Alerj corre contra o tempo para blindar poder legislativo antes da reforma de Ricardo Couto

Alerj corre contra o tempo para blindar poder legislativo antes da reforma de Ricardo Couto

Eleição antecipada de Douglas Ruas como presidente da casa pode modificar as estruturas de força no governo de transição. Análise mostra que a perda de Bacellar enfraquece minimamente o PL, mantendo sua bancada praticamente intacta.

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro enfrenta um cenário de movimentação acelerada. Após a cassação de Rodrigo Bacellar pelo Tribunal Superior Eleitoral na terça-feira (24), a casa articula uma eleição relâmpago para escolher seu novo presidente já na sexta-feira (27). Douglas Ruas, deputado estadual do Partido Liberal e pré-candidato ao governo do estado, emerge como o favorito, com apoio estimado de cerca de 40 votos — acima dos 36 necessários para vencer.

O contexto que alimenta essa pressa revela-se em declarações recentes do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, que governa transitoriamente o estado. Couto afirmou em entrevistas sua intenção de realizar uma "limpeza" administrativa, com cortes de secretarias inteiras e eliminação de cargos considerados desnecessários. Para os deputados, particularmente aqueles vinculados à base governista anterior, essa ameaça funciona como catalisador para reposicionar suas forças.

A importância estratégica da presidência da Alerj

A eleição de um novo presidente da Alerj carrega significado que transcende as meras funções administrativas de uma casa legislativa. Conforme estabelece a legislação estadual, a presidência da assembleia integra a linha sucessória do governo. Com Guilherme Delaroli, vice da chapa anterior e presidente em exercício, oficialmente afastado dessa sucessão pela cassação de Bacellar, a eleição para a presidência da casa se torna um ato potencialmente transformador para o equilíbrio de poder no estado.

Para Douglas Ruas especificamente, a conquista da presidência significaria assumir uma posição de força negociadora frente ao governo de transição. Enquanto Couto articula sua reforma administrativa, um presidente de Alerj alinhado com a base poderia modular o ritmo e o escopo dessas mudanças. Além disso, Ruas se vê em posição simultaneamente estratégica: deputado estadual mais votado do Partido Liberal em 2022 com mais de 157 mil votos, ex-secretário de Cidades durante o governo Castro, e agora pré-candidato à sucessão governamental anunciado pelo próprio partido.

O impacto limitado da cassação de Bacellar na composição da casa

A cassação de Bacellar provocou considerable movimentação política, mas seu impacto numérico na Assembleia Legislativa permanece circunscrito. Dados eleitorais de 2022 revelam cenário revelador: ao ser anulado os 97.822 votos que Bacellar recebeu, o Partido Liberal manteria sua bancada praticamente intacta.

O partido obteve aproximadamente 1.570.000 votos para deputado estadual em 2022, elegendo 17 deputados. Para que o PL perdesse uma cadeira inteira por causa dessa anulação, seria necessária a perda de cerca de 121.300 votos — cifra substantially superior aos votos de Bacellar. Como resultado, os primeiros suplentes da sigla ascenderiam automaticamente à titularidade. Alexandre Knoploch, que já atua frequentemente como suplente da bancada, seria o nome imediato para ocupar o lugar deixado por Bacellar. Após Knoploch, seguiriam Delegado Carlos Augusto e Charlles Batista, mantendo a composição ideológica e numérica da base governista.

Esse aspecto torna-se relevante quando se avalia o peso político de Ruas na negociação atual. Mesmo com a saída de Bacellar, a base parlamentar que o apoiaria como presidente permaneceria robusta, com força numérica para defender sua agenda contra possíveis obstruções do governo de transição.

O regimento interno e a estratégia de antecipação

O regimento interno da Alerj prevê que a eleição de novo presidente possa ocorrer dentro de um prazo de até cinco sessões. A decisão de antecipar para sexta-feira (27) representa, portanto, uma compressão deliberada desse cronograma. A justificativa reside na necessidade de que a comunicação formal ao TSE da cassação de Bacellar chegue à Alerj ainda esta semana, permitindo que a sessão extraordinária seja convocada imediatamente.

Pelo regimento, a eleição deve ser conduzida em sessão extraordinária com voto aberto e nominal. Essa modalidade de votação, embora seja a regra estadual, encontra-se sob disputa no Supremo Tribunal Federal. O ministro Luiz Fux havia suspenso justamente a votação aberta para outras eleições indiretas relacionadas à sucessão governamental, exigindo sigilo de voto. Contudo, a votação para presidência da Alerj encontra-se em esfera distinta — trata-se de eleição interna corporis da casa legislativa, e não propriamente da sucessão executiva. Essa distinção jurídica permite que os deputados prossigam com o procedimento segundo as normas estaduais.

Ricardo Couto e a ameaça da reforma administrativa

O presidente do Tribunal de Justiça que governa interinamente o Rio de Janeiro apresenta-se como figura central no contexto que pressiona os deputados. Desembargador com trajetória na magistratura desde 1992, Couto assume governo cuja legitimidade repousa em uma linha sucessória constitucional, mas cuja margem de manobra política permanece contestada.

Em declarações públicas, Couto sinalizou seu projeto de "limpeza administrativa" — expressão que comporta interpretações variadas, de simples otimização orçamentária até redefinição drástica de estruturas. Para a base parlamentar que apoiava Castro e Bacellar, essa ameaça representa risco tangível. Uma reforma administrativa empreendida sem negociação prévia com a Alerj poderia desmantelar bases de poder consolidadas ao longo de anos: secretarias inteiras com estruturas políticas próprias, cargos em comissão distribuídos segundo acordos partidários, programas de governo com raízes em demandas regionais.

O futuro de Douglas Ruas e a candidatura ao governo

A eleição de Ruas para presidência da Alerj criaria sinergia em sua trajetória política. Como presidente da casa, ocuparia cargo que confere visibilidade, poder de agenda legislativa e controle sobre a máquina administrativa da instituição. Como pré-candidato à sucessão governamental, esse posicionamento ofereceria plataforma para construir apoio político e parlamentar necessário para uma eventual eleição direta — caso o Supremo Tribunal Federal decida que será direto o formato de escolha do próximo governador.

Simultaneamente, caso a eleição indireta prevalecesse, a presidência da Alerj se converteria em vantagem inestimável. Ruas comandaria a casa que elegeria o novo governador, posição que confere influência sobre todas as negociações políticas precedentes ao pleito. Conforme análises de interlocutores políticos consultados para esta reportagem, seria praticamente impossível um candidato à sucessão vencer sem apoio do presidente da assembleia.

O jogo político se intensifica enquanto Fux permanece atento

A disputa pela presidência da Alerj insere-se em contexto mais amplo de incerteza jurídica sobre a própria forma de sucessão do governo estadual. Enquanto ministros do Supremo Tribunal Federal debatem se haverá eleições diretas ou indiretas, a legislatura estadual segue antecipando movimentos que se mostrariam vantajosos em qualquer um dos cenários. A eleição de Douglas Ruas nesta sexta-feira pode representar, portanto, não apenas uma mudança administrativa, mas um recalibramento das forças políticas que moldarão o futuro do Rio de Janeiro.

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), Supremo Tribunal Federal (STF), O Globo, Diário do Rio, Portal Multiplix

Por Ultima Hora em 25/03/2026
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