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CIDADE DO VATICANO - O cardeal dom Arlindo Furtado, de Cabo Verde, tem suas expectativas, mas não as confessa. O fato de tê-las já é um bom sinal para ele, principalmente no momento em que a Igreja Católica encontra o desafio de substituir o papa Francisco, sepultado neste sábado, 26, em Roma, e que deixou um legado de carisma, de preocupação ambiental, social e humana como marcas fortes de seu papado.
O cardeal reconhece o desafio que a Igreja tem agora de se colocar como referência para a humanidade em um mundo de mudanças rápidas e radicais. Nesse contexto, entende que é preciso prevalecer a combinação entre a fé e a realidade humana. Para não perder terreno, na opinião do cardeal, a Igreja precisa cada vez mais se associar à humanidade. A propagação do Evangelho, diz, não pode ser descolada da função social.
"Internamente, a Igreja tem a missão de viver a fé do Evangelho e a transmitir nesse tempo, com a estrutura diversificada, no mundo de hoje com grande e rápida evolução. Esta é a grande questão da Igreja, ter que associar a humanidade, o valor da 'casa comum' e o valor do evangelho. Isso não depende só do papa, depende de toda a Igreja, portanto espero que o Espírito Santo nos ajude a encontrar um líder capaz de nos fazer julgar e assumir o equilíbrio e levar a nossa vida para frente e com a Igreja sempre ajudando a humanidade a ser cada vez mais humana e mais social também", disse o cardeal.
Encontrar uma personalidade com tanto carisma como o papa Francisco não é tarefa fácil, mas o religioso caboverdiano disse confiar que é possível eleger alguém que tenha a dimensão da realidade. "A minha esperança é de que a Igreja, sendo conduzida pelo Espírito Santo, saiba encontrar a pessoa mais preparada para a complexidade do mundo atual e também em relação à complexidade interna atual", disse o cardeal de Santiago de Cabo Verde, que evita rótulos políticos. "Eu não gosto muito de falar no termos progressistas ou conservadores. Mas o certo é que a Igreja tem que ser o meu ponto de referência em humanidade. Tem que ser referência nas relações humanas, no cuidado uns com os outros", indicou.
"Casa comum"
Nessa perspectiva, o cardeal considera um grande acerto do papa Francisco ter levantado questões ambientais, sociais e políticas como temas que a Igreja precisa tratar. O novo papa, em sua concepção, precisa continuar difundindo essa ideia. "O papa Francisco lançou um tema muito pertinente que é a "casa comum", que precisa ser cuidada, porque, senão, corremos risco de desaparecermos todos no mesmo barco. Isso foi muito atual e teve muito impacto", defendeu.
"Naturalmente, o meu voto será nesse sentido. Nós perdemos um papa que era naturalmente o grande animador da evangelização e de fidelidade ao evangelho de Jesus Cristo, à Santa Igreja. Mas ele sempre colocava isso a serviço da humanidade. Tivemos também o papa João Paulo II, que dizia sempre que o homem é o caminho da Igreja. Então, o valor do Evangelho não está descombinado da humanidade."
Conclave
Os cardeais devem se reunir no Vaticano entre o 15º e o 20º dia após a morte do papa. Eles ficarão em acomodações isoladas, incomunicáveis com o mundo externo. Para ser eleito papa, um cardeal precisa receber apoio de dois terços dos cardeais-eleitores mais um - e a votação continua até que esse número mágico seja alcançado.
O Brasil tem oito cardeais, sete deles com direito a voto no conclave. Em tese, qualquer homem católico romano pode ser eleito papa, mas desde 1379 todos os papas saíram do Colégio de Cardeais, o grupo que vota no conclave. Neste domingo, 27, o tumulo do papa Francisco foi aberto à visitação na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma.
Trajetória do cardeal
Quarto filho de Ernesto Robalo Gomes e de Maria Furtado, o cardeal Arlindo Furtado nasceu e foi batizado na Freguesia de Santa Catarina, no arquipélago de Cabo Verde, em agosto de 1951. Ele passou pela escola primária em Achada Lem, na mesma freguesia, e entrou para o seminário em 1963. Foi no seminário que dom Arlindo cursou o ensino médio. Em 1971, mudou-se para Coimbra, Portugal, onde estudou teologia no Instituto de Estudos Teológicos. Voltou para Cabo Verde em 1976, quando foi ordenado padre, passando a trabalhar na paróquia de Nossa Senhora da Graça, em Praia.
Em agosto de 1986, estudou no Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, onde obteve a licenciatura em Sagrada Escritura. Dom Arlindo retornou a Cabo Verde em 1990. Depois de uma vida dedicada à Igreja, na qual se tornou bispo em 2004, foi elevado a cardeal pelo papa Francisco em 2015. Ele é o primeiro cardeal de Cabo Verde na história. É também membro da Congregação para a Evangelização dos Povos e da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
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