O Espetáculo e o Abismo: O Legado e os Contrastes do 'Soft Power' no Rio de Janeiro

Por Silvia Blumberg

O Espetáculo e o Abismo: O Legado e os Contrastes do 'Soft Power' no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro acaba de testemunhar mais um capítulo de sua história como palco de megaeventos globais. O show de Shakira nas areias de Copacabana não foi apenas uma apresentação musical; foi um fenômeno de massas que atraiu perto de 2 milhões de pessoas, consolidando a cidade como a capital mundial do espetáculo gratuito. No entanto, o apagarem das luzes reacende um debate cíclico: até que ponto o brilho do palco consegue iluminar — ou mascarar — as feridas de uma cidade em constante tensão?

 O Triunfo dos Números e a "Cidade-Vitrine"
Do ponto de vista econômico, o evento foi um sucesso retumbante. Estima-se que a passagem da estrela colombiana tenha movimentado cerca de 
R$ 800 milhões, alavancando inúmeros setores, da rede hoteleira ao transporte por aplicativos e o comércio de rua. O conceito de “Soft Power” foi levado ao limite: o Rio foi, por algumas horas, o centro das atenções globais, projetando uma imagem de vibração e hospitalidade que atrai dólares e investidores.

Contudo, esse poder de persuasão cultural convive com uma contradição ética latente. Enquanto os refletores iluminavam a artista, a realidade da insegurança e da negligência urbana continuava a pulsar nas periferias e favelas. O espetáculo é real, mas o cenário de fundo permanece precário para grande parte da população.

 Os Dois Rios: Do Copacabana Palace aos Sacos de Areia
Nada simbolizou melhor o abismo social brasileiro do que a divisão do espaço durante o evento. De um lado, a área VIP fervilhava com celebridades nacionais e internacionais, culminando em um sofisticado coquetel nos salões do Copacabana Palace. Era o Rio da elite, do luxo e do networking global.

Do outro lado, nas areias, a "economia da sobrevivência" ditava o ritmo. Milhares de trabalhadores precarizados vendiam de tudo para garantir o sustento. A criatividade do desespero surgiu na forma de "camarotes alternativos": pilhas de sacos gigantes de areia alugados para quem buscava uma visão minimamente privilegiada do palco. Esse contraste — o champanhe no palácio versus o improviso na areia — expõe a ferida de uma cidade que é multifatorial e profundamente desigual.

O Custo Invisível: Lixo e Desordem
Apesar do retorno financeiro, o impacto ambiental e local foi severo. A manhã seguinte revelou toneladas de lixo espalhadas pela orla, evidenciando uma falha crônica na educação ambiental e na logística de resíduos para eventos desse porte. Para os moradores locais, o show trouxe dias de isolamento, poluição sonora e uma sensação de que o bairro foi "sequestrado" pelo lucro, sem que a infraestrutura urbana recebesse melhorias permanentes em troca do transtorno.

Legado ou Cenário de Papelão?
A construção de estruturas gigantescas que duram poucos dias levanta questões sobre o retorno social real. Qual é o legado para o subúrbio ou para a Baixada Fluminense? O impacto financeiro, embora vultoso, tende a se concentrar em grandes grupos de entretenimento e na hotelaria de luxo, enquanto a base da pirâmide lida com a ressaca da desordem.

A política do espetáculo também não pode ser ignorada. Em anos eleitorais, a visibilidade desses eventos é combustível para gestores. Quando o poder público investe ou facilita isenções para tais fins, questiona-se a prioridade: é ético priorizar o palanque do entretenimento em detrimento de investimentos crônicos em saúde e segurança?

Conclusão: O Desafio do Equilíbrio
Eventos como o de Shakira são fundamentais para o Rio de Janeiro. Eles reafirmam a vocação turística e a importância cultural da cidade no cenário mundial. O desafio, porém, é atualizar a forma como esses eventos são geridos. O Rio não pode ser apenas um cenário de videoclipe que é desmontado após o uso.

O sucesso de um megaevento não deve ser medido apenas pela taxa de ocupação dos hotéis e todos os demais faturamentos  em  compras e usos de serviços, mas pela capacidade de integrar o morador, respeitar o meio ambiente e distribuir a riqueza gerada de forma mais orgânica. A prioridade de uma cidade deve ser o equilíbrio entre o brilho momentâneo do palco e a dignidade constante de suas ruas. Afinal, o espetáculo só é verdadeiramente grandioso quando a plateia — toda ela — também se sente segura e valorizada.

Por Ultima Hora em 03/05/2026
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