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O Rio de Janeiro e o Brasil precisam reaprender uma lição que o botequim resolveu antes da política: o melhor chope tem pouca espuma.
Espuma sobe rápido, ocupa espaço, faz bonito no primeiro olhar e engana quem está com sede. Mas espuma não mata a sede. Espuma é aparência. Chope é conteúdo.
Na política, a fraude é parecida.
Há governantes que servem espuma. Muito slogan, muita pose, muita guerra cultural, muita fake news cheia de bolhas, muito discurso para a claque. Parece força. Parece convicção. Parece liderança. Mas, quando a agitação baixa, o copo revela a verdade: de conteúdo, não sobra nada.
E toda vez que o eleitor escolhe espuma, alguém paga a conta.
O Rio já pagou.
Já houve gestão mais preocupada em pregar do que em planejar, mais dedicada a falar para convertidos do que a organizar a cidade, mais inclinada a ocupar emocionalmente a plateia do que a enfrentar a vida real. Como se uma metrópole pudesse ser governada com sermão, simbolismo e pureza performática.
Não podia.
Buraco não fecha com bordão.
Investimento não entra por unção.
Turismo não cresce com cara feia.
Cidade não melhora no grito.
Depois veio outro método. Menos liturgia, mais agenda. Menos guerra moral, mais articulação. Menos culto à bolha, mais esforço para recolocar a cidade no mapa dos eventos, do turismo, da cultura, da inovação e dos negócios.
Não se trata de perfeição. Trata-se de direção.
E direção, na política, vale mais do que pose.
O verdadeiro teste de um governante não é quantas paixões ele desperta. É quantas engrenagens ele consegue fazer funcionar sem destruir a cidade no processo. Confiança. Agenda. Reputação. Turismo. Investimento. Contrato. Circulação econômica.
É aí que começa a política de verdade.
O Estado do Rio de Janeiro não pode mais ser governado como cenário. Não pode viver só de paisagem, carisma ou indignação. O Rio tem marca global, turismo, cultura, cinema, gastronomia, hotelaria, energia, portos, economia criativa e poder de sedução internacional. Poucos lugares receberam tanto. Poucos desperdiçaram tanto.
Porque ativo sem estrutura é só paisagem.
Mas o Rio tem ainda um ativo que nenhum discurso criou e nenhum governo pode subestimar: a geografia. Serra e mar combinados como em poucos lugares do planeta. Montanhas que despencam sobre o oceano, baías, praias, florestas, luz, escala, paisagem dramática. É singularidade bruta. Só que singularidade, sozinha, vira postal. E postal não paga conta, não gera cadeia produtiva, não segura jovem no território.
Transformar essa beleza ímpar em plataforma de turismo qualificado, hotelaria de excelência, esportes de natureza, audiovisual, economia da experiência e desenvolvimento territorial é que é conteúdo. O resto é deixar a riqueza na vitrine enquanto se coleciona desperdício.
Essa é a frase central.
O grande fracasso político do Rio não foi apenas produzir crises. Foi desperdiçar ativos. Foi trocar projeto por espuma. Foi permitir que uma potência simbólica mundial fosse administrada, tantas vezes, com cabeça de bolha e horizonte curto.
Há duas formas de matar um território. Uma é pelo colapso visível. Outra é pelo desperdício silencioso de suas vocações. O Rio já conheceu demais as duas.
Agora precisa fazer outra escolha.
É aí que entra a oportunidade histórica do Estado do Rio de Janeiro: virar, de verdade, Rio.
Não apenas vitrine, pose, paisagem ou espuma.
Rio de conteúdo.
Rio de direção.
Rio de projeto.
Rio que transforma beleza em economia.
Rio que transforma cultura em ativo.
Rio que transforma cinema em projeção.
Rio que transforma turismo em cadeia produtiva.
Rio que transforma imagem em investimento.
Rio que transforma serra e mar em plataforma estruturada de desenvolvimento.
Porque o melhor chope tem pouca espuma. E o melhor Rio também não pode ser só aparência.
Mas há um tipo de espuma ainda mais cara: a espuma financeira.
Ela aparece quando a aparência de solidez vale mais do que a estrutura. Quando o anúncio vale mais do que a engenharia. Quando a fotografia vale mais do que a governança. Quando a promessa de milagre tenta ocupar o lugar da prudência.
Espuma financeira é igual à espuma de chope: sobe rápido, enche os olhos de quem não quer enxergar, e quando desce não deixa lastro. Só deixa a conta.
E quem paga a conta paga duas vezes: primeiro no dinheiro perdido, depois na confiança destruída.
O mesmo vale para o Brasil.
O país também já viveu sua fase de espuma grossa. A fase em que parecia acreditar que governar era falar grosso, brigar com o mundo, fabricar inimigos e vender barulho como soberania. Parecia força. Era ruído. Parecia coragem. Era isolamento.
País sério não lidera no chilique.
Depois, o Brasil reaprendeu o básico: país grande precisa parecer adulto. Precisa dialogar, ocupar espaço, sentar à mesa e transformar presença em influência, influência em confiança e confiança em oportunidade.
Mas aqui mora outro risco: prestígio também pode virar espuma, se não for convertido em estrutura.
Ser assunto é pouco.
Ser moda passa.
O que importa é transformar atenção em investimento, reputação em governança e governança em resultado durável.
E é exatamente aí que Rio e Brasil se encontram.
O Rio pode continuar sendo espuma bem fotografada ou pode virar plataforma. Plataforma de turismo qualificado. Plataforma de audiovisual. Plataforma de hospitalidade. Plataforma de grandes eventos. Plataforma de energia. Plataforma de economia criativa. Plataforma que usa sua geografia rara como infraestrutura natural de valor global.
Repare na palavra: plataforma.
Não cenário.
Não culto.
Não bolha.
Plataforma.
Plataforma é ativo estruturado. É território capaz de receber, organizar e multiplicar riqueza.
Cinema, por exemplo, não é luxo. É economia. É emprego. É hotel ocupado, restaurante cheio, equipe circulando, imagem se expandindo. Uma cidade filmada com inteligência passa a existir duas vezes: na geografia e no imaginário. E quem entra no imaginário entra também na rota do turismo, do investimento e do desejo.
Turismo também não é selfie de cartão-postal. Turismo é cadeia produtiva. Puxa hotelaria, gastronomia, comércio, transporte, cultura, eventos e qualificação. Turismo de qualidade não cresce em território desorganizado. Cresce onde há direção.
Cultura não é adereço. É ativo.
Imagem não é vaidade. É vantagem.
Criatividade pública não é firula. É capacidade de transformar vocação em receita.
É por isso que governar é organizar fluxos reais.
Quem usa o ativo?
Quem explora economicamente?
Quem recebe a receita?
Quem assume o risco?
Como o dinheiro entra?
Como o dinheiro sai?
Qual é a governança?
Qual é a continuidade?
Quando essas perguntas são respondidas, o território sai da espuma e entra na densidade.
Quando não são, o governante pode até emocionar a plateia, mas não constrói futuro.
No fundo, a escolha política continua simples.
De um lado, o vendedor de espuma.
Do outro, o construtor de densidade.
O primeiro ama o espelho.
O segundo precisa gostar de obra.
O primeiro governa para a claque.
O segundo tenta organizar o território.
O primeiro enche o copo de bolhas.
O segundo põe chope.
A coluna Quem Paga a Conta? insiste nisso porque o Brasil insiste em esquecer a lição do balcão: copo bonito não basta. O que interessa é o que sustenta.
Rio e Brasil têm hoje uma chance rara. Trocar personagem por projeto. Trocar improviso por direção. Trocar espuma por conteúdo. Transformar reputação em governança, governança em confiança e confiança em investimento. E, no caso do Rio, transformar a dádiva da serra e do mar em vetor de desenvolvimento estruturado, e não em paisagem passiva.
Essa é a política que importa.
O resto é colarinho alto em copo vazio.
E, quando a espuma baixa, a verdade aparece no fundo do copo: quem paga a conta somos nós.
Professor Jorge Tardin
Curadoria de Engenharia Jurídica da Coalizão Veredicto do Capital
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