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Por Silvia Blumberg
A Economia Criativa, por definição, é um ecossistema pujante que utiliza o capital intelectual, a cultura e a inovação como motores de desenvolvimento econômico e social. No Brasil, e especificamente na esfera estadual, o setor viveu um marco importante em 2018, quando o grupo de transição governamental trabalhou arduamente para incluir a Economia Criativa como uma política pública de Estado. Em 2019, esse esforço se concretizou com a ampliação das ações da Secretaria de Cultura, que passou a abraçar oficialmente a área. Entretanto, o que deveria ser um vetor de transformação técnica e transversal transformou-se, na prática, em um complexo tabuleiro de influência política.
O grande desafio reside na estrutura de gestão. Embora a Economia Criativa seja inerentemente transversal — dialogando com tecnologia, turismo, educação e indústria —, o modelo operacional atual permanece engessado por indicações políticas. Hoje, vemos a pasta sendo liderada e ocupada por nomes vinculados a mandatos de deputados federais, o que desloca o foco do desenvolvimento técnico para o fortalecimento de bases eleitorais específicas.
Em um ano eleitoral, essa configuração torna-se ainda mais crítica. A permanência de familiares e ocupantes de cargos no Executivo que possuem ligações diretas com candidatos a cargos eletivos fere o princípio da impessoalidade. É imperativo que gestores nomeados por critérios meramente políticos, e sem a devida formação técnica na área, sejam afastados de suas funções durante o período eleitoral. A manutenção desses quadros cria uma vantagem competitiva desleal, ferindo a igualdade de oportunidades necessária para que novos candidatos disputem o pleito em condições justas.
Outro ponto de preocupação é a alocação do orçamento público. Observa-se que grande parte dos recursos tem sido comprometida com a realização de eventos e espetáculos isolados. Embora a cultura demande celebração, o gasto desarticulado de áreas fundamentais como Educação, Saúde e Meio Ambiente esvazia o potencial estruturante da Economia Criativa. Sem um planejamento que integre essas pastas, o Estado investe em "momentos" e não em "processos", deixando a economia real de diversas regiões refém de eventos efêmeros que não geram sustentabilidade a longo prazo.
Essa vulnerabilidade é visível em programas como os “Pontos de Cultura”. Concebidos para serem polos de resistência e fomento local, muitos correm o risco de serem sequestrados como instrumentos eleitoreiros. Quando o critério de priorização de repasses e projetos passa a ser a base eleitoral de quem detém a "caneta", a política pública morre para dar lugar ao clientelismo.
Para agravar o cenário, a gestão atual carece de transparência baseada em dados. Não existem estudos profundos ou pesquisas científicas que meçam o impacto real desses investimentos na vida do cidadão ou na arrecadação do Estado. A ausência de métricas científicas para definir prioridades impede que especialistas maximizem a utilização dos recursos públicos, permitindo que o dinheiro do contribuinte seja drenado para projetos de visibilidade política imediata em vez de soluções estruturantes.
A Economia Criativa não pode ser um apêndice de projetos de poder pessoal ou partidário. É fundamental que o setor retome sua vocação técnica e profissional. Somente através de uma gestão baseada em evidências, com lideranças capacitadas e desvinculadas de interesses eleitorais diretos, o Estado poderá garantir que a cultura e a criatividade sejam, de fato, ferramentas de emancipação social e não apenas um instrumento de manutenção do poder.
Silvia Blumberg é formada em Serviço Social ( UFRJ), designer premiada no Brasil e nas Américas ,escritora e pós graduada em Economia Criativa , Design Sustentável e Desenvolvimento Sustentável MBA de Gestão e Moda.
Site: www.silviablumberg.com.br
Instagram: @silviablumbergcultrj
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