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A denúncia que abala o Rio
Uma nova denúncia apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) acendeu o alerta sobre os bastidores das eleições municipais de 2024 em Campos dos Goytacazes. O deputado estadual Thiago Rangel (Avante) é acusado de articular uma pressão sistemática contra um diretor de escola pública para liberar R$ 200 mil de uma conta escolar. O dinheiro, segundo a denúncia, seria desviado para financiar a campanha de sua filha, a vereadora Thamires Rangel, eleita no ano passado.
As provas colhidas pela Polícia Federal na Operação Unha e Carne mostram que o diretor teria sido obrigado a emitir uma nota fiscal falsa para justificar o saque. Em troca, o valor seria devolvido em até quinze dias — uma promessa que nunca se concretizou. O caso expõe um suposto esquema de cobrança de propina que envolve políticos, empresários e um pastor apontado como operador financeiro.
A pressão que começou com uma reunião
Segundo os investigadores, o diretor da unidade escolar recebeu uma ligação de pessoas ligadas a Thiago Rangel ainda em meados de 2024. O recado era claro: liberar R$ 200 mil do caixa da escola, sob a promessa de que o montante seria reposto em duas semanas. O diretor, que preferiu não se identificar, recusou de imediato.
A negativa, porém, não encerrou o assunto. Nos dias seguintes, o diretor passou a receber cobranças insistentes por WhatsApp e ligações telefônicas. Os interlocutores aumentaram o tom de voz e a frequência dos contatos, sempre mencionando o nome de Thiago Rangel como garantia de que o dinheiro seria usado para a campanha de sua filha.
O momento decisivo veio durante uma videochamada. Na tela, surgiram o pastor Luis Fernando Passos de Souza – apontado pela PF como operador financeiro do grupo – e, ao fundo, o próprio deputado Thiago Rangel. A conversa, registrada pelo diretor e entregue à Justiça, revela a tentativa de convencimento e a menção direta à necessidade de recursos para a candidatura de Thamires.
A Operação Unha e Carne em sua quarta fase
A denúncia faz parte da quarta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada em maio de 2026. A operação investiga um esquema milionário de desvios de recursos públicos na Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. As fraudes envolviam contratos de obras em escolas estaduais, com superfaturamento e direcionamento de licitações.
Thiago Rangel foi preso no dia 5 de maio de 2026, em uma ação simultânea que cumpriu mandados em endereços ligados a ele e a outros investigados. A prisão ocorreu menos de duas semanas antes desta nova denúncia chegar ao STF.
As fases anteriores da operação já tinham atingido o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar (União Brasil). Preso em dezembro de 2025 e novamente em março de 2026, Bacellar é apontado pela PF como o líder do esquema criminoso. Ele nega todas as acusações.
Provas robustas: vídeo, WhatsApp e mala de dinheiro
Entre as provas coletadas, destaca-se um vídeo gravado no celular de Thiago Rangel, no qual aparece uma mala contendo R$ 500 mil em dinheiro vivo. As imagens foram encontradas durante a análise de seu aparelho, apreendido na primeira fase da operação.
Outro elemento decisivo é a troca de mensagens entre o diretor e os envolvidos. As conversas mostram o aumento da pressão e a menção à nota fiscal falsa. O Ministério Público também descobriu que outros diretores de escolas da região foram abordados com propostas semelhantes, mas recusaram.
Além disso, empresários do setor de postos de combustíveis revelaram aos investigadores que o grupo cobrava propina de 30% sobre contratos públicos. Thiago Rangel, que também atua no ramo de postos, teria usado sua influência para intermediar esses pagamentos.
Crescimento patrimonial suspeito e financiamento de campanhas
A análise patrimonial da PF aponta um salto explosivo nos bens de Thiago Rangel. Em 2020, ele declarava R$ 224 mil em patrimônio. Dois anos depois, em 2022, o valor saltou para R$ 1,9 milhão – um aumento de mais de 700% sem justificativa aparente.
O dinheiro desviado, segundo as investigações, financiava campanhas eleitorais no Norte Fluminense. Somente nas eleições municipais de 2024, quase R$ 3 milhões teriam sido injetados em candidaturas, principalmente em Campos dos Goytacazes. A filha do deputado, Thamires Rangel, foi eleita vereadora com a segunda maior votação da cidade, tornando-se a única mulher na Câmara Municipal e a vereadora mais jovem do Brasil naquele pleito.
A Operação Postos de Midas, que corre em paralelo, investiga justamente esse crescimento financeiro e a suspeita de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis e empresas de fachada.
A defesa contesta
A defesa de Thiago Rangel nega todas as acusações. Em nota, os advogados afirmam que a denúncia é "infundada e baseada em provas frágeis". Sustentam que o vídeo da mala de dinheiro não tem relação com desvio de recursos públicos e que as conversas de WhatsApp foram tiradas de contexto.
A defesa de Rodrigo Bacellar também rechaça as imputações. O ex-presidente da Alerj, por meio de sua assessoria, classificou a operação como "perseguição política" e afirmou que não há nenhum elemento concreto que o ligue aos fatos.
Já o pastor Luis Fernando Passos de Souza, que não foi preso até o momento, não se manifestou oficialmente. A PF o trata como operador financeiro do esquema, responsável por articular os pagamentos e as notas fiscais fraudulentas.
Impacto político e próximos passos
O caso tem repercussão direta no cenário político fluminense. Thiago Rangel, que tenta se reeleger à Assembleia Legislativa em outubro, vê sua candidatura ameaçada. A denúncia ao STF, se aceita, pode resultar em novas medidas cautelares ou até mesmo em novas prisões.
Rodrigo Bacellar, que já estava preso, permanece como figura central na investigação. Sua influência na Alerj, onde comandou a Casa por dois anos, levanta dúvidas sobre o alcance do esquema e a participação de outros parlamentares.
O governo do estado, por meio da Secretaria de Educação, anunciou que abrirá uma auditoria interna para revisar todos os contratos de obras escolares dos últimos anos. A Polícia Federal, por sua vez, continua as investigações e não descarta novas fases.
Biografia de Thiago Rangel
Thiago Rangel é deputado estadual pelo Avante, eleito em 2022 com expressiva votação na região Norte Fluminense. Natural de Campos dos Goytacazes, ele construiu sua carreira política baseada em bandeiras ligadas ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. Antes de entrar na política, atuou no setor de postos de combustíveis, onde construiu patrimônio e rede de relacionamentos. Na Assembleia Legislativa, destacou-se por defender pautas de geração de emprego e desburocratização. É pai de Thamires Rangel, a quem incentivou a seguir a vida pública. Preso em maio de 2026, ele aguarda o desenrolar das investigações em liberdade provisória, após decisão liminar do STF.
Biografia de Rodrigo Bacellar
Rodrigo Bacellar é advogado e político filiado ao União Brasil. Foi presidente da Alerj entre 2023 e 2025, período em que comandou a articulação de pautas importantes para o estado. Natural de Campos dos Goytacazes, construiu carreira sólida no legislativo fluminense, sendo reconhecido por sua habilidade de diálogo e negociação. Durante sua gestão, implementou modernizações administrativas na Casa e ampliou a transparência dos gastos públicos. Bacellar nega veementemente as acusações de liderar organização criminosa e afirma que as provas produzidas pela PF são frágeis e descontextualizadas. Ele continua preso desde março de 2026, à espera de julgamento.
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