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A Câmara dos Deputados iniciou o ano legislativo de 2026 em ritmo acelerado — mas não para votar pautas estruturais ou responder às urgências sociais. Menos de 48 horas após a abertura oficial dos trabalhos, deputados aprovaram um pacote de reajustes, reestruturações de carreira e novos benefícios para servidores do Legislativo que amplia despesas públicas e reabre brechas para pagamentos fora do teto constitucional.
O pacote foi votado em regime de urgência na terça-feira (3), um dia depois da sessão solene que marcou a retomada das atividades parlamentares. Na prática, o Congresso começou o ano legislando em causa própria.
As medidas aprovadas envolvem dois projetos: o PL 179/2026, que reestrutura as carreiras dos servidores da Câmara, e o PL 6070/2025, de origem do Senado, que trata da carreira dos servidores da Casa Alta. Juntos, os textos autorizam reajustes salariais, criam novas gratificações e instituem a chamada licença compensatória — um mecanismo que permite a conversão de dias de folga em dinheiro, com caráter indenizatório.
O que foi aprovado em apenas dois dias
O pacote aprovado pelo Congresso reúne uma série de medidas que, somadas, ampliam gastos públicos e criam novos mecanismos de remuneração indireta:
Impacto no orçamento público
De acordo com estimativas técnicas que circularam durante a votação, o impacto global do pacote pode chegar a cerca de R$ 6 bilhões por ano, quando somados os efeitos no Executivo e no Legislativo. A distribuição aproximada é a seguinte:
No caso da Câmara, parte relevante desse impacto decorre da criação de mecanismos que permitem a ampliação da remuneração por fora do teto constitucional.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu as mudanças e afirmou que a medida segue práticas já adotadas em outros órgãos. “A parte da remuneração extrateto nós estamos levando em consideração o percentual de servidores que está no projeto protocolado na Casa da reforma administrativa. O Senado e o TCU [Tribunal de Contas da União] já praticam essa parte de banco de horas. No acordo de líderes se entendeu que a Câmara poderia, sim, adentrar nesse modelo de maneira gradativa”, afirmou.
Como funciona a licença compensatória
Um dos pontos mais criticados do projeto é a licença compensatória, criada para servidores efetivos que ocupem funções comissionadas de nível FC-4 ou superior. O mecanismo funciona da seguinte forma:
Na prática, o dispositivo cria uma forma permanente de remuneração indireta, ampliando ganhos e permitindo a formação de supersalários.
Críticas no plenário
A oposição ao projeto destacou que a recomposição salarial não é o problema central do texto. O foco das críticas foi a criação de penduricalhos e mecanismos que permitem driblar o teto constitucional.
Em declaração ao ICL Notícias, o deputado Tarcísio Motta (PSOL-RJ), líder do partido na Câmara, afirmou que a bancada fez questão de separar a recomposição salarial das distorções incluídas no projeto. “Votamos favoravelmente ao reajuste salarial de 9% para todos os servidores da Câmara, concursados e comissionados, porque defendemos a recomposição das perdas salariais para todos”, disse.
Segundo Motta, a federação PSOL-Rede se posicionou contra qualquer mecanismo que permita supersalários. “Deixamos registrado no Colégio de Líderes que a bancada é contrária a qualquer mecanismo que permita furar o teto constitucional e viabilizar supersalários. O PSOL não participou de nenhum acordo para burlar o teto”, afirmou.
A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) foi ainda mais direta ao criticar os dispositivos do texto. “Os ‘penduricalhos’ do projeto, que criam gratificações de desempenho que podem chegar a 100% do salário-base e ultrapassar o teto constitucional, são vergonhosos. Estamos falando de salários que podem chegar a mais de R$ 70 mil”, afirmou.
Segundo Melchionna, “o problema do projeto não é a recomposição salarial, que é direito legítimo de qualquer trabalhador, mas o descompasso gritante com a renda do povo, o furo do teto e a criação de supersalários”. A deputada lembrou que o PSOL apresentou destaque para retirar o artigo 10, parágrafo 5º, que trata desses benefícios, mas a proposta foi rejeitada simbolicamente no plenário.
A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) também criticou a aprovação do pacote. “Mais uma vez, o Congresso escolhe beneficiar a elite do funcionalismo público e ampliar privilégios. Criam novos benefícios, driblam o teto constitucional e passam por cima da Constituição com autorizações expressas e vergonhosas”, afirmou. “Já passou da hora de o Congresso ter coragem de enfrentar esse tema e colocar de vez a reforma administrativa em debate.”
No Senado, o projeto aprovado segue a mesma linha. A licença compensatória também poderá ser concedida a ocupantes de cargos em comissão e funções de assessoramento superior, com critérios semelhantes e possibilidade de indenização. Os reajustes salariais previstos na Casa Alta são escalonados até 2029.
Prioridades do Congresso
A rapidez da tramitação chama atenção. O regime de urgência encurtou debates, dispensou a análise aprofundada em comissões e permitiu que os textos fossem aprovados praticamente sem alterações, ainda na primeira semana de funcionamento do Congresso em 2026.
Enquanto isso, o impacto orçamentário do pacote contrasta com carências históricas em áreas sociais. Estimativas indicam que o montante anual envolvido seria suficiente para financiar centenas de escolas, milhares de creches ou postos de saúde, ou ainda dezenas de milhares de moradias populares.
A mensagem política é direta: antes de discutir reforma tributária, políticas públicas ou redução de desigualdades, o Congresso resolveu garantir seus próprios benefícios e os de sua estrutura administrativa. Em 2026, o calendário legislativo mal começou — e a fatura já chegou.
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