Fim ou início do 'preconceito': Vereadores aprovam Projeto oficializa divisão social entre bairros nobres e periféricos, Barra e Recreio ganham nova identidade territorial Zona Sudoeste

Nova Zona Sudoeste atende preconceito histórico contra periferia carioca

Fim ou início do 'preconceito': Vereadores aprovam Projeto oficializa divisão social entre bairros nobres e periféricos, Barra e Recreio ganham nova identidade territorial Zona Sudoeste

Barra e Recreio se livram do "estigma" da Zona Oeste com criação de nova divisão territorial

Moradores de bairros nobres celebram separação de regiões periféricas como Campo Grande e Santa Cruz

A Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro aprovou nesta quinta-feira (14) um projeto que atende a uma antiga reivindicação dos moradores da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes: deixar de fazer parte da Zona Oeste. A criação da Zona Sudoeste representa muito mais que uma simples reorganização territorial - é o reconhecimento oficial de uma divisão socioeconômica que já existia na prática. Para muitos residentes desses bairros nobres, estar associado à mesma zona de localidades periféricas como Campo Grande, Bangu e Santa Cruz sempre foi motivo de desconforto.

O projeto de lei complementar, de autoria do vereador Dr. Gilberto (Solidariedade), agora aguarda sanção do prefeito Eduardo Paes. A nova divisão retira da Zona Oeste justamente seus bairros mais valorizados economicamente, criando uma identidade territorial que reflete melhor o perfil socioeconômico da região. Além da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, a Zona Sudoeste incluirá Vargem Grande, Rio das Pedras e toda a região de Jacarepaguá. A medida atende a uma demanda que vai além de questões administrativas, tocando em aspectos sensíveis sobre identidade e status social.

Historicamente, moradores da Barra da Tijuca e Recreio sempre resistiram à classificação como Zona Oeste, argumentando que suas características urbanas e socioeconômicas diferem drasticamente de bairros periféricos da mesma zona. Enquanto a Barra concentra condomínios de luxo, shopping centers e empreendimentos de alto padrão, localidades como Campo Grande, Bangu e Santa Cruz enfrentam problemas típicos da periferia urbana: deficiência em serviços públicos, infraestrutura precária e indicadores sociais mais baixos. Essa disparidade sempre gerou um sentimento de inadequação territorial entre os moradores dos bairros mais nobres.

O autor do projeto, Dr. Gilberto, apresentou argumentos técnicos para justificar a mudança, falando em "qualificar a expansão urbana" e melhorar a distribuição espacial. No entanto, nas entrelinhas da proposta está o reconhecimento de que a atual divisão territorial não reflete as realidades socioeconômicas distintas. O vereador garantiu que não haverá alterações nas regiões administrativas nem aumento de custos, mantendo os bairros na AP4. Uma consulta à Secretaria de Fazenda confirmou que as alíquotas do IPTU permanecerão inalteradas, tranquilizando moradores preocupados com possíveis impactos financeiros.

A resistência à identificação com a Zona Oeste sempre foi evidente no comportamento dos moradores da Barra e Recreio. Muitos preferem se identificar como residentes da "Baixada de Jacarepaguá" ou simplesmente mencionar o bairro específico, evitando a associação com a zona que abriga algumas das áreas mais carentes da cidade. Essa postura reflete preconceitos sociais arraigados, onde a localização geográfica se torna marcador de status social. A criação da Zona Sudoeste oficializa essa separação, atendendo a expectativas de diferenciação social que já existiam informalmente.

O presidente da Câmara, Carlo Caiado (PSD), enfatizou as garantias sobre manutenção das alíquotas tributárias, mas também reconheceu implicitamente as diferenças regionais. "Enviamos requerimento à Secretaria Municipal de Fazenda para confirmar que as alíquotas não serão alteradas", explicou. Essa preocupação revela a consciência de que mudanças territoriais podem impactar percepções sobre valor imobiliário e status social. A confirmação de que não haverá oneração fiscal foi estratégica para garantir apoio dos moradores mais abastados da região.

A oposição do vereador Pedro Duarte (Novo) à proposta tocou exatamente no ponto mais sensível da questão. O parlamentar expressou receio de que a medida transmitisse a impressão de que "a Barra esteja desconfortável de fazer parte da Zona Oeste e quisesse mostrar ser diferente". Essa observação captura precisamente a motivação subjacente ao projeto: o desconforto real dos moradores em se associar territorialmente com bairros de menor prestígio social. Duarte alertou para o risco de "fragmentar ainda mais a cidade", evidenciando como divisões territoriais podem aprofundar segregações sociais existentes.

A Zona Oeste atualmente abrange 43 bairros e 70% do território municipal, concentrando tanto áreas nobres quanto periféricas. Essa diversidade sempre criou tensões internas, com moradores de diferentes estratos sociais compartilhando a mesma classificação territorial. Bairros como Campo Grande, Santa Cruz e Bangu, apesar de populosos e economicamente importantes, carregam estigmas associados à violência urbana e carências sociais. Por outro lado, a Barra da Tijuca simboliza modernidade e prosperidade, criando um contraste que sempre incomodou seus moradores.

A criação da Zona Sudoeste representa uma vitória para quem sempre defendeu essa separação, mas também levanta questões sobre os critérios utilizados para divisões territoriais. Se fatores socioeconômicos passam a determinar zoneamentos, outras regiões da cidade podem pleitear reorganizações similares. A medida estabelece um precedente perigoso, onde o poder aquisitivo dos moradores pode influenciar decisões sobre organização territorial. Isso pode aprofundar segregações urbanas e criar hierarquias oficiais entre diferentes zonas da cidade.

Os defensores da mudança argumentam que a nova divisão permitirá políticas públicas mais direcionadas e investimentos específicos. O texto do projeto promete que "os bairros que a integram poderão ter investimentos mais delimitados em sua destinação final". Essa promessa soa atrativa para moradores que sempre se sentiram prejudicados por fazer parte de uma zona tão extensa e diversificada. No entanto, críticos apontam que a medida pode resultar em maior concentração de recursos em áreas já privilegiadas, aprofundando desigualdades urbanas existentes.

A expectativa agora recai sobre a decisão do prefeito Eduardo Paes, que pode sancionar ou vetar a proposta. Caso aprovada, a mudança criará oficialmente a sexta zona da cidade, consolidando uma separação que muitos consideram há muito tempo necessária. Para os moradores da futura Zona Sudoeste, representa o fim de uma associação territorial considerada inadequada. Para críticos, simboliza a oficialização de preconceitos sociais e a fragmentação de uma cidade já marcada por profundas desigualdades.

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Por Ultima Hora em 14/08/2025
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