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Transparência não é virtude. É mecanismo de sobrevivência
O Brasil vive um momento curioso. Não é de colapso aberto nem de normalidade tranquila. É um tempo de cobrança silenciosa. O cidadão já não se satisfaz com explicações sofisticadas para resultados ruins. Quer algo mais direto: entender onde a decisão foi tomada, quem se beneficiou dela e quem acabou absorvendo o prejuízo quando o sistema falhou.
Essa pergunta atravessa o mercado imobiliário, o turismo, o sistema financeiro e a própria relação entre capital e consumo. Não é ideológica. É estrutural. Sistemas que funcionam mal não caem apenas por erro moral. Caem porque permitem que risco e responsabilidade caminhem separados.
Nos últimos anos, operações policiais, recuperações judiciais rumorosas e crises empresariais expuseram um padrão recorrente: estruturas desenhadas para concentrar ganhos e pulverizar perdas. Quando tudo dá certo, o lucro é privado. Quando dá errado, a conta se espalha por investidores difusos, consumidores, municípios, trabalhadores e, no fim da cadeia, pelo Estado.
O problema não está na complexidade. O problema está na complexidade sem imputação.
É nesse ponto que blockchain, tokenização e algoritmos embarcados deixam de ser moda tecnológica e passam a ser infraestrutura institucional mínima. Não prometem justiça social nem eficiência mágica. Prometem algo mais modesto e mais poderoso: reduzir o espaço onde a irresponsabilidade se esconde.
Blockchain cria registro que não depende de versões convenientes da história. Tokenização, quando feita com seriedade, explicita direitos, deveres, limites e riscos desde a origem. Algoritmos embarcados fazem o que o Direito sempre tentou fazer tardiamente: condicionam o funcionamento do sistema ao cumprimento prévio das regras.
Não se trata de substituir juízes, reguladores ou contratos. Trata-se de diminuir o custo da verdade jurídica. Tornar economicamente mais caro descumprir do que cumprir. Encurtar a distância entre decisão e consequência.
Na multipropriedade, isso é decisivo. Um instituto pensado para racionalizar o uso do imóvel e democratizar o turismo foi, em muitos casos, capturado por lógicas financeiras agressivas. Com arquitetura tecnológica adequada, cada direito de uso, cada obrigação de manutenção e cada fluxo financeiro deixa de ser promessa e passa a ser rastro verificável. O conflito continua existindo, mas a surpresa estrutural desaparece.
No turismo, o impacto é semelhante. Confiança não nasce de marketing institucional, mas de previsibilidade. Relações continuadas exigem clareza. Clareza exige prova. E prova exige sistema.
É por isso que há resistência. Transparência não incomoda quem opera corretamente. Incomoda quem depende da penumbra para funcionar.
O capitalismo não entra em crise porque se torna rastreável. Entra em crise apenas o modelo que precisa da opacidade para sobreviver. O que está em jogo não é tecnologia, mas maturidade institucional.
Esta coluna parte sempre do mesmo ponto:
não do discurso,
não da promessa,
mas da consequência.
Quem decide?
Quem lucra?
E, quando algo dá errado, quem paga a conta?
Enquanto essa resposta não estiver inscrita na arquitetura dos negócios, o país continuará alternando crescimento episódico com crises previsíveis.
Tecnologia não salva sistemas.
Responsabilidade sim.
Jorge Tardin
Advogado e professor
Especialista em relações de consumo e engenharia jurídica.
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