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O jovem que o mercado esquece: empregabilidade, IA e a crise dos 32 mil sem teto no Rio
Entrevista exclusiva com Luís Gustavo Coppola, superintendente de atendimento do CIEE, no Fórum Empresarial da ANB em Brasília, revela os desafios e as oportunidades para incluir 80 mil jovens no mercado de trabalho em 2026 — enquanto a cidade do Rio de Janeiro lida com 32 mil pessoas em situação de rua e a inteligência artificial ameaça revolucionar as ocupações tradicionais.
O maior programa de inclusão jovem do país
O Centro de Integração Empresa-Escola, mais conhecido como CIEE, é a maior ONG de inclusão de jovens do Brasil. Atua há décadas conectando adolescentes e jovens de 14 a 29 anos a programas de estágio e aprendizagem. Em 2025, a instituição inseriu 65 mil jovens em 10 mil empresas parceiras espalhadas por todo o território nacional. Agora, para 2026, a meta é ainda mais ousada: alcançar 80 mil inclusões, combinando estagiários, aprendizes e pessoas com deficiência.
Luís Gustavo Coppola, que comanda a superintendência de atendimento da entidade, explicou durante o Fórum Empresarial da ANB que o mercado de trabalho brasileiro está aquecido para a contratação de jovens. Segundo ele, as empresas têm demonstrado interesse genuíno em formar novos talentos de acordo com a própria cultura organizacional e os processos internos. "Elas contratam, formam o jovem de acordo com sua cultura e seus processos. Isso gera engajamento e retenção", afirmou.
No Rio de Janeiro, a prefeitura e o governo do estado mantêm programas específicos de contratação de estagiários e aprendizes, o que ajuda a alimentar a máquina pública com mão de obra qualificada e, ao mesmo tempo, oferece a jovens de comunidades periféricas uma porta de entrada para o mercado formal.
Rio de Janeiro: segundo lugar em geração de empregos
Os números recentes reforçam o otimismo. Dados oficiais mostram que o estado do Rio de Janeiro é o segundo que mais gera empregos com carteira assinada no Brasil em 2026. Somente no primeiro trimestre do ano, foram abertas 22.105 novas ocupações formais. É um ritmo que coloca o estado atrás apenas de São Paulo, mas à frente de Minas Gerais e do Sul do país.
No entanto, o entusiasmo dos números contrasta com a realidade das ruas. Enquanto o mercado formal se expande, o IBGE revelou que há 32 mil pessoas vivendo em situação de rua no estado do Rio de Janeiro. A maioria delas está concentrada na capital, especialmente no centro da cidade, região que, segundo moradores e comerciantes, se esvazia após as 18 horas por medo da violência e da insegurança.
Coppola reconhece o paradoxo. Para ele, a solução para a população em situação de rua passa por três pilares: acolhimento, qualificação profissional e, finalmente, oportunidade de trabalho e renda. "Não basta apenas tirar a pessoa da rua. É preciso dar a ela condições reais de se reinserir na sociedade, com dignidade e capacidade de gerar o próprio sustento", disse.
Inteligência artificial: ameaça ou aliada?
Outro tema que dominou a conversa foi o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. A pergunta que ronda empregadores e trabalhadores é direta: a IA vai roubar os empregos dos jovens?
Para Coppola, a resposta depende do nível de preparação de cada profissional. "A inteligência artificial é uma ameaça se você não se preparar. Mas é uma grande aliada se você souber usá-la a seu favor", resumiu. Ele explicou que a tendência é que a tecnologia automatize cada vez mais as atividades repetitivas e burocráticas — justamente aquelas que hoje ocupam grande parte da rotina de estagiários e aprendizes.
O superintendente do CIEE alerta que o jovem precisa se atualizar constantemente. Não basta apenas entrar no mercado; é preciso acompanhar as transformações. Cursos rápidos de tecnologia, familiaridade com ferramentas digitais e capacidade de adaptação se tornaram diferenciais obrigatórios. "Quem não correr atrás vai ficar para trás. O mercado não espera", completou.
715 mil aprendizes no Brasil, mas ainda é pouco
O Brasil conta hoje com 715 mil jovens aprendizes, segundo dados do Ministério do Trabalho. O número, embora expressivo, ainda está longe de atender à demanda real. O CIEE, por exemplo, ofereceu 2.425 vagas somente em janeiro de 2026. A maior parte delas foi preenchida rapidamente, o que demonstra o apetite do mercado por mão de obra jovem.
No entanto, especialistas apontam que o gargalo não está apenas na oferta de vagas, mas na qualidade da formação. Muitos jovens chegam às empresas sem habilidades básicas de comunicação, raciocínio lógico ou uso de ferramentas digitais. A evasão escolar e a falta de acesso a cursos técnicos de qualidade continuam sendo os principais entraves.
Coppola defende que o poder público precisa atuar de forma integrada. "Não adianta o CIEE colocar o jovem na empresa se a escola não preparou esse jovem. A educação básica é a base de tudo", afirmou.
População de rua: dados que incomodam
O IBGE anunciou que realizará o primeiro censo nacional da população em situação de rua, com resultados esperados para 2028. A iniciativa é inédita e pode finalmente oferecer um retrato fiel de quantas pessoas vivem nas ruas do Brasil. Atualmente, as estimativas são fragmentadas e baseadas em levantamentos locais.
No Rio de Janeiro, os 32 mil moradores de rua representam um desafio que transcende a assistência social. Muitos deles estão em situação de rua por dívidas, dependência química ou conflitos familiares. Mas uma parcela significativa é composta por egressos do sistema prisional que não conseguem se reintegrar ao mercado de trabalho.
A pergunta que fica é: os programas de estágio e aprendizagem, que hoje atendem majoritariamente jovens de classe média e baixa, conseguirão alcançar essa população? Coppola acredita que sim, desde que haja políticas públicas complementares. "O CIEE faz a ponte com a empresa. Mas quem vai preparar essa pessoa para ser contratada? É um trabalho conjunto", ponderou.
O que esperar do futuro
O cenário traçado por Luís Gustavo Coppola é de otimismo moderado. O mercado está aquecido, as empresas estão dispostas a contratar e a tecnologia pode ser uma aliada. Mas os desafios estruturais — educação precária, desigualdade social e falta de políticas públicas eficazes — continuam a minar qualquer avanço.
Enquanto o Rio de Janeiro celebra o segundo lugar na geração de empregos, as ruas do centro continuam a ser ocupadas por milhares de pessoas que não tiveram a mesma oportunidade. A inteligência artificial avança, mas a exclusão social insiste em ser a única constante.
Bio do entrevistado:
Luís Gustavo Coppola é superintendente de atendimento do CIEE, a maior ONG de inclusão de jovens do Brasil. Com mais de duas décadas de experiência em programas de estágio e aprendizagem, ele lidera equipes responsáveis por conectar milhões de jovens a oportunidades reais de trabalho e formação. Sob sua gestão, o CIEE expandiu sua atuação para todas as regiões do país, contribuindo para a redução do desemprego juvenil e para a construção de pontes entre a escola e o mercado. Reconhecido por sua visão estratégica e compromisso com a causa da juventude, Coppola é presença constante em fóruns nacionais e internacionais que discutem educação profissional, inovação e inclusão produtiva.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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