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Por Jorge Tardin
O debate sobre multipropriedade finalmente começou a amadurecer no Brasil. E isso é uma boa notícia.
Recentemente, uma publicação especializada resumiu discussões de um evento do setor apontando desafios crescentes: conflitos operacionais, inadimplência, alta rotatividade, dificuldades de adaptação de hotéis tradicionais e tensões em torno dos pools de locação.
Tudo isso existe.
Mas o setor ainda olha para o problema pelo ângulo errado.
A multipropriedade não entrou em crise porque fracionou imóveis. Entrou em crise porque parte do mercado acreditou que bastava fracionar a venda sem reconstruir o sistema capaz de sustentar a confiança.
E confiança estrutural não nasce de marketing. Nasce de arquitetura jurídica, governança operacional e transparência.
Durante anos, empreendimentos foram concebidos como hotéis tradicionais e apenas depois convertidos em multipropriedade. O problema é que trocar o modelo de comercialização sem reconstruir a lógica operacional do ativo gera incompatibilidades inevitáveis.
Porque na multipropriedade existe algo que o hotel clássico não possui: o coproprietário.
E coproprietário não se comporta como hóspede passivo. Ele acompanha, compara, questiona, fiscaliza, cobra transparência, discute assembleia, impugna taxa, analisa ocupação e exige prestação de contas.
Não existe apenas consumo. Existe vínculo patrimonial.
E vínculo patrimonial muda completamente a natureza do sistema.
O maior erro do setor foi tratar a multipropriedade como extensão da hotelaria, quando ela constitui uma categoria própria de organização econômica, jurídica e operacional.
Não é hotel. Não é condomínio comum. Não é locação por temporada. Não é ativo financeiro clássico. E não deveria ser reduzida à engenharia comercial de venda de semanas.
Ela exige outro tipo de infraestrutura.
A própria discussão sobre o “pool paralelo” revela algo mais profundo do que mera infração contratual. Em muitos casos, o mercado paralelo surge como reação à centralização excessiva, à opacidade da gestão ou à percepção de desequilíbrio econômico. Quando o proprietário sente que perdeu o controle sobre sua própria fração, tenta recriar liberdade fora do sistema oficial.
O problema não é apenas operacional. É estrutural.
A principal conta que chega agora ao setor tem nome: a multipropriedade brasileira cresceu muito mais rápido na comercialização do que na engenharia jurídico-operacional.
Vendeu-se primeiro. Estruturou-se depois.
Agora o sistema cobra maturidade.
Outro ponto merece atenção: os modelos extremamente pulverizados, especialmente frações de uma única semana.
Durante anos, o fracionamento extremo foi celebrado como símbolo de democratização do acesso. Mas pulverizar excessivamente a propriedade pode amplificar inadimplência, abandono, litigiosidade, ruído decisório e fragilidade de governança.
Quanto menor o vínculo econômico e emocional com o ativo, maior a instabilidade estrutural do sistema.
O futuro está menos na pulverização absoluta e mais em modelos híbridos: frações economicamente sustentáveis, governança inteligente, uso programável, compliance operacional, prestação de contas rastreável e separação clara entre propriedade, operação e exploração econômica.
É aqui que começa a próxima fase da multipropriedade.
Ela não será apenas comercial. Será tecnológico-jurídica.
Não para substituir o direito pela tecnologia — mas para tornar o direito verificável.
Contratos inteligentes, blockchain e tokenização conformada ao direito real, à regulação vigente e à rastreabilidade econômica não devem servir para vender fumaça digital ou alimentar novos ciclos especulativos. Sua função real será eliminar as opacidades históricas do setor: registrar uso, rastrear receitas, automatizar prestações de contas, auditar pools, controlar ocupação, reduzir conflitos, separar propriedade de operação, impedir assimetrias informacionais e criar trilhas verificáveis de governança.
O futuro da multipropriedade não será decidido na recepção do resort. Será decidido na arquitetura invisível dos dados, dos contratos e da governança.
A multipropriedade fracassa quando tenta ser, simultaneamente, hotel, condomínio, investimento financeiro, plataforma de locação, clube de férias e promessa de rentabilidade. Misturar todas essas camadas sem separação jurídica adequada produz exatamente o que o mercado enfrenta agora: conflito, judicialização, desgaste reputacional e erosão de confiança.
A saída não está em abandonar a multipropriedade. Está em finalmente profissionalizá-la.
Separar direito real, direito de uso, operação hoteleira, exploração econômica, governança, mercado secundário e infraestrutura tecnológica. Cada camada com regras próprias, responsabilidades próprias, transparência própria.
A multipropriedade não é hotel fracionado. É infraestrutura compartilhada de uso, governança e confiança.
O mercado não está mais discutindo apenas imóveis.
Está discutindo arquitetura institucional de confiança.
Porque frações imobiliárias podem ser vendidas em segundos.
Mas confiança estrutural leva anos para ser construída — e minutos para colapsar.
No final, como sempre, alguém paga a conta.
E normalmente paga mais caro quem acreditou que bastava vender semanas sem construir o sistema capaz de sustentar, auditar e proteger a confiança coletiva que mantém o empreendimento vivo.
Jorge Tardin
Advogado e professor
Engenharia Jurídica
Coalizão Veredicto do Capital
LinkedIn: Jorge Tardin
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