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Rio de Janeiro - Mais de cem lideranças de povos de matriz africana estiveram reunidas na noite de segunda-feira, 30 de junho, para o lançamento do META - Movimento Encruza Travessia Ancestral, proposta criada por Mãe Manu de Oxum, que busca maior união das comunidades de axé em torno de políticas públicas que representem o segmento.

Realizado no Espaço de Cultura e Tradições Reduto de Maria, o encontro reuniu sacerdotes de umbanda, candomblé, quimbanda, além de representantes da OAB Axé e de mandatos de vereança, convocados para ouvir as principais demandas dessas comunidades.
“Precisamos dar visibilidade aos inúmeros projetos que são desenvolvidos dentro das comunidades de terreiro. O Movimento Encruza e Travessia Ancestral fala do presente, do preconceito, da falta de protagonismo social e cultural que o povo de axé passa dentro da sociedade, de uma invisibilidade que, na verdade, é mais uma falta de manifestações positivas em nosso favor do que ignorância.

Nós existimos e hoje, na noite desta segunda-feira, na zona oeste, mostramos que, se houver união, a gente avança, e muito”, diz a sacerdotisa, filha de Mãe Zezé D’Ogum, fundadora do Instituto Axé Mulher e presidente do Templo de Umbanda Tsara Paixão Cigana, em Guaratiba.
Com o objetivo de fazer chegar às autoridades políticas uma fala unificada na construção de políticas públicas para os povos tradicionais de terreiro, o META propõe uma escuta além da religião, e que perpassa pela cultura, ancestralidade, história, pertencimento e, sobretudo, reparação e valorização do legado africano na construção da identidade da nação.
Entre as lideranças que prestigiaram o evento, Arethuza Dória ressaltou a importância, não só do encontro, mas da adesão dos sacerdotes e profissionais que atuam na defesa da cultura e do legado ancestral africano. Filha carnal da Iyalorixá Mãe Márcia D'Oxum,
Arethuza Dória é nascida, criada e luta pela cultura de São Gonçalo e dos povos e comunidades tradicionais e originárias de matriz africana, a representante do Egbè Ilè Ìyá Omidayè A?é Obálayó ressaltou a importância do Movimento ser criado por uma mulher.
“É fundamental lembrar que a religião de matriz africana é matriarcal. Portanto, quando uma mulher se manifesta, as demais apoiam, compreendendo isso como um fortalecimento feminino dentro dos povos tradicionais.

Esses movimentos e iniciativas são essenciais, sobretudo a compreensão de que não podemos mais deixar um evento e retornar para nossos lares da mesma maneira que chegamos.
A participação em encontros como este, tão significativos, certamente proporcionou a todos um presente, com a presença de diversas lideranças de diferentes localidades.
É hora de multiplicarmos iniciativas como a da Mãe Manu, promovendo a oportunidade de compartilhar as informações que cada um de nós possui. Acredito que o maior fomentador da intolerância é a ignorância, a falta de informação.
Existem diversas formas de escravidão, e uma delas é a ausência de pertencimento: não saber quem somos, de onde viemos e para onde desejamos ir. É tempo de nos unirmos, dialogarmos. ”, disse a Arethuza de Oyá.
Mãe Roberta de Yemonjá também pontuou a necessidade de consolidar o Movimento. Segundo a iyalorixá é crucial assegurar que os povos de matriz africana sejam contemplados dentro das políticas públicas governamentais, não somente regionalmente, mas em âmbito nacional.
“Costumo muito dizer que o centro dessa conversa é a cozinha de terreiro. Ela combate a fome dos seus de dentro para fora, é da nossa cultura alimentar os nossos de dentro para fora, o alimento transcorre dentro do terreiro para contemplar a comunidade, e isso acontece desde meados do século XIX, então quando a gente reúne essas lideranças para propor política pública, uma que não pode ser esquecida é a da segurança alimentar e da soberania alimentar para os povos, sejam eles do candomblé ou da umbanda.
Assegurar soberania a partir dos seus quintais produtivos, das suas hortas que também são medicinais, elas curam o espírito, a alma e o corpo dessas pessoas que muitas das vezes retornam à encruzilhada adoecidas por uma sociedade embranquecida.
A comida do terreiro que vai alimentar, é a comida do terreiro que vai curar, e devemos lembrar sempre que a cesta básica desse governo não nos contempla e nós precisamos brigar para isso”, diz a dirigente do Instituto Cultural Águas do Amanhã.
Os encontros do META acontecerão periodicamente até que sejam discutidas as principais necessidades a serem levadas às autoridades governamentais.
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