Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
A celebração que virou cenário de guerra
O Réveillon na Praia de Jacuecanga, em Angra dos Reis, deveria ter sido o marco de um novo ciclo. No entanto, na virada para 2026, a esperança deu lugar ao horror. Em meio à multidão, fogos de artifício clandestinos explodiram em baixa altitude, transformando a areia em um campo minado. O saldo? Pânico generalizado, famílias em desespero e três pessoas feridas por estilhaços e queimaduras.
No epicentro do desastre, um nome surge com força nos relatos de moradores e servidores: Cléber Antônio da Silva, o "Chapinha". O vereador, conhecido por seu trânsito político e sindical, é apontado como o articulador da "doação" dos artefatos via Prefeitura. O gesto, nitidamente populista para inflar sua base eleitoral, ignorou o básico: não havia autorização do Corpo de Bombeiros, nem qualquer protocolo de segurança.
O Crime de Jacuecanga: Negligência com a vida alheia
A ausência de alvará e de balsas para o lançamento transformou o evento em uma armadilha. Vítimas foram socorridas às pressas para o Hospital da Japuíba, enquanto o cheiro de pólvora se misturava ao trauma. “Parecia uma guerra. Não sabíamos para onde correr”, relatou uma testemunha.
A contradição é acintosa: um legislador — cuja função primordial é fiscalizar o cumprimento das leis — é o protagonista de um evento clandestino. Ao fomentar o "pão e circo" sem isolamento adequado, Chapinha não ofereceu um presente à comunidade; ofereceu risco de morte.
"Pirataria" Institucional: O Mar sem Lei da Praia do Objetivo
O rastro de irregularidades de Chapinha não termina na areia. O desastre em terra conecta-se a um histórico de pressões indevidas no mar. Um dossiê protocolado no Ministério Público Federal (MPF) revela que o vereador agiu para subverter o ordenamento náutico na Praia do Objetivo — local onde a atividade turística é proibida por Lei Municipal aprovada pela própria Câmara que ele integra.
O vereador não apenas pressionou: ele publicizou a afronta. Em vídeo nas suas redes sociais, Chapinha apareceu constrangendo o então presidente da Turisangra, Marc Olichon. O resultado foi a capitulação do Executivo: mesmo impedido por lei, Olichon cedeu ao vereador e a outros dois parlamentares, liberando escunas e lanchas de forma irregular. Estranhamente, a representação foi arquivada pelo MPF, consolidando a sensação de que, para Chapinha, as leis são meras sugestões.
O Modus Operandi: Clientelismo e Blindagem
O episódio de Jacuecanga revela o DNA de um mandato pautado no clientelismo. Chapinha utiliza a influência sindical no setor naval (BrasFELS) e trocas partidárias estratégicas para se manter encastelado no orçamento público. Enquanto problemas estruturais de Angra apodrecem, o vereador foca em ações de impacto visual que, como vimos na virada do ano, podem ser fatais.
O Cerco se Fecha: A Hora da Prestação de Contas
A tragédia de Jacuecanga não será varrida para debaixo do tapete. A pressão por justiça agora escala em três frentes:
Na Câmara Municipal: Vereadores da oposição, liderados por nomes como Rubinho Metalúrgico, já articulam a CPI dos Fogos. O objetivo é rastrear a origem dos recursos e punir o uso da Turisangra como balcão de negócios do parlamentar.
Na Polícia Civil (166ª DP): O inquérito está aberto. Chapinha e a empresa fornecedora dos fogos responderão por lesão corporal culposa e periclitação da vida.
No Ministério Público (MPRJ): A investigação mira a improbidade administrativa e o tráfico de influência que permitiu que um evento clandestino ocorresse sob as barbas do poder público.
Conclusão: Angra não pode mais pagar essa conta
O Réveillon de Jacuecanga foi o retrato fiel de um sistema político corroído. A irresponsabilidade de um vereador, somada à fragilidade das instituições que deveriam fiscalizá-lo, quase custou vidas.
Angra dos Reis está diante de um espelho: continuará aceitando o populismo que fere, ou exigirá que responda, finalmente, perante a lei? A população ferida não quer apenas curativos; ela exige justiça.
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!