Canetas emagrecedoras estão mais acessíveis — mas perder peso sem preservar músculos pode cobrar um preço caro

Canetas emagrecedoras estão mais acessíveis — mas perder peso sem preservar músculos pode cobrar um preço caro

Recentemente, a atriz e apresentadora Fernanda Paes Leme revelou que tentou usar uma caneta emagrecedora depois da gravidez e do período de amamentação da filha. A experiência, porém, não terminou como ela esperava: Fernanda contou que passou tão mal que precisou procurar atendimento hospitalar.

O relato chama atenção para uma realidade que vejo diariamente no consultório: as canetas emagrecedoras, como Mounjaro e Wegovy, podem ser ferramentas extraordinárias no tratamento da obesidade, mas não são desprovidas de riscos. Elas não funcionam da mesma forma para todas as pessoas e não devem ser utilizadas sem um planejamento e acompanhamento profissional.

Com a chegada ao mercado de canetas emagrecedoras mais acessíveis, como Ozivy, Poviztra e Extensior, na faixa dos R$ 400, um grande número de pacientes que antes não tinha acesso a essa tecnologia finalmente poderá tratar a obesidade e o sobrepeso.

Isso é uma excelente notícia.

Mas essa maior facilidade de acesso também exige cuidado. Não basta perder peso. É preciso emagrecer com saúde, segurança e qualidade.

E existe um risco sobre o qual quase ninguém fala: perder muitos quilos na balança, mas perder os músculos junto com eles. “Fica só a capa do Batman” – como diz o outro.

Qual é o perigo de emagrecer sem qualidade?

Eu costumo dizer no consultório que o músculo é a âncora que mantém você no peso novo.

Você pode até perder peso, mas, se não preservar o músculo e colocar todo o foco apenas em eliminar gordura, terá muito mais dificuldade para manter o resultado quando interromper o medicamento.

Isso acontece porque o nosso corpo possui uma coisa chamada “set point”. É como se fosse um peso que ele — o seu corpo — acredita que você deva ter, independentemente de como você goste de se vestir ou de qual peso considere ideal.

Quando você perde peso, o seu corpo tenta, de todas as formas, fazer você voltar ao peso original. Para conquistar um peso novo e conseguir mantê-lo, é preciso ter uma composição corporal equilibrada — e essa composição depende da relação entre músculo e gordura.

Perder peso e tornar-se magro são duas coisas completamente diferentes.

Músculo x gordura: a chave para manter o emagrecimento

No dia a dia do consultório, eu explico aos pacientes que a gordura é o “estocador” e o músculo é o “queimador” de energia do nosso organismo.

Grande parte dos pacientes com obesidade possui uma quantidade elevada daquilo que estoca energia no corpo — a gordura — e uma quantidade reduzida daquilo que utiliza energia — o músculo.

Isso significa que a tendência natural daquele organismo será estocar energia sob a forma de gordura.

Se o organismo continuar programado para estocar energia e engordar, não importa o quanto você tenha emagrecido: quando menos perceber, poderá voltar a ganhar peso e recuperar o peso original.

Para reduzir esse risco, é preciso começar a treinar musculação desde o início do tratamento com a caneta: no momento zero, no dia zero.

A orientação é clara: começar a treinar e levar o treinamento a sério, com regularidade, orientação, progredindo as cargas, até conquistar o músculo de que precisa para permanecer magro e saudável.

A maior parte das pessoas em uso das canetas não faz isso. Por isso o peso volta.

Exames de sangue: entenda o que está acontecendo no seu corpo

Toda dieta pode expor o organismo a carências nutricionais, principalmente quando existe uma grande redução da quantidade de alimentos ingeridos.

Isso independentemente de estar usando o remédio ou não.

Essas possíveis deficiências devem ser monitoradas por meio de exames de sangue periódicos. Além disso, indicadores como glicemia, insulina, colesterol, triglicerídeos e, quando necessário, o perfil hormonal, devem ser acompanhados de perto.

No consultório, eu costumo repetir esses exames a cada três ou quatro meses, justamente para verificar se existe necessidade de alguma intervenção e se as vitaminas e minerais estão se mantendo direitinho.

Também é importante acompanhar, de maneira planejada, a mudança da composição corporal por meio da bioimpedância e correlacionar esses resultados com os exames de sangue.

Geralmente, a composição corporal ajuda a prever o quanto os exames poderão estar alterados. Pessoas com excesso de gordura e pouca massa muscular frequentemente apresentam exames alterados. Pessoas com uma composição corporal equilibrada tendem a apresentar melhores resultados nos exames.

Por isso, devemos perseguir uma composição corporal saudável, mais do que simplesmente perder peso.

“O que mata a sede é água”

Uma referência frequentemente utilizada para estimar a necessidade diária de água é multiplicar aproximadamente 35 ml pelo peso corporal.

Mas essa conta não serve da mesma forma para todo mundo e precisa ser individualizada, principalmente em pessoas com obesidade, problemas cardíacos, doenças renais ou outras condições de saúde.

Refrigerante, suco e outras bebidas não substituem a água. Como dizia o nosso amigo ambulante nos trens de antigamente do Rio de Janeiro: “O que mata a sede é água”. Ele estava certo, nosso sábio camelô.

Os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, além de versões mais recentes, como Poviztra, Extensior e Ozivy, podem diminuir bastante o apetite e, junto com ele, a ingestão espontânea de líquidos.

Além disso, sintomas como náuseas, vômitos ou diarreia podem aumentar o risco de desidratação.

A pessoa acha que está hidratada, mas não está. Por isso, deve assumir um compromisso consciente consigo mesma e com a ingestão de água.

Em um dia corrido, como é a rotina da maioria dos brasileiros, se você deixar para beber água apenas “quando der um tempinho”, simplesmente não vai acontecer.

Musculação, musculação, musculação (eu falei musculação?)

Quando o objetivo é preservar ou aumentar a massa muscular, a musculação é uma das melhores estratégias disponíveis.

Pilates é excelente, mas não costuma substituir completamente um programa de musculação.

Caminhada é ótima para a saúde, mas também não substitui o treinamento de força.

Beach tennis é maneiro, mas não substitui musculação.

A atividade física que mais diretamente produz músculo — o próprio nome já diz — é a muscula-ção.

A natação é ótima, mas trabalha mais intensamente a parte superior do corpo e normalmente precisa ser complementada com exercícios para as pernas.

O CrossFit pode ser uma excelente atividade para algumas pessoas, principalmente para quem gosta de exercícios mais dinâmicos. Mas deve ser muito bem orientado e respeitar a idade, o condicionamento, as limitações físicas e o histórico de lesões de cada pessoa.

Já a musculação permite infinitas adaptações. Se você está com um problema no ombro, por exemplo, pode continuar treinando pernas e outras partes do corpo que não envolvam diretamente aquela articulação.

Existe uma razão para as academias estarem cheias de aparelhos: porque eles dão mais resultado, quando o assunto é estimular a musculatura.

Você, na verdade, paga a academia para ter acesso aos aparelhos pois peso você tem em casa. Por isso, não desperdice seu tempo e seu dinheiro.

Converse com o seu instrutor e peça um programa voltado para a preservação e o ganho de massa muscular, utilizando os aparelhos mais adequados às suas condições.

Seu momento é agora

Nunca tivemos tantas opções para o tratamento da obesidade quanto atualmente.

O acesso aos medicamentos aumentou, a informação está circulando e o preconceito da sociedade em relação ao tratamento médico da obesidade começa, finalmente, a diminuir.

Todas as condições favorecem o início de um tratamento bem planejado.

Mas o tratamento não pode se resumir à aplicação de uma caneta.

É preciso cuidar da alimentação, preservar os músculos, acompanhar os exames, manter uma hidratação adequada e realizar atividade física.

A caneta pode ajudar você a perder peso.

Mas são os hábitos construídos durante o tratamento que ajudarão você a permanecer saudável e a manter o resultado conquistado.

Seu momento pode ser agora — desde que você o faça da maneira certa.


Dr. Noé Alvarenga é médico nutrólogo (CRM 55524-5 RJ – RQE 33056), com atuação focada no tratamento da obesidade e sobrepeso, na nutrologia clínica e no manejo responsável de terapias metabólicas, incluindo agonistas de GLP-1 quando indicados. É fundador da Clínica Nutrobarra com unidades na Barra da Tijuca, no Shopping Downtown, e em Del Castilho, no Shopping Nova América, no Rio de Janeiro.
 

 https://drnoe.com.br/

Por Ultima Hora em 11/07/2026
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