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Desde criança que ouço histórias de pessoas que perderam tudo no jogo. No Brasil, os “jogos de azar” foram proibidos em 1946, através de decreto assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, que teria sido influenciado por sua esposa Carmela Dutra, que era conhecida por sua religiosidade à Igreja católica. A razão principal para a proibição desses jogos é a proteção à saúde, tanto emocional quanto financeira, dos apostadores, pois os jogos de apostas levam à um comportamento compulsivo dependente.
Hoje estamos vivendo uma “febre dos bets”, onde uma enxurrada de propagandas de jogos invade nossas telas na internet. Mas não era assim. Em 2018 as apostas esportivas foram sancionadas no país e em 2023 o governo federal publicou um decreto que regulamenta o mercado das bets. Essa regulamentação alinhou os interesses, trazendo segurança ao mercado, que expandiu e hoje já conta com mais de 200 marcas de casa de apostas online.
Mas o quê acontece com o cérebro de uma pessoa com compulsão por apostas? A primeira vez que o vício em jogos foi relatado como doença foi em 1980, na terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a maior referência na área. Na quinta edição, publicada em 2013, foi classificado como uma dependência, mesmo que não haja nenhum composto químico sendo consumido. Isso acontece porque o nosso cérebro produz os compostos químicos envolvidos, a partir do estímulo.
Estudos de neuroimagens estão demonstrando que existem várias regiões do cérebro que estão associadas à compulsão por jogos de apostas, se destacando por apresentarem maiores atividades em jogadores compulsivos:
CÓRTEX PRÉ-FRONTAL VENTROMEDIAL – Região do cérebro envolvida na tomada de decisão, memória e regulação das emoções.
CÓRTEX FRONTAL ORBITAL – Ajuda o corpo a responder às emoções.
ÍNSULA – Regula o sistema nervoso autônomo.
Quando jogadores observam os resultados das suas apostas, o sistema de recompensa do cérebro é ativado. Em jogadores viciados, essa resposta é muito forte. Quando o córtex pré-frontal envia um sinal de que algo interessante e positivo acabou de acontecer ou está prestes a acontecer, a área tegmentar ventral é acionada e, como um reflexo da ativação do sistema de recompensa, produz o neurotransmissor dopamina e o despeja sobre neurônios do núcleo acumbente.
A dopamina é capaz de modificar a atividade elétrica dos neurônios que ela alcança (neuromodulador) e quanto mais os neurônios do núcleo acumbente recebem dopamina, maior é a sensação de bem-estar e prazer que associamos àquele comportamento. Essa sensação de bem-estar motiva a repetição de atividades que a estimulam, fortalecendo as memórias associadas à recompensa e incentivando a busca por mais, facilitando o aprendizado e a formação de novos hábitos. Qualquer coisa que seja interessante pode desencadear o processo, como o cheiro de bife na chapa, a mensagem da pessoa que se ama, a possibilidade de uma vaga de emprego, dentre outras.
Como “Querer e gostar são sensações produzidas por sistemas diferentes do cérebro”, segundo escrevem Daniel Z. Lieberman e Michael E. Long, autores do livro Dopamina – a molécula do desejo, o prazer é garantido, mas não garante que você vá realmente gostar disso. Assim funciona esse sistema que evoluiu para nos motivar a qualquer possibilidade de garantia da sobrevivência e reprodução.
Qualquer pessoa em qualquer idade pode desenvolver o vício no jogo (Ludopatia) e é preciso estar alerta, pois geralmente a pessoa adoecida demora para perceber que a aposta que era corriqueira, se transformou em vício.
Quais os sintomas?
1 Manter preocupação com o jogo, como planejar a tomada de atitudes no jogo, estratégias, etc.
2 Precisa apostar quantias cada vez maiores para obter a mesma emoção.
3 Tenta reduzir ou parar, mas não consegue.
4 Mente para familiares e outras pessoas próximas para esconder que joga ou que está com problemas devido ao jogo.
5 Pedir empréstimos para jogar.
O Sistema Único de Saúde (SUS) já oferece atendimento para pessoas viciadas em jogos. O cuidado é realizado principalmente por meio da REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPs), que inclui os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Estima-se que cerca de 2 milhões de brasileiros estejam viciados em bets e esse número não parece que vai diminuir.
Profª. Drª. Adriana Pedrenho
Departamento de Ciências Fisiológicas, UFRRJ
Idealizadora da Nave Química Fisiológica
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