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Pouca gente sabe, mas antes de Belford Roxo existir como município, o território ainda era parte de Nova Iguaçu. Foi nesse tempo, na primeira metade dos anos 1950, que surgiu um casarão peculiar, que para os moradores ganhou nome de “Castelinho do General”.
O responsável pela obra foi o General José Müller, médico e dentista do Exército, homem respeitado, de família tradicional e vida dedicada à corporação e ao atendimento da população. Conta-se que, além da farda, Müller era conhecido pela generosidade: instalou dentro do castelo um consultório onde atendia moradores gratuitamente, ajudava em emergências e até conduzia doentes para hospitais. A casa misturava imponência e acolhimento, e isso marcava sua relação com a comunidade.
O castelo, erguido na então região iguaçuana de Itaipú/Heliópolis, tinha dois andares, torre, piscina e até um aquário com o escudo do Botafogo. Era uma excentricidade arquitetônica no meio da Baixada Fluminense, símbolo de status, mas também de proximidade com o povo. A construção refletia o perfeccionismo do general, que demitia pedreiros até encontrar quem seguisse à risca suas exigências — e fez da casa não só um lar, mas também uma marca de sua personalidade.
Com o passar do tempo, e já com Belford Roxo emancipado de Nova Iguaçu, o “Castelinho” mudou de dono e de função. Serviu como sede da Vigilância Sanitária municipal, até cair em abandono. Sem proteção legal de tombamento, foi depredado, saqueado e entregue à deterioração.
A população pediu preservação, levantou protestos, fez apelos para que se mantivesse de pé ao menos como memória da cidade, mas não foi ouvida.
No início da década de 2010, o prédio foi vendido à empresa de ônibus Viação Vera Cruz, que decidiu derrubá-lo. Um derrubamento histórico, como lembram os moradores, mais do que uma demolição: era o fim de um marco simbólico da cidade, substituído por uma garagem de ônibus.
A ausência de tombamento foi decisiva: sem registro oficial como patrimônio cultural, o castelo nunca foi defendido institucionalmente. Assim, a história ficou restrita à memória popular — contada de boca em boca, relembrada com nostalgia e dor.
No balanço, o Castelinho do General Müller foi muito mais que uma residência excêntrica. Ele nasceu em Nova Iguaçu, sobreviveu ao nascimento de Belford Roxo, foi palco de gestos humanos e solidários, e terminou demolido diante da indiferença das autoridades. Se não fosse trágico, seria cômico. Mas foi real — e, para quem viveu a época, inesquecível.
Por: Arinos Monge.
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