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Por Lívia Louvel
A Nvidia bateu ontem novo recorde de valorização, ultrapassando US$ 5 trilhões em capitalização de mercado. Para o investidor comum, parece o triunfo definitivo da inteligência artificial; para quem olha por dentro, é o retrato de uma engrenagem que gira sozinha. O fenômeno — e o termo não é exagero — foi detalhado pela Bloomberg no início do mês, em um estudo que revelou uma teia de “acordos circulares” entre as maiores empresas de IA movimentando cifras trilionárias dentro de um mesmo ecossistema de poder.
Nos bastidores desse mercado, empresas como OpenAI, Nvidia, AMD, Oracle, Microsoft e CoreWeave compõem hoje um ecossistema de retroalimentação financeira e tecnológica inédito. Não se trata apenas de transações comerciais. O que se vê é um sistema circular de capital, em que os fluxos se confundem entre investimento, fornecimento, propriedade e receita.
A Nvidia injeta bilhões na OpenAI para erguer data centers que, por sua vez, funcionam com seus próprios chips. A OpenAI, enquanto cliente da Nvidia, torna-se também sua parceira indireta por meio da Microsoft — que investe na startup, abriga seus produtos na nuvem Azure e lucra com o mesmo crescimento que financia. A AMD e a Oracle completam a engrenagem: uma fornece os processadores, a outra vende poder computacional avaliado em centenas de bilhões, ambos sustentados pela demanda criada dentro do mesmo círculo de empresas que se financiam e se contratam mutuamente. A CoreWeave, elo silencioso dessa cadeia, compra chips da Nvidia e revende processamento para o próprio ecossistema do qual depende.

Não está claro se o que se vê é um cambalacho bem coreografado ou apenas o resultado inevitável de um mercado sem equivalentes técnicos, fornecedores ou parceiros à altura. O que se convencionou chamar de “circularidade” talvez seja apenas o efeito colateral de uma elite tecnológica confinada a si mesma, onde inovação e dependência caminham lado a lado. As fronteiras entre investimento, contrato e colaboração se dissolvem em um sistema que se auto abastece. Cada empresa financia a outra porque não há mais ninguém capaz de sustentar o ritmo dessa corrida — e, nesse vazio, o capital gira em círculos, criando uma aparência de expansão contínua. É um mecanismo tão sofisticado que já não se sabe se mantém o sistema vivo ou apenas o faz girar.
O caso da Nvidia ilustra o auge desse movimento. O valor de mercado cresce muito além da receita — e cresce porque se alimenta da crença coletiva no futuro inevitável da IA. Cada vez que uma empresa anuncia um investimento bilionário em outra, o mercado inteiro se valoriza. E cada valorização reforça o ciclo.
Os analistas chamam de “circularidade financeira”. Outros preferem o termo colusão tácita — quando empresas, sem qualquer pacto explícito, ajustam estratégias e comportamentos de forma coordenada, partilhando interesses e evitando choques diretos. Não há cartel formal, mas há um alinhamento de incentivos que dispensa combinações: nenhuma delas tem motivos para interromper o círculo que multiplica o próprio valor.
A colusão tácita é o estágio mais sofisticado da concentração contemporânea. Ela não precisa de acordos secretos, apenas de simetria de poder. Quando os fluxos financeiros e tecnológicos se entrelaçam dessa forma, o mercado inteiro passa a operar como um organismo único — competitivo apenas na aparência. O que se vê no setor de IA é a institucionalização da interdependência como modelo de negócio: um cartel sem cartel, mas com os mesmos efeitos — barreiras de entrada, exclusividades cruzadas e margens artificialmente estáveis.
Há quem argumente que é apenas o custo natural de uma revolução tecnológica. Mas as revoluções verdadeiras costumam criar novos atores, não círculos fechados de autossuficiência. E o indício de que algo se descola da realidade é a própria escala: nunca antes tanto dinheiro girou entre tão poucos, com tão pouca relação com a produtividade real.
Se o século XIX teve sua febre ferroviária, o XXI vive a febre dos chips e da computação generativa — só que agora os trilhos são invisíveis e a fumaça, digital. Enquanto isso, investidores, governos e bancos centrais aplaudem o espetáculo, sem perceber que a inovação e tornou um ativo financeiro autônomo, descolado da economia tangível. A tecnologia avança, sim. Mas o capital parece ter descoberto uma nova máquina de movimento perpétuo — uma que gira em círculos, sem sair do lugar.
No fim, o recorde da Nvidia não é apenas um dado de mercado: é o espelho de um sistema que aprendeu a se valorizar por dentro, refletindo a si mesmo em sequência infinita. Chama-se “circularidade”, mas soa mesmo é como cambalacho de luxo — legalizado, global e perfeitamente digitalizado.
Lívia Louvel é economista e escreve semanalmente. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.
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