O jornalismo não está morrendo — o problema é o apego ao passado

A lei do profissional multimídia só confirmou o que todo mundo já sabe: a comunicação mudou

O jornalismo não está morrendo — o problema é o apego ao passado

Vamos falar claro, sem rodeio.
O jornalismo não acabou. Não está morrendo. Não foi “ameaçado” por tecnologia nenhuma. O que está em crise é a teimosia de achar que profissão se resume a ferramenta velha e modelo que já ficou pra trás.
Em janeiro de 2026, o Congresso aprovou e promulgou a Lei nº 15.325, que reconhece oficialmente o profissional multimídia. Traduzindo: o Estado finalmente admitiu que hoje existe gente trabalhando com informação usando texto, foto, vídeo, áudio, redes sociais e plataformas digitais — tudo junto, muitas vezes no mesmo celular.
Isso não tira emprego de jornalista.
Não acaba com ninguém.
Não apaga história nenhuma.
Só coloca no papel uma realidade que já está aí faz tempo.
Antigamente, fazer jornalismo exigia bloco, caneta, gravador grande, máquina fotográfica pesada, filme pra revelar, gráfica enorme e uma estrutura cara. Funcionava? Funcionava. Foi importante? Foi. Mas aquilo era o jeito da época, não a essência da profissão.
Hoje, tudo isso cabe na palma da mão.
Um celular grava, fotografa, edita, escreve e publica. Em minutos. Para o mundo inteiro. Fingir que isso não é jornalismo é fechar os olhos para o óbvio.
O maior erro de muita gente é criar uma briga que não existe. Jornalista “raiz” contra profissional multimídia. Velho contra novo. Papel contra internet. Isso é conversa de quem tem medo de perder espaço, não de quem quer fortalecer a comunicação.
A lei não acabou com o jornalista, não mexeu em diploma, não criou reserva de mercado. Ela só reconheceu que a comunicação social ficou maior. Muito maior. Do jornal impresso ao site, do rádio ao podcast, da TV ao vídeo curto no celular — tudo isso é comunicação.
O que incomoda, no fundo, não é a tecnologia. É o fim do monopólio. Antes, poucos falavam e muitos só ouviam. Hoje, a informação corre rápido, por vários caminhos, com novas linguagens e novos profissionais. E isso exige adaptação.
A tecnologia não veio ontem. Ela chegou quando o mundo deixou de caber numa página de jornal. O caminho não é negar o novo nem jogar o velho fora. É juntar os dois.
Sempre vamos ser jornalistas. Cada um no seu jeito, na sua área, com sua técnica. O passado não morreu. Ele virou base. O futuro não ameaça — ele chama.
E quem insistir em brigar com a realidade vai acabar falando sozinho.

 

Por Jornalista Arinos Monge.

Por Ultima Hora em 04/02/2026
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