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Por Jorge Tardin
Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital passariam a ser classificados como organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. A medida foi celebrada por Flávio Bolsonaro, que esteve em Washington defendendo maior pressão americana sobre o Brasil, enquanto o governo brasileiro reagiu apontando violação da soberania nacional.
O fato é grave.
Não porque o crime organizado brasileiro mereça proteção. Não merece. Facções criminosas devem ser combatidas com inteligência, polícia, investigação patrimonial, bloqueio financeiro, cooperação internacional e presença efetiva do Estado.
O problema é outro.
Uma parte da política brasileira passou a buscar fora do país a força que não conseguiu construir dentro dele.
Há uma diferença essencial entre cooperação internacional e tutela estrangeira. Cooperar para enfrentar o crime transnacional é legítimo; pedir que uma potência pressione instituições brasileiras para produzir efeitos políticos internos é terceirizar a soberania.
A democracia brasileira resolve suas crises nas urnas, nos tribunais, no Congresso, na imprensa livre, no Ministério Público, nas polícias, na sociedade civil e nas instituições nacionais.
Não em gabinete estrangeiro.
Não por sanção importada.
Não por tarifa travestida de moralidade.
Não por aplauso de quem olha o Brasil como peça de tabuleiro geopolítico.
Potência estrangeira não tem amizade permanente. Tem interesse permanente.
Os Estados Unidos não pensam o Brasil com a emoção da nossa guerra cultural. Pensam em influência regional, segurança continental, mercados, energia, tecnologia, cadeias produtivas e poder.
Sempre foi assim.
Por isso a velha frase atribuída a Juracy Magalhães — “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” — ainda incomoda. Ela revela uma tentação antiga: trocar pensamento nacional por alinhamento automático.
A soberania nacional não é ornamento patriótico. É fundamento da República e princípio da ordem econômica. Quando ela se converte em ativo eleitoral, o prejuízo deixa de ser partidário e passa a ser nacional.
O incentivo é transparente.
Quem está fora do poder tenta transformar pressão externa em atalho político.
Washington amplia influência sobre a política brasileira.
Quem vive da polarização ganha combustível emocional.
Quem explora o medo converte insegurança pública em palanque.
Mas o custo não fica onde o discurso nasce.
Sanção não atinge apenas governo.
Tarifa não pune apenas adversário.
Classificação internacional não reorganiza apenas o noticiário.
Tudo isso altera risco-país, crédito, investimento, exportações, contratos, compliance, bancos, seguradoras, cadeias produtivas e previsibilidade institucional.
O mercado não pergunta quem lacrou.
O mercado precifica instabilidade.
E quando lideranças nacionais sinalizam que aceitam enfraquecer o próprio país para atingir adversários internos, o dano deixa de ser retórico.
Vira custo de transação.
O crime organizado precisa ser enfrentado. Mas isso não autoriza entregar a outro Estado a chave simbólica da soberania nacional.
A República brasileira não pode ser tratada como filial emocional da política americana.
Nenhum campo político tem o direito de pedir tutela externa contra o próprio país. A disputa se resolve aqui, dentro das instituições brasileiras, com todos os seus conflitos e imperfeições.
Porque o precedente é perigoso: hoje se pede sanção contra o adversário; amanhã se aceita pressão contra qualquer decisão nacional que desagrade a potência da vez.
Esse é o ponto estrutural.
Quando a soberania vira instrumento de facção, o país inteiro vira garantia da aposta política de poucos.
No fim, quem paga a conta não é o político que grava vídeo em aeroporto internacional.
Quem paga é o exportador que perde mercado.
É o trabalhador que perde emprego.
É o consumidor que paga mais caro.
É o investidor que vê o risco aumentar.
É o contribuinte que financia a recomposição do dano.
E é o Brasil, quando descobre que soberania usada como atalho político sempre volta menor como destino nacional.
Jorge Tardin
Engenharia Jurídica
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