas de carreira, Ralph não é apenas um dos nomes mais respeitados do MMA mundial — é também guardião de um legado que começou com seu avô Carlos Gracie e seu tio-avô Hélio Gracie, os patriarcas que transformaram o jiu-jítsu em fenômeno global. Foram eles que desenvolveram a filosofia em que um lutador mais fraco pode derrotar um oponente mais forte usando técnica, alavancas e estrangulamentos.
A equipe do Jornal da República e Última Hora esteve presente e conversou com exclusividade com dois dos convidados: Ralph Gracie e o subtenente Nei Machado, o "Batata da Madsen", policial militar, bacharel em Direito e hoje um dos comentaristas mais ouvidos do país no Fala Glauber News.
"A família Gracie já livrou muita gente das drogas"
O papo, descontraído, logo encontrou um tema central: o poder do esporte como agente de transformação. Ralph Gracie, que construiu um império de academias que vai da Califórnia à Flórida — com unidades em Berkeley, São Francisco, Sacramento, San Jose, Anaheim, entre outras —, não esconde a convicção de que o jiu-jítsu vai muito além da luta.
"A juventude precisa do esporte, porque o esporte traz disciplina. E a disciplina hoje é uma das coisas que está se perdendo na família brasileira. Não é só entre os jovens, não. O esporte salva vidas."
A fala encontra respaldo nos fatos. Estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2024 aponta que jovens inseridos em programas esportivos regulares têm 49% menos probabilidade de se envolver com drogas ilícitas. No Brasil, projetos sociais baseados em artes marciais — como os mantidos por diversas academias da família Gracie — têm sido apontados por especialistas como política pública informal de prevenção à criminalidade.
Batata, que vive na linha de frente do combate ao crime no Rio de Janeiro, endossou o discurso com a autoridade de quem vê a realidade das ruas todos os dias.
"O esporte devolve disciplina aos jovens. A família brasileira está se perdendo, e o esporte devolve isso. A gente faz a diferença na vida dos outros, que é o mais importante."
Ele relatou um caso emblemático: um amigo árbitro internacional de jiu-jítsu que teve a vida "lapidada pela droga" e foi salvo pelo esporte. "Quem salvou ele foi o jiu-jítsu. Hoje é um árbitro extremamente respeitado."
A polêmica que atravessou a festa
O tom de celebração deu espaço a um debate político contundente quando o assunto se voltou para declarações recentes do presidente Lula. O repórter provocou: "Batata, o que você achou do Lula chamando os outros de miliciano, de mafioso?"
A resposta foi direta.
"Infelizmente ele não tem a mínima consciência do que está falando. A prova disso é que quando ele diz que o problema da criminalidade está no viciado, porque o traficante seria a vítima da relação, ele destrói qualquer raciocínio concreto. Na verdade, eu acho que o objetivo é destruir a família. Ele já falou várias vezes que a família é uma coisa importante, mas o que ele faz é tentar destruí-la. E a gente não pode destruir nossa família. Família é o mais importante na nossa vida."
A fala ecoa um debate que divide o país. De um lado, defensores da política de redução de danos e descriminalização sustentam que o usuário precisa de acolhimento, não de punição. De outro, vozes como a de Batata e amplos setores da segurança pública apontam que a fragilização do combate ao tráfico e a relativização do papel do criminoso têm contribuído para o agravamento da crise.
Dados oficiais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o Brasil registrou 46.409 mortes violentas intencionais em 2024, e que o tráfico de drogas segue como principal motor da letalidade nos grandes centros urbanos.
Duas gerações, um mesmo propósito
Ralph Gracie representa a terceira geração de uma família que mudou a história das artes marciais. Filho de Robson Gracie — figura central na segunda geração —, ele carrega o sobrenome que virou sinônimo de jiu-jítsu no mundo. Em sua carreira no MMA, acumulou seis vitórias em sete lutas, cinco delas por finalização — estilo que lhe rendeu o apelido de "O Pitbull".
Hoje, suas academias formam milhares de alunos e mantêm viva a filosofia de que o jiu-jítsu é ferramenta de construção de caráter. O Instituto Renzo Gracie, por exemplo — braço social da família —, já impactou centenas de famílias em situação de vulnerabilidade.
Já Batata da Madsen, que soma 1,2 milhão de seguidores no Instagram, construiu uma carreira que mescla atuação policial nas áreas de confronto — onde ganhou notoriedade pela coragem — e presença digital como formador de opinião. Bacharel em Direito, ele sobreviveu a um grave acidente de trem em novembro de 2025 e transformou a experiência em motivação para seguir atuando.
O esporte como política pública que funciona
Os números sustentam o que os dois defendem. Pesquisa do Instituto Esporte & Educação mostra que adolescentes participantes de projetos esportivos regulares apresentam redução de 37% na evasão escolar e aumento de 52% nos índices de autoestima. No universo das artes marciais, os efeitos são ainda mais significativos: a exigência de disciplina, hierarquia e respeito aos mestres cria um ambiente que ressignifica valores.
A família Gracie, ao longo de mais de nove décadas, construiu esse ecossistema. Das primeiras academias no Rio de Janeiro — palco do lendário "Desafio Gracie", que colocava o jiu-jítsu contra outras modalidades — à expansão global com centenas de filiais espalhadas por todos os continentes, a dinastia carioca provou que o esporte de luta pode ser vetor de inclusão.
O episódio, no entanto, expõe um dilema contemporâneo: enquanto figuras como Ralph Gracie e Batata apontam o caminho da disciplina, do esporte e da família como antídoto para a crise social, o debate político institucional parece caminhar em sentido oposto.
"Vamos salvar a família brasileira"
A festa chegava ao fim, mas o recado ficou.
"Nós precisamos pegar um pontinho que nos resta de fôlego e salvar a família brasileira. Vamos que vamos, porque juntos nós somos grandes demais."
O encontro de Ralph Gracie e Batata da Madsen não foi apenas uma confraternização. Foi o encontro de duas vozes que, de frontões diferentes — um das artes marciais, outro da segurança pública —, ecoam o mesmo alerta: sem disciplina, sem valores e sem políticas que fortaleçam a família, o Brasil continuará girando no ciclo da violência.
E, na visão deles, o jiu-jítsu pode ser parte da resposta.

Sobre Ralph Gracie
Membro da lendária família Gracie, Ralph Gracie nasceu em 25 de maio de 1971, no Rio de Janeiro. Faixa preta de sétimo grau em jiu-jítsu brasileiro sob Carlos Gracie Jr., construiu uma carreira invicta no MMA até 2004 — com seis vitórias em sete lutas —, sendo cinco por submissão. Fundador da Ralph Gracie Academy, possui atualmente dez academias espalhadas entre Califórnia e Flórida, onde forma atletas e dissemina a filosofia do jiu-jítsu como ferramenta de transformação pessoal. Treinou grandes nomes do esporte, como o bicampeão do UFC BJ Penn. Em 2018, envolveu-se em um episódio controverso que resultou em suspensão vitalícia da IBJJF, cumprindo pena de três meses de prisão nos Estados Unidos. Apesar da polêmica, seu legado como lutador e difusor do jiu-jítsu brasileiro permanece intacto entre os principais nomes da história da modalidade.

Sobre Nei Machado — "Batata da Madsen"
Subtenente da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Nei Machado ganhou notoriedade nacional por sua atuação combativa em áreas de confronto. Bacharel em Direito, é hoje um dos maiores influenciadores digitais do segmento policial no Brasil, com mais de 1,2 milhão de seguidores no Instagram. Comentarista do Fala Glauber News, ele mescla experiência operacional com análise de segurança pública. Em novembro de 2025, sobreviveu a um grave acidente de trem, do qual se recuperou plenamente. Casado e pai, faz da defesa da família e do combate ao crime organizado as bandeiras centrais de sua atuação pública.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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Fontes: Entrevista exclusiva — Jornal da República/Última Hora; Wikipedia — Ralph Gracie e Família Gracie; Instagram @ralphgracie e @batatadamadsen; BJJ Heroes — Ralph Gracie; Fórum Brasileiro de Segurança Pública; Organização Mundial da Saúde (OMS); Instituto Esporte & Educação; Instituto Renzo Gracie.
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