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Rio de Janeiro transforma diversidade em oportunidade econômica através de feira multicultural
A Secretaria Especial de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Rio de Janeiro implementou uma política pública inovadora que transcende o assistencialismo tradicional: a Feira Multicultural. Esta iniciativa quinzenal representa um modelo avançado de integração socioeconômica que reconhece a dignidade do trabalho como instrumento fundamental de inclusão social para populações em situação de vulnerabilidade migratória.

Foto Ralph Lichotti e Edson Santos, Secretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Rio de Janeiro
Estrutura operacional da política de acolhimento produtivo
A feira, realizada no pátio da Prefeitura na Cidade Nova das 9h às 17h, reúne vinte expositores de treze nacionalidades distintas, incluindo Angola, Congo, Senegal, Venezuela, Colômbia, Argentina, Uruguai, Peru, Chile, Bolívia, Cuba, Síria e Irã. A gratuidade total da infraestrutura oferecida aos participantes demonstra compreensão sofisticada de que políticas públicas efetivas devem eliminar barreiras estruturais que impedem o acesso ao mercado formal de trabalho.
O secretário Edson Santos articula uma visão estratégica que conecta acolhimento humanitário com desenvolvimento econômico local. Sua declaração de que "para algumas pessoas, a feira é a única fonte de renda" evidencia a urgência social que justifica a priorização desta política. A afirmação categórica de que "aqui não tem xenofobia" reflete posicionamento geopolítico que contrasta com tendências discriminatórias observadas em outras democracias ocidentais.
Diversidade produtiva e preservação da identidade cultural
A feira apresenta segmentação organizada que valoriza diferentes expressões culturais: gastronomia com especialidades de Mansilla Matias (Argentina), Madalena José Agostinho (Angola), Dulcipan (Venezuela/Cuba) e Chez Kimberly Food (Congo/Angola); artesanato sustentável de José Valero (Venezuela), Zhue Llamkay Otaiza Albaracin e Zobeida Ortiz; moda identitária de Antônio Zacarias (Raízes Afrikanas), Tutshumu e Miguel Camacho (Juh Artesania).
Esta diversificação demonstra que políticas de integração bem-sucedidas devem reconhecer e valorizar competências específicas que imigrantes trazem de seus países de origem, transformando diferenças culturais em vantagens competitivas no mercado local.
Testemunho de integração e construção de pertencimento
O depoimento de Vanessa Suárez, venezuelana residente há onze anos no Brasil, ilustra como a feira funciona como plataforma de visibilidade comercial e integração social. Sua comercialização de Tequeños, "patrimônio cultural" venezuelano, exemplifica como tradições culinárias podem ser transformadas em instrumentos de sustentabilidade econômica.
Sua descrição dos cariocas como "família" que oferece "colo, sem se importar com cultura, política, gênero, religião, cor ou nação" revela efetividade da política de acolhimento na construção de vínculos comunitários duradouros. A menção ao "início do ano" como "período de vendas mais fracas" demonstra conhecimento prático do mercado local e adaptação estratégica às sazonalidades econômicas.
Contexto geopolítico e fluxos migratórios contemporâneos
Edson Santos contextualiza a iniciativa dentro de tendências migratórias globais intensificadas por "conflitos geopolíticos que estão ocorrendo no mundo". Sua observação de que "o Brasil precisa se posicionar como um contraponto à situação de quase guerra civil que os EUA impõem ao mundo" indica compreensão geopolítica que posiciona o país como alternativa humanitária em cenário internacional crescentemente polarizado.
A menção específica ao corredor da Uruguaiana, onde "centenas de migrantes" trabalham "numa situação de exploração de mão de obra, quase no nível de trabalho escravo", evidencia que a feira representa apenas um componente de estratégia mais ampla de formalização e dignificação do trabalho imigrante na cidade

Expansão territorial e articulação institucional
A SEDHIR planeja expandir a iniciativa através de parcerias que permitam "promover mais edições da feira em outros espaços". A menção à Praça Paris como local adicional para feiras dominicais demonstra estratégia de descentralização territorial que busca ampliar o alcance da política pública.
O chamamento público previsto para meio do ano visa criar mecanismos mais estruturados de identificação e apoio a imigrantes em situação irregular. Esta abordagem proativa contrasta com políticas meramente reativas que aguardam demanda espontânea por serviços públicos.
Memória afetiva e construção de territorialidade
A reflexão de Santos sobre um "congolês recém-chegado ao Rio" que pode "comer a culinária de sua terra natal e se sentir mais perto de casa" revela compreensão sofisticada do papel da alimentação na construção de identidade e pertencimento. A "memória afetiva que ajuda a criar laços e raízes com o novo território" indica que políticas de integração efetivas devem considerar dimensões psicológicas e culturais, não apenas econômicas.
Legado histórico e continuidades migratórias
A trajetória política de Edson Santos, que inclui passagem como Ministro de Políticas de Promoção da Igualdade Racial entre 2008 e 2010, confere legitimidade técnica e política à iniciativa. Sua experiência na implementação de políticas afirmativas em âmbito federal traduz-se em compreensão prática dos desafios enfrentados por populações marginalizadas.
Santos estabelece conexão histórica entre a atual política de acolhimento a imigrantes e o legado brasileiro de recepção de populações africanas escravizadas. Sua referência aos quatro milhões de africanos que chegaram ao Rio de Janeiro demonstra consciência de que a cidade foi historicamente construída através de processos migratórios, voluntários ou forçados.
Políticas afirmativas e democratização do ensino superior
A discussão sobre a Lei 10.639/03 e as políticas de cotas universitárias revela como a experiência de Edson Santos na promoção da igualdade racial informa sua abordagem atual ao acolhimento de imigrantes. Sua observação de que as universidades hoje apresentam "ambiente multicolorido" demonstra compreensão de que diversidade enriquece instituições educacionais.
A crítica à decisão de Santa Catarina de eliminar cotas universitárias evidencia que avanços em políticas de inclusão enfrentam resistências estruturais que exigem vigilância constante. Esta experiência informa sua abordagem preventiva na construção de políticas de acolhimento a imigrantes.
Desafios estruturais e violência institucional
A denúncia de Santos sobre a violência policial contra jovens negros, exemplificada pelo caso ocorrido "no dia do jogo do Flamengo", revela compreensão de que políticas de inclusão devem enfrentar resistências institucionais profundas. Sua análise de que "isso é uma questão política" indica que mudanças efetivas exigem transformações nas estruturas de poder, não apenas políticas setoriais.
A referência ao "problema da uberização" como "escravização dos nossos jovens" demonstra consciência de que precarização do trabalho afeta tanto população nacional quanto imigrante, exigindo abordagens integradas que não fragmentem questões sociais estruturais.
Perspectivas de sustentabilidade e impacto sistêmico
A sustentabilidade da iniciativa dependerá da capacidade de articular recursos orçamentários limitados com parcerias estratégicas que ampliem seu alcance. A natureza "especial" da secretaria, com "orçamento pequeno" e função de "articulação política transversal", exige criatividade na mobilização de recursos e competências de outras áreas governamentais.
O protocolo "carnaval sem racismo" mencionado por Santos exemplifica como a feira se insere em estratégia mais ampla de combate à discriminação e promoção da diversidade cultural. Esta abordagem integrada sugere que políticas de acolhimento a imigrantes podem catalisar transformações sociais mais profundas na direção de sociedade mais tolerante e inclusiva.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
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