Abraço Perpétuo

Por Ronald Luis

Abraço Perpétuo

 

Há muitos anos, eu estava sentado num balanço de praça… no dia seguinte ao ser espancado.

Lembro da minha tia me abraçando:

— Eu não devia ter dito pra ele… Ele te bateu como um animal.

Apanhei porque estava agitado na escola.

Só queria beber água.

Bebi dois litros.

Minha tia me buscava. Contou em casa. Não esperava aquilo.

Fiquei roxo. Passei vergonha na escola, como se eu merecesse.

Enquanto me batia, ele repetia as palavras que explicavam os golpes. A razão era o dinheiro: não podia ser desperdiçado com meu mau comportamento.

Minha sede era mau comportamento.

Cada palavra doía mais que o soco.

Fiquei no balanço, sozinho, esperando a noite passar.

Ele voltaria de madrugada, mas eu podia fingir que dormia com minha mãe. Ela também fugia.

Fingíamos dormir na mesma cama, ela com a roupa do trabalho, evitando contato.

Aquele tecido fino dava calor.

Diferente do meu corpo, que ardia.

A chuva aliviava.

A camisa molhada também.

Eu olhava o céu. Escuro, às vezes com estrelas.

Nuvens passando pela lua.

Vi a última criança sendo buscada pelo pai.

Não apanhou.

Foi levada pela mão, calma.

Depois de meia hora, alguém da família veio me buscar.

O corpo pedia explicação.

Eu não refletia, mas sabia tudo.

Parte da família nunca esteve do meu lado.

Os anos mostraram.

Meu melhor amigo era afeminado.

Passávamos as noites brincando de roda, imitando novelas, inventando personagens.

Era a única hora em que eu esquecia o corpo roxo.

Houve pressão para que ele não fosse mais meu amigo.

Eu nunca pensei como os outros pensavam.

Os outros fizeram ele se afastar.

Nunca mais o vi.

Hoje penso: a gente podia ter sido algo por mais tempo.

Mas nem sei se ele lembra de mim.

O que queriam evitar aconteceu de qualquer jeito com outras pessoas.

Depois daquilo, parei de escrever por anos.

Achava que o balanço já contava tudo.

Voltei quando percebi que escrever era a única forma de evitar a morte.

Já morri tantas vezes.

Perdi tudo.

Como uma planta arrancada pela raiz.

Nada do que vivi terá justiça.

Às vezes acordo com o coração disparado.

Respiração curta.

Corpo quente, sem febre.

Nessa hora me pergunto se essa ansiedade é falta de Deus.

Ou o desespero de que Ele exista.

Se não existir, é o descanso.

Se existir…

talvez eu receba o abraço perpétuo.

Hoje ainda olho o céu.

Será que Deus me via naquela praça?

E se via, por que não desceu?

Minha mãe decidiu que iríamos pra favela.

Pra nunca mais passar por aquilo.

Trocar classe média por outra vida.

Meu humor vem disso.

Não posso mudar o mecanismo, mas posso debochar a ponto de foder com tudo.

É assim que nascem os anti-heróis.

E os palhaços.

Por Ultima Hora em 17/03/2026
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