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A volta dos que nunca foram
Há algo de profundamente cômico na política brasileira quando um clã oligárquico nordestino, acostumado a tratar divergência como insolência pessoal, resolve posar de tutor da democracia nacional. Os Gomes nunca foram conhecidos pela elegância liberal. Seu método político sempre se pareceu mais com coronelismo testosterônico embalado em palavrório tecnocrático. Uma mistura de FMI, temperamento colérico e messianismo administrativo.
Agora surge Ciro Gomes, novamente reciclado pela imprensa como “voz equilibrada”, tentando vender ao país a ideia de uma terceira via moral entre extremos. O problema é que boa parte desses extremos nasceu justamente da engenharia política produzida por figuras como ele.
A velha tese do “centro civilizador” reaparece porque as elites brasileiras jamais suportaram a possibilidade de um conflito político genuíno fora do seu controle. O teatro das tesouras precisa ser restaurado. PT e tucanagem fingindo antagonismo moral enquanto repartem redações, tribunais, universidades e fundos públicos. Tudo cuidadosamente administrado para que a população tenha sensação de escolha sem jamais tocar no núcleo do poder.
O mais divertido é observar a metamorfose estética do tucanato. Durante anos chamaram qualquer discurso soberanista de populismo autoritário. Agora tentam vender nacionalismo administrativo gourmetizado, como se Fernando Henrique tivesse passado a juventude lendo Charles Maurras em vez de relatórios do Banco Mundial. O PSDB envelheceu como uma socialite decadente tentando parecer rebelde aos 70 anos.
E então aparece Ciro como avalista da “moderação”. Ciro Gomes. O homem que transforma qualquer entrevista em ameaça velada. O sujeito que confunde destempero emocional com autenticidade popular. O eterno candidato cuja trajetória política lembra um surto de hipertensão permanente transmitido ao vivo.
A condenação recente por violência política contra a prefeita Janaína Farias apenas reforça um padrão antigo. Existe algo de estrutural no comportamento dos Gomes. A família inteira opera dentro daquela cultura política oligárquica do Ceará profundo, onde autoridade se exerce pelo constrangimento público, pela humilhação verbal e pela intimidação performática. O verniz desenvolvimentista jamais conseguiu esconder o impulso coronelista.
Talvez o episódio mais simbólico dessa mentalidade tenha vindo justamente do irmão de Ciro, Cid Gomes, avançando de retroescavadeira contra policiais grevistas no Ceará. Uma cena tão grotesca que parecia saída de alguma república bananeira dos anos 60. O coronelismo brasileiro entrou no século XXI pilotando maquinário pesado. A família que hoje fala em pacificação nacional resolveu conflitos trabalhistas literalmente acelerando contra manifestantes.
Há algo quase freudiano nisso. Os Gomes representam perfeitamente o tipo de oligarquia regional que o Brasil fingiu superar, mas apenas sofisticou esteticamente. Trocaram o chicote pelo microfone. O jagunço pelo marqueteiro. O curral eleitoral pelo algoritmo.
Nem mesmo o episódio recente em que Ciro enxergou “apologia ao CV” num gesto banal de apoiador escapa dessa lógica paranoica de personalismo agressivo. O poder oligárquico sempre precisa enxergar conspiração, ameaça e desrespeito em toda parte. É a psicologia clássica dos pequenos imperadores provincianos.
No fundo, o que se vende como “moderação democrática” talvez seja apenas o velho pacto das elites brasileiras tentando sobreviver ao desgaste histórico. Os mesmos sobrenomes. As mesmas famílias políticas. Os mesmos editorialistas emocionados falando em responsabilidade institucional enquanto reciclam os arquitetos da própria degradação nacional.
O Brasil não vive uma crise de radicalização. Vive uma crise de esgotamento oligárquico. E poucas famílias simbolizam isso tão bem quanto os Gomes.
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia - USA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFScar)
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