Paula do Vôlei entra na briga política e não poupa palavras sobre atletas trans no feminino

Atleta carioca com passagens por grandes clubes do país e medalhas em mundiais de base entra na disputa política pelo DC e defende criação de liga trans separada

Da quadra ao palanque: Paula Barros, ex-central da seleção brasileira, anuncia pré-candidatura e enfrenta polêmica sobre atletas trans no vôlei

Ela passou mais de duas décadas defendendo bloqueios nas quadras de vôlei pelo Brasil inteiro. Agora, Paula Neves Magalhães de Barros — a Paula do Vôlei — quer erguer um novo tipo de bloqueio: contra a criminalidade, o abandono do esporte nas periferias e a falta de políticas públicas para a juventude brasileira.

A ex-central da seleção brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 20 de março de 1982, anunciou sua pré-candidatura pelo partido Democracia Cristã, o DC, durante encontro nacional da legenda realizado nesta semana na capital federal. Em um salão repleto de lideranças políticas, Paula dividiu o palco com Aldo Rebelo, o pré-candidato do DC à Presidência da República.

"Para mim está sendo um enorme prazer fazer parte desse partido, com tantos quadros interessantes. Eu venho para compor, para somar", declarou a ex-atleta ao canal Última Hora, em entrevista gravada nos bastidores do evento.

A declaração é coerente com o perfil que Paula construiu ao longo da vida: pastora na Assembleia de Deus, psicóloga formada, estudante de direito e empresária à frente da Global Volleyball Agency, uma agência voltada ao mercado do vôlei. Para ela, a candidatura é mais uma extensão de uma missão que sempre norteou sua trajetória dentro e fora das quadras.

Uma carreira construída tijolo por tijolo

Revelada nas categorias de base do Tijuca Tênis Clube entre 1997 e 1999, Paula foi convocada ainda adolescente para representar o Brasil na seleção infanto-juvenil. Em 1998, viajou até Sucre, na Bolívia, para disputar o Campeonato Sul-Americano da categoria e voltou com a medalha de ouro no pescoço.

No ano seguinte, foi prata no Campeonato Mundial Infanto-Juvenil em Funchal, Portugal — uma sequência de resultados que já indicava que aquela jovem carioca tinha tudo para construir uma carreira sólida no esporte. Em 2000, agora na categoria juvenil, voltou a brilhar na seleção e conquistou o ouro no Sul-Americano de Medellín, na Colômbia.

A trajetória nos clubes foi igualmente intensa. Paula passou por São Caetano, MRV/Minas, Medley/Banespa, Banana Boat/Praia Clube, Sport/Banco BMG e pelo FMD Rio do Sul, entre outros.

Com o São Caetano, disputou várias edições da Superliga Brasileira e conquistou o título da Copa Brasil em 2000. Pelo MRV/Minas, levou o bronze no tradicional Torneio Internacional Salonpas Cup, em 2004.

Com a equipe catarinense de Rio do Sul, escreveu um dos capítulos mais vitoriosos de sua carreira tardia: tricampeã estadual, bicampeã dos Jogos Abertos de Santa Catarina e presença constante nas fases decisivas da Superliga. São mais de 15 anos de Superliga Brasileira A, passando por mais de dez clubes diferentes, numa carreira marcada pela resiliência.

Seleção principal e a síntese de uma geração

Em 2001, pela seleção brasileira juvenil, Paula foi campeã do Campeonato Mundial Juvenil em Santo Domingo, na República Dominicana — um título que coroou uma fase brilhante da ex-central nas categorias de base. Nos anos seguintes, chegou a ser convocada para a seleção principal, representando o Brasil já na elite do vôlei mundial.

Embora não tenha vivido a era dourada das Olimpíadas, Paula integrou a geração que serviu de base para a construção da dynasty do vôlei feminino brasileiro — aquela que viria a dominar o mundo entre os anos 2000 e 2010.

É exatamente essa combinação de experiência, identidade com as bases do esporte e trajetória construída no sacrifício — e não na fama instantânea — que Paula quer levar como bandeira política.

Diferente de outros nomes do esporte que chegam à política com holofotes e sem histórico de engajamento público, Paula tem uma agenda construída ao longo de anos: pastora que cuida de comunidades, psicóloga que atua em saúde mental, empresária que movimenta o mercado do vôlei e estudante de direito que já entende a linguagem do Estado.

O debate sobre atletas trans: Paula defende liga separada

Durante a entrevista, o debate político cedeu espaço a uma das polêmicas mais acaloradas do esporte brasileiro nos últimos meses: a participação de atletas transgênero em competições femininas.

A questão ganhou novo fôlego em fevereiro de 2026, quando a Câmara de Londrina aprovou lei municipal proibindo a presença de atletas "cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico" em competições realizadas na cidade — medida que teve como alvo direto Tiffany Abreu, oposta do Osasco e única atleta transgênero da história do vôlei de elite feminino no Brasil.

A Confederação Brasileira de Vôlei recorreu ao STF, e a ministra Cármen Lúcia concedeu liminar autorizando a participação de Tiffany na Copa Brasil de Vôlei.

Questionada sobre o tema, Paula não fugiu da polêmica. "Eu sempre defendi a questão de criar uma liga trans, porque aí você daria paridade de armas para qualquer tipo de disputa.

A partir do momento que você pega uma atleta trans e coloca para disputar o feminino, você está tirando a vaga de uma atleta que biologicamente é mulher", afirmou.

A declaração de Paula ganha um peso particular por vir de uma atleta que conhece de perto a dureza da competição nas categorias de base e na Superliga: anos de treino, lesões e sacrifícios para conquistar uma vaga que, segundo ela, precisa ser disputada em condições de equidade biológica.

STF de um lado, opinião pública de outro

A decisão da ministra Cármen Lúcia de liberar Tiffany para competir foi acatada, e o desfecho teve um capítulo simbólico: após toda a turbulência jurídica e política, a atleta entrou em quadra, fez o ponto da vitória e sagrou-se campeã da Copa Brasil de Vôlei com o Osasco em 1º de março de 2026.

O resultado técnico, porém, não encerrou o debate — ao contrário, acirrou as posições. "O STF teve entendimento diferente, mas não é a opinião da maioria dos brasileiros, creio eu", disse Paula sem rodeios, colocando em perspectiva a tensão entre decisões judiciais e a percepção popular sobre o tema.

A declaração aponta para um fenômeno recorrente no Brasil: a distância entre decisões institucionais e o sentimento predominante em parte da sociedade.

Enquanto o STF invoca princípios de igualdade e não discriminação para garantir o direito de competição de Tiffany, vozes do esporte — especialmente de atletas com anos de Superliga no currículo — questionam a equidade competitiva da medida.

A proposta de uma liga específica para atletas transgênero, defendida por Paula, tem ganhado adeptos no debate público, embora não exista no cenário esportivo nacional nenhuma iniciativa concreta nesse sentido.

O esporte como antídoto à criminalidade

Além da polêmica trans, Paula Barros deixou clara a pauta central de sua atuação política: o esporte como instrumento de inclusão social e prevenção à criminalidade. A pré-candidata defendeu a criação de políticas públicas consistentes voltadas para a juventude brasileira, apontando que o acesso ao crime acontece cedo e que o Estado precisa oferecer alternativas reais por meio da cultura, do esporte e da educação.

"Eu venci através do esporte. Entendo que o esporte é uma ferramenta de transformação e de inclusão social. Muitos jovens acessam o crime muito cedo, e nós precisamos de ferramentas que façam diferença na vida do jovem", afirmou.

A fala de Paula tem raízes biográficas profundas. Ela sabe o que é crescer no Rio de Janeiro, atravessar uma adolescência em meio a desigualdades e encontrar no esporte uma saída. Sua trajetória — da base do Tijuca Tênis Clube até os palcos internacionais do vôlei mundial — é exatamente o tipo de narrativa que valida o discurso que ela agora quer transformar em política pública.

Um estudo do Ipea publicado em 2022 mostrou que jovens participantes de programas públicos de esporte e lazer têm menor exposição a situações de risco social, o que dá respaldo técnico à bandeira que a ex-central quer carregar no Congresso.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber @robsontalber 

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Fontes: Última Hora, Wikipedia, ge.globo.com, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, TVT News, CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), O Tempo, Ipea.

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Por Ultima Hora em 08/03/2026
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