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Claudinha Alencar revela traumas da ditadura e busca patrocínio para espetáculos autobiográficos

Atriz de 50 anos de carreira expõe torturas sofridas na OBAN e prepara duas peças sobre resistência feminina e memórias da ditadura
A renomada atriz Claudinha Alencar, aos 73 anos e com cinco décadas de carreira, concedeu entrevista exclusiva onde revelou detalhes inéditos sobre as torturas que sofreu durante a ditadura militar brasileira. Com 34 novelas, 29 peças teatrais e 26 prêmios em seu currículo, a artista anunciou o desenvolvimento de duas peças autobiográficas baseadas em seus diários íntimos, escritos desde os 13 anos de idade, e busca ativamente patrocinadores para viabilizar os projetos.
Torturas na OBAN: o preço da resistência artística
Aos 20 anos, Claudinha integrava a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e liderava um grupo de teatro que denunciava as atrocidades da ditadura em apresentações de rua. "A gente fazia teatro nas ruas para denunciar, porque a imprensa era proibida", relembrou a atriz. Em 1970, foi capturada pela repressão e levada à Operação Bandeirantes (OBAN), centro de torturas localizado em São Paulo.
Durante dois meses e meio de cativeiro, Claudinha foi submetida a espancamentos, choques elétricos e estupro. "Fui estuprada, apanhei e vi meus companheiros sendo espancados na minha frente", revelou com emoção. Os torturadores queriam informações sobre outros membros da ALN, incluindo planos de sequestro de embaixadores. "Quanto menos informações eu dava, mais eles me espancavam", contou.
A artista jamais delatou companheiros, mesmo sob tortura extrema. "Eles tinham um caderno que tinham várias fotos dos nossos companheiros da ALN, de quem trabalhava com a gente", descreveu, explicando como resistiu às pressões psicológicas dos interrogadores que alternavam entre violência extrema e falsas demonstrações de bondade.
Síndrome do pânico: as cicatrizes invisíveis da repressão
As torturas deixaram sequelas psicológicas profundas que perduraram por uma década. Claudinha desenvolveu síndrome do pânico, condição pouco conhecida na época. "Eu não podia ficar no lugar escuro. Ficava no lugar escuro, eu ia morrer", descreveu. No cinema, precisava localizar as luzes de emergência antes que as sessões começassem para conseguir permanecer no ambiente.
A atriz credita sua recuperação gradual ao trabalho artístico e ao afastamento da militância política direta. "Foi passando à medida que eu fui sendo atriz, fui sendo professora de teatro, me desvinculando um pouco do lado político", explicou. Sua salvação durante o cativeiro foi ter ficado em uma cela que dava para um pátio iluminado, evitando a escuridão total que poderia ter agravado ainda mais seu estado psicológico.

Primeira peça: "A mulher que não disse não"
Claudinha prepara o lançamento de uma peça autobiográfica dirigida por Giovana Pires, baseada em seus seis livros de poesia e trechos de diários íntimos. O espetáculo, intitulado "A mulher que não disse não", aborda a condição feminina ao longo das décadas e a impossibilidade histórica das mulheres de recusarem violências.
"Tudo que eu apanhei, tudo que eu sofri, quase a morte que eu tive, foi por não ter dito não e nem poderia ter dito não", refletiu. A peça conecta sua experiência na ditadura com outras formas de violência de gênero, incluindo relacionamentos abusivos que vivenciou posteriormente. O espetáculo promete mesclar "o sol e a lua", combinando trechos poéticos leves com passagens sombrias de seus diários.
Violência doméstica: um padrão histórico de silenciamento
A atriz relatou episódios de violência doméstica que sofreu ao longo da vida, incluindo agressões do próprio pai e relacionamentos abusivos. "Minha mãe apanhou muito do meu pai e eu apanhei muito do meu pai e a gente não podia dizer que apanhava. Primeiro lugar era uma vergonha", revelou.
Descreveu um relacionamento onde era agredida sempre que tentava terminar o namoro. "Eu tive um namorado que me batia toda vez que eu queria me separar dele", contou, narrando como precisou atuar em uma peça com Gianni Ratto com hematomas roxos nas pernas, visíveis durante cenas íntimas. "Minha perna tava toda preta assim, preta que preta", lembrou.
Claudinha destacou a importância da Lei Maria da Penha e outras legislações de proteção à mulher. "O feminicídio sempre existiu e sempre foi muito forte. Nós agora sabemos do feminicídio", analisou, enfatizando que a diferença atual é a possibilidade de denunciar e buscar ajuda sem o estigma social anterior.
Segunda peça: "Os Camaradas" - confronto com o passado
Paralelamente, a atriz desenvolve outra peça política intitulada "Os Camaradas", que retrata o encontro fictício entre torturados e torturador durante uma ceia de Natal. O enredo explora o "jogo da verdade" entre os personagens, abordando traumas não resolvidos da ditadura militar.
Na trama, a protagonista (interpretada por Claudinha) é uma ex-militante da ALN casada com um deputado federal. Durante uma ceia natalina, eles recebem um vizinho idoso que se revela ser um antigo torturador. A peça ganha contornos sobrenaturais quando aparece o fantasma de Felipe, namorado da protagonista morto na ditadura, que não retornou com a anistia, mas para se despedir.
"No jogo da verdade tudo é falado. O que foram torturados, o que torturou, como eu fui torturada", explicou a atriz, que prefere manter em segredo o desfecho para preservar o impacto dramático.
Reflexões sobre democracia e punição aos golpistas
Claudinha manifestou satisfação com a prisão de envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, incluindo Alexandre Ramagem, comparando com a impunidade histórica dos responsáveis pelo golpe de 1964. "Como é que os golpistas, eu iria imaginar que os golpistas iam ser punidos", questionou, demonstrando esperança na consolidação democrática.
A atriz criticou a influência histórica dos Estados Unidos na América Latina, observando que "sempre império americano fazendo de nós o que eles queriam". Expressou confiança no futuro democrático do Brasil, afirmando categoricamente: "A democracia vai ganhar".
Trajetória artística: talento acima da aparência
Formada em Artes Cênicas pela USP, com pós-graduação em direção teatral e doutorado, Claudinha construiu carreira sólida apesar das adversidades. Iniciou na TV Tupi com Edwin Luiz como galã, passou pela Bandeirantes e consolidou-se na Globo, onde enfrentou tentativas de sabotagem por parte de colegas que se sentiram ameaçadas por seu talento.
Relatou episódio emblemático quando uma protagonista loira tentou removê-la de uma novela por ciúmes do sucesso que fazia interpretando Patativa, namorada do personagem de Osmar Prado. "Eu sou uma atriz de verdade. Eu não sou um rostinho bonito", declarou, destacando que sempre dependeu do talento para conquistar papéis.
A artista também desenvolveu habilidades como artista plástica, escritora e professora universitária, demonstrando versatilidade que a mantém ativa aos 73 anos. "Fazia três faculdades ao mesmo tempo", recordou com orgulho de sua formação acadêmica sólida.
Formação familiar e legado artístico
Mãe de dois filhos que moram em Nova York e São Paulo, Claudinha mantém vínculos familiares sólidos apesar das turbulências do passado. Seus pais, ambos intelectuais - ele sociólogo e filósofo, ela bióloga e nutricionista - inicialmente resistiram à carreira artística da filha, mas ela perseverou seguindo sua vocação.
A atriz relembrou o momento em que o pai, militante do Partido Comunista e líder sindical, a agrediu quando ela manifestou desejo de ser atriz. "Atriz é prostituta e não tem personalidade", disse ele na época, reflexo dos preconceitos sociais dos anos 1960.
Mensagem para nova geração de artistas
Aos jovens artistas, Claudinha deixou mensagem de esperança e resistência: "A vida é bela. Nós que temos valores amorosos, anímicos dentro de nós. Nós que temos fé na vida, no ser humano. É por isso que eu estou criando sempre, cada vez mais".
A atriz enfatizou a importância da honestidade, sinceridade e amor como valores fundamentais para superar adversidades e manter-se criativa. "Continua amando", foi seu conselho final para as novas gerações.
Relevância histórica e educativa dos projetos
Os espetáculos de Claudinha Alencar chegam em momento crucial da democracia brasileira, quando cresce a importância de preservar a memória histórica e educar jovens sobre os perigos do autoritarismo. Seus relatos constituem testemunho vivo de um período sombrio da história nacional, oferecendo perspectiva única sobre resistência, sobrevivência e reconstrução pessoal.
A combinação de arte, política e questões de gênero em suas peças promete contribuir significativamente para debates contemporâneos sobre direitos humanos, violência contra a mulher e consolidação democrática no Brasil.
Tudo indica que serão um grande sucesso, considerando a relevância histórica dos temas abordados e a experiência única da intérprete. Interessados em apoiar os projetos podem entrar em contato através dos canais oficiais da artista. Os espetáculos prometem marcar uma nova fase na carreira de uma das atrizes mais respeitadas do Brasil, oferecendo ao público brasileiro a oportunidade de conhecer relatos inéditos sobre resistência, superação e arte como forma de transformação social.

A Claudia Alencar tem como agentes artísticos Christiano Nascimento e Cida Nunes da Art Hunter Produçoes Artísticas Que também assina a Direção de Produção do espetáculo: “A Mulher que Não disse Não”.
Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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