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ELE ESTAVA COM AS MALAS PRONTAS para Santa Catarina. Casa alugada em Balneário Camboriú. Escritório da Câmara de Integração e Desenvolvimento Intercultural Brasil-China já instalado.
Data marcada: junho de 2026. Mas Mário Estrela não embarcou. Presidente da CIDECOM, jornalista de formação, capelão em múltiplas frentes e membro da Academia Brasileira Teológica de Letras (ABTL), Estrela recebeu o que descreve como um chamado que não podia ignorar — de Deus e de pessoas que, como ele, nasceram na Baixada Fluminense e viram o estado se deteriorar.
"Eu já tinha planejado que, no mês de junho agora, eu iria me mudar para Santa Catarina. "Mas Deus queria que eu mudasse todos os planos", disse em entrevista ao Jornal da República no evento do Partido Democrata. "Ele falou: 'Não desista do seu estado'."
O estado em questão é o Rio de Janeiro, que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), concentra 6,7 milhões de pessoas só na capital e enfrenta indicadores que colocam a Baixada Fluminense entre as regiões metropolitanas mais desafiadoras do país em mobilidade, segurança e acesso a oportunidades.
São João de Meriti, cidade natal de Estrela, tem 440 mil habitantes e é a oitava maior população do estado — mas figura entre os municípios com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) da região metropolitana, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O estelionato eleitoral como motor da candidatura.
Estrela não usa meias palavras para justificar por que decidiu entrar na política. "Presenciei que, no nosso momento político, há muitos anos, a população sofre um estelionato eleitoral", afirmou.
O termo não é hiperbólico — pesquisa Datafolha de maio de 2026 indica que 67% dos eleitores brasileiros acreditam que a maioria dos políticos promete e não cumpre, e o índice sobe para 73% nas regiões metropolitanas mais pobres.
A trajetória de Estrela oferece uma chave para entender sua entrada na política. Nascido em São João de Meriti, ele construiu carreira que transitou do jornalismo — onde trabalhou por anos antes de migrar para relações internacionais — à presidência da CIDECOM, câmara que promove pontes comerciais e culturais entre Brasil e China.
Em 2023, Brasil e China firmaram parceria estratégica para integração ferroviária continental, acordo que, segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, representa "marco na cooperação entre os dois países". Estrela quer usar essa experiência internacional para atrair investimentos e tecnologia para o estado.
Eu sempre lidei com grandes empresários, grandes políticos, pessoas do poder", contou. "E via que amigos meus, pessoas da minha infância, me pediam ajuda, emprego."
As pessoas acham que, porque você está ao lado de pessoas de poder, você pode ajudar. E eu não podia. Ninguém atendia.
É essa frustração — a distância entre o acesso e a capacidade de entregar — que move sua pré-candidatura a deputado estadual pelo Democrata 35.
Partido Democrata 35: a legenda que nasceu da mudança de nome.
O Democrata 35, sigla pela qual Estrela concorre, é o antigo Partido da Mulher Brasileira (PMB), que oficializou a mudança de nome no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em dezembro de 2025.
A legenda, presidida nacionalmente por Suêd Haidar Nogueira, é classificada como centro a centro-direita e tem buscado se posicionar como alternativa à polarização entre PT e PL.
Nos bastidores, o partido tem traçado metas ambiciosas para as eleições de 2026. No Distrito Federal, a sigla foca na organização e no planejamento eleitoral para ampliar sua base.
Em Goiás, articula a filiação de deputados estaduais. No Rio de Janeiro, Estrela é um dos nomes que buscam ocupar uma das 70 cadeiras da Assembleia Legislativa (Alerj) — onde o salário bruto de um deputado estadual em 2026 é de R$ 35,4 mil, e o mandato tem duração de quatro anos.
Capelania: o fio invisível que conecta todas as frentes.
A atuação de Estrela como capelão é talvez o traço menos conhecido e mais revelador de sua trajetória. "Sou capelão — capelania hospitalar, prisional, educacional, esportiva e empresarial." "Muita gente não sabe disso", explicou.
Em julho de 2025, o governador Cláudio Castro sancionou a Lei 10.896/2025, que regulamenta a atuação de capelães em situações de desastres e grandes catástrofes no estado. Durante o evento do Partido Democrata, Estrela comemorou o que chamou de "fala do governador" sobre a criação de uma Secretaria de Capelania do Estado — iniciativa que, segundo ele, é necessária porque "a capelania é muito ampla".
A capelania prisional, por exemplo, atua em unidades que abrigam mais de 50 mil detentos no estado do Rio de Janeiro — superlotação de 70% acima da capacidade, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A capelania hospitalar alcança pacientes em mais de 200 unidades de saúde pública fluminenses.
Se a secretaria for criada, o Rio se tornará um dos primeiros estados brasileiros a institucionalizar a capelania como política pública transversal.
Do asfalto ao poder: a promessa a quem ficou.
Aos 50 anos, Estrela pertence a uma geração que viu a Baixada Fluminense ser tratada como periferia do Rio, nunca como prioridade.
São João de Meriti — cidade-satélite que mais parece um prolongamento da Zona Norte carioca — tem densidade populacional de 13 mil habitantes por km², uma das mais altas do Brasil, e convive com déficits históricos em saneamento, mobilidade e segurança.
"Hoje eu vou falar para esses amigos: aquelas pessoas que me pediram ajuda, como pré-candidato, e, com a graça de Deus, eu vou poder ajudar", disse. Não vocês, que muitos já passaram dos 50, 60 anos, já estão aposentados.
Mas ajudar seus filhos, seus netos, encaminhar de uma maneira mais adequada, para que tenham uma formação melhor — profissional, cultural, educacional. Porque eu vou estar realmente com poder na mão."
A fala revela algo que transcende o discurso político tradicional: Estrela sabe que não pode devolver o tempo perdido a quem pediu emprego e não conseguiu.
Mas pode e promete abrir caminho para a próxima geração.
Não é a promessa genérica de "mais empregos" que povoa santinhos de campanha. É a promessa específica de quem esteve do lado de fora batendo na porta e, agora que pode abri-la, quer fazê-lo.
A força das novas ideias
"Pré-candidato a deputado estadual do Rio de Janeiro pelo Partido Democrata 35, A força das novas ideias." A descrição no perfil de Estrela no Instagram resume a aposta de sua campanha.
Em um ano eleitoral em que as pesquisas indicam possível segundo turno polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro, candidatos proporcionais como Estrela tentam surfar em ondas diferentes: a da renovação, da experiência internacional e da conexão direta com comunidades específicas — no caso dele, a Baixada Fluminense, o segmento empresarial de relações Brasil-China e a comunidade religiosa ligada à capelania.
O presidente da CIDECOM também ocupa o cargo de vice-presidente do Conselho de Cultura, Artes e Eventos da Federação das Câmaras de Comércio Exterior (FCCE), o que lhe dá trânsito em um circuito que mistura diplomacia econômica e política institucional.
A pergunta que sua candidatura impõe ao eleitor fluminense é se essa combinação — jornalista, capelão, internacionalista, filho da Baixada — é capaz de traduzir capital relacional em mandato produtivo.
Sobre Mário Estrela
Mário Estrela, conhecido como Estrela, é jornalista de formação com mais de uma década de atuação na área — incluindo passagem pelo Jornal República Última Hora — e migrou para o setor de relações internacionais há cerca de 10 anos.
É presidente da Câmara de Integração, Desenvolvimento e Comércio Brasil & China (CIDECOM), organização que promove pontes comerciais, tecnológicas e culturais entre os dois países, e vice-presidente do Conselho de Cultura, Artes e Eventos da Federação das Câmaras de Comércio Exterior (FCCE).
Atua como capelão nas frentes hospitalar, prisional, educacional, esportiva e empresarial, e é membro da Academia Brasileira Teológica de Letras (ABTL), onde exerce o cargo de delegado internacional (atualmente afastado por obrigação estatutária devido à candidatura).
Natural de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, é pré-candidato a deputado estadual pelo Democrata 35 nas eleições de 2026.

Por Robson Talber, @robsontalber, repórter Henrique Pianta, @piantahp.
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