Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Confesso aos queridos leitores(as) que, desta vez, a crônica finalmente encontrou a conjuntura. Nas últimas semanas venho insistindo numa tese um tanto incômoda: o trabalho, essa instituição quase sagrada que organizou a vida humana por séculos, começa discretamente a pedir demissão. Até aqui, porém, a realidade fazia o favor de sabotar o tema com sua avalanche habitual de crises, disputas políticas e escândalos, sempre mais barulhentos e aparentemente mais urgentes do que qualquer reflexão de longo prazo. Desta vez, não foi preciso adiar o assunto. A guerra resolveu colaborar. E, como costuma acontecer, fez isso da maneira mais dramática possível.
A guerra no Oriente Médio, com o Irã no centro das tensões, acabou oferecendo o cenário perfeito para observar aquilo que venho tentando discutir: o desaparecimento progressivo do trabalho humano. Pode parecer estranho, mas até mesmo a guerra, esse último reduto da presença física e do esforço extremo, começa a passar por um processo silencioso de substituição.
Durante milênios, o soldado foi a expressão mais radical do trabalho manual em condições adversas. A guerra mobilizava corpos, indústrias, economias inteiras. Era brutal, mas funcional. Havia uma lógica perversa, porém clara. O conflito gerava trabalho, ainda que à custa de destruição.
Mas, como quase tudo no século XXI, a guerra também entrou na era pós moderna. Tornou-se mais distante, mais tecnológica e, sobretudo, mais eficiente. Drones substituem pilotos, sistemas automatizados vigiam fronteiras, algoritmos auxiliam decisões estratégicas. Em muitos casos, já não é um soldado que escolhe o alvo, mas um sistema que analisa dados, identifica padrões e sugere ações com uma velocidade que faria qualquer general da Primeira Guerra parecer um funcionário público aguardando carimbo.
Isso deixou de ser ficção científica. Primeiro, as máquinas vieram para ajudar. Depois, para proteger. Agora, começam a substituir. A guerra, que durante séculos foi o trabalho manual mais brutal já inventado, passa pelo mesmo processo que já vimos nas fábricas, nos escritórios e até nos aplicativos de transporte. A diferença é que, aqui, o produto final continua sendo a destruição.
E como toda revolução produtiva, há um efeito colateral inevitável: a redução da necessidade de gente. A guerra já não precisa de tantos corpos. Precisa de tecnologia, de precisão, de dados. O soldado, antes figura central, começa a se tornar um elemento secundário. O campo de batalha se transforma em interface.
Se a tendência continuar, talvez cheguemos a uma situação curiosa. Guerras travadas por máquinas, enquanto humanos assistem de longe, como quem acompanha uma partida de xadrez entre computadores. Do ponto de vista humanitário, pode soar como progresso. Menos soldados mortos, menos famílias recebendo notícias fatais. Mas existe um detalhe incômodo. Mesmo quando os soldados desaparecem, a morte continua trabalhando em tempo integral. E, com frequência, ela trabalha entre civis.
Nos últimos dias, imagens vindas de Teerã mostraram algo que nenhuma tecnologia conseguiu automatizar: o sofrimento humano. Crianças mortas em escolas atingidas, casas destruídas, famílias procurando sobreviventes entre escombros. Surge então uma pergunta nova na história das guerras: foi erro humano ou erro de sistema? Durante séculos, a responsabilidade era clara. Agora, ela se dilui em relatórios técnicos, decisões assistidas por algoritmos e telas repletas de dados. No documento final, talvez apareça apenas uma expressão elegante: falha de sistema. Para quem perdeu um filho, continua sendo apenas outra forma burocrática de nomear a tragédia.
É nesse ponto que a guerra deixa de ser apenas um conflito e passa a funcionar como espelho. Ao se tornar mais eficiente, mais automatizada e menos dependente de pessoas, ela expõe uma tendência mais ampla. Não se trata apenas de uma mudança na forma de combater, mas na forma de produzir, de organizar e de pensar a própria utilidade humana.
No fundo, o que vemos no campo de batalha é apenas a extensão de um fenômeno já presente na economia. O trabalho humano vai sendo progressivamente retirado das atividades. Primeiro das fábricas, depois dos escritórios e agora até das trincheiras. Talvez o verdadeiro sinal de que entramos numa nova era tecnológica seja justamente este: até a guerra começa a funcionar com menos gente.
Se até o soldado passa a disputar espaço com algoritmos, convém olhar com alguma humildade para o restante das profissões. Porque, nesse ritmo, o grande debate do século XXI pode deixar de ser quem vai trabalhar para se tornar quem ainda será necessário.
Eu pretendia, nesta crônica, finalmente tratar do destino dos trabalhos manuais, esse último reduto que ainda parece resistir à automação. Mas, como tantas vezes acontece, a conjuntura atravessou o caminho. Fica para a próxima, se a realidade permitir.
Nada de pânico. É apenas o futuro chegando também ao quartel.
Filinto Branco
cronista de ideias
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!