Compêndio de Absurdos Militares: Memórias de uma formação profissional tanto heroica quanto hilária

Por Walter Felix Cardoso Junior

Compêndio de Absurdos Militares: Memórias de uma formação profissional tanto heroica quanto hilária

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Prefácio – Marchando com os olhos entre abertos

Neste mini compêndio de memórias, não se encontrará a guerra como nos filmes, nem a glória como nos hinos. Encontrará, sim, a disciplina do vinco absoluto nas calças, o ritual da limpeza existencial com escova de dente, e o silêncio cerimonial diante de absurdos que, na época, pareciam naturais.

Hoje, lembrados com um sorriso e um leve susto. Mais que crítica, este texto é uma homenagem aos que marcharam sem saber bem o porquê, comeram sobremesa antes do arroz com feijão, e acordaram às 03h da manhã apenas para lembrar que ainda dava tempo de dormitar mais um pouco até o fim da madrugada.

Bem-vindo à infantaria da memória.

Capítulo 1 – O rito do cuspe certeiro e a lenda do Capitão Esteves

(Quando o bife era consagrado e o fantasma, fardado)

Olha só o que eu puxei da memória antes das demais lembranças exóticas. Na mesa de oito do rancho de um quartel transformador de adolescentes ansiosos, onde a hierarquia às vezes podia ser definida mais pela audácia do que pela patente, havia um vivente antigão de costume pouco refinado, mas eficaz: logo que encostava a barriga na mesa, se dobrava e esmerava-se na pontaria para cuspir e acertar no bife mais vistoso da bandeja. Isso era a reivindicação incontestável de sua propriedade sagrada.

O gesto podia ser protagonizado pelos veteranos da casa, claro, e tão naturalizado que nem provocava rechaço imediato na garotada — apenas um aceno coletivo de derrota e resignação. Esse bife, uma vez batizado, tornava-se intocável. Era como um pacto de cavaleiros grotescos: cuspir era selar o direito, e desafiar o cuspe, uma afronta à ordem invisível do rancho.

Mas o rancho não era o único lugar onde as leis não escritas imperavam. Na guarda, em local ermo no fundo do quartel, durante o temido terceiro horário (das 2h às 4h da madrugada), circulava a estória de um oficial que saudava a sentinela fazendo continência com a cabeça debaixo do braço. Era o mito do Capitão Esteves.

Nunca o vimos, mas todos temiam sua ronda espectral. E a simples menção do seu nome já bastava para gelar a espinha dos mais novos. Dizia-se que quem dormisse no posto poderia ser surpreendido por ele — e que, ao acordar, veria o quepe dele pairando no ar antes de desmaiar de susto. Se era verdade, nunca saberemos. Mas na dúvida, ninguém cochilava.

Entre bifes consagrados e fantasmas em continência, a vida na caserna oscilava entre o grotesco e o lendário. E nós, entre uma garfada e um turno de guarda, aprendíamos que o absurdo também tem disciplina.

Capítulo 2 – A batalha das bochechas e o campeonato das moedas saltitantes

(Quando a puberdade era suspeita e a cama, um trampolim militar)

Em certas manhãs, na formatura interna, surgia ele: o oficial ideal, armado com um chumaço de algodão e uma missão silenciosa — detectar qualquer fiapo de barba em rostos que mal haviam aprendido a espanar a puberdade. O detalhe é que a maioria dos meninos era imberbe por natureza e por calendário. Mas isso não impedia o rigor da inspeção. Bastava um fiapo invisível, uma sombra mal interpretada ou um poro mal-humorado para render sermão, castigo ou, pior, a fama duradoura de “desleixado da semana”.

O algodão era mais temido que a inspeção de armamento. Havia quem se barbeasse duas vezes antes das seis da manhã — por precaução e desespero. Outros, mais criativos, ponderavam tentando convencer o fiscal de que aquela penumbra no rosto era da iluminação, não do rosto. Era uma guerra silenciosa, inopinada e injusta — travada entre o orgulho juvenil e o zelo institucional. E, quase sempre, o algodão vencia.

Vencia também o padrão da perfeição nos aposentos coletivos. No universo do alojamento, a cama era mais que um lugar de descanso: era palco de competição, um estandarte de honra. As mantas verdes que cobriam as alvíssimas colchas segundo determinado modelo tinham que estar tão esticadas que, ao se lançar uma moeda sobre a cama, ela deveria quicar. E não bastava quicar: havia um padrão mínimo de salto, avaliado com olhos atentos e critérios quase científicos.

Criou-se, informalmente, o Campeonato Interno de Elasticidade de Colchas, em que o lançamento da moeda era acompanhado por torcida silenciosa, olhares críticos e análises técnicas dignas de ginástica olímpica. O vencedor ganhava o direito de sorrir com orgulho. Os demais, condenados à rearrumação do leito — e de seu amor-próprio amassado.

Entre bochechas e colchas, a estética militar era uma ode à obsessão. Ali, o rosto devia ser liso como a cama, e a cama, firme como a disciplina.

Capítulo 3 – O despertar estratégico e a mística da Coca-Cola

(A insônia como glória e a justiça líquida como doutrina)

Havia algo de poético (ou patológico) no prazer de acordar às 03h da manhã apenas para constatar, com deleite, que ainda restavam três horas de sono. Era um ritual não escrito, mas amplamente praticado entre os internos mais calejados. Esse despertar antecipado trazia uma sensação de multiplicar o tempo: uma revanche íntima contra o cronograma opressor. A insônia era transformada em resistência, o desconforto em glória pessoal.

Alguns chegavam a programar o cérebro para esse despertar místico, apenas para saborear o retorno triunfal à cama diariamente esticada com precisão milimétrica no início de cada manhã. Era um luxo em meio ao rigor: sentir que o relógio ainda estava a seu favor — mesmo que por pouco tempo. Alguns de nós, depois dos setenta e tantos anos calejados, vez por outra ainda acorda nessa hora mítica.

E, se o despertar era um campo de batalha psicológica, o adormecer novamente encontrava seu bálsamo nos corredores gelados entre os banheiros dos alojamentos, onde repousava um freezer horizontal — um relicário refrigerado de pequenas indulgências. Ali dentro, protegidas por uma fina camada de gelo e esperança, jaziam garrafinhas de Coca-Cola e outras guloseimas avulsas, preciosidades reservadas àqueles que se mantinham acordados até mais tarde e buscavam algum alívio fora da rotina imposta.

O sistema era simples: uma prancheta registrava os consumos, e cada um anotava seu débito, a ser quitado no fim do mês. Um exercício de confiança, honra e autocontrole. Mas a mística era outra. Aos poucos, em tom de brincadeira, tornou-se comum que os sedentos do “veneno de Atlanta” registrassem seus consumos em nomes alheios. Um levantar silencioso da tampa da geladeira, uma anotação indevida. Um refrigerante, uma transferência sigilosa de responsabilidade fiscal.

Curiosamente, ao final do mês, as contas batiam. A matemática era mágica — ou cármica. Cada um, no fundo, pagava exatamente o que havia consumido, mesmo passando o mês inteiro bebendo às custas dos outros. Era como se um espírito invisível da justiça líquida pairasse sobre a geladeira, corrigindo desvios e restaurando o equilíbrio econômico. Ou talvez, naquela convivência forçada e intensiva, ninguém conseguisse enganar a verdade por muito tempo.

Capítulo 4 – Sapo, o Cavalo lateralmente letal

Nos treinamentos de equitação, havia uma estrela involuntária — um cavalo cego de um olho, chamado Sapo. Seu nome era estranho, sua reputação, temida.

Antes de cavalgar, cabia ao cavaleiro entrar na baia com todos os apetrechos: sela, freio, estribo, coragem. A missão era encilhar o animal.

Mas Sapo, esperto como poucos, utilizava sua "condição especial" para impor respeito e reafirmar domínio sobre os jovens cavaleiros. Ao perceber a aproximação pela lateral certa, esquerda segundo a tradição, mas cega, Sapo executava seu movimento clássico: espremia fortemente o intruso contra a parede da baia com precisão matemática.

Não era raiva — era pedagogia. Cada aluno que ousava aproximar-se pela zona cega aprendia, pela dor e pelo susto, que deficiência não é sinônimo de passividade. E Sapo, o cavalo parcialmente cego, passou a ser visto com reverência. Era mestre em impor limites — com o corpo inteiro.

Capítulo 5 – A sabedoria de vestir-se voando

O treinamento físico militar terminava colado ao almoço — e o tempo para se arrumar e entrar em forma era quase simbólico. Havia uma lógica secreta, passada de geração em geração, como um código de sobrevivência: primeiro meias e calçados; depois cueca e calças. O resto — camisa, cinto, pensamento — se colocava no caminho.

A operação era rápida, quase coreografada. Os rapazes corriam pelos corredores ainda suando, descendo escadas saltando degraus com equilíbrio de trapezista e vestindo-se em movimento, como quem troca o pneu com o carro andando. Alguns dominavam a arte e ganhavam minutos de descanso.

Outros, mais desastrados, tropeçavam nos próprios cadarços e terminavam a semana cumprindo castigo. Mas todos, sem exceção, aprendiam. Porque na caserna, até a pressa tem doutrina. E vestir-se bem… era uma questão de sobrevivência horária.

Capítulo 6 – A temperatura oficial

No quartel, não bastava a temperatura estar baixa: o frio tinha que constar do boletim interno (BI), documento que era lido solenemente ao final de cada tarde. Caso contrário, era proibido sentir isso. Quem com frio estivesse, sem autorização expressa do comandante, estava em falta com a disciplina.

Sem esse despacho formal, não adiantava tremer, bater queixo ou ter as orelhas roxas: ainda estava oficialmente calor, verão. Nada de japona (agasalho verde padronizado). A ordem era resistir com ceroulas clandestinas, mijões camuflados por baixo da farda, jornal velho transformado em palmilha e um repertório de tremores discretos — tudo fora do regulamento, claro.

Na lógica castrense, a temperatura ambiente não era um fenômeno meteorológico, mas um ato administrativo. Só depois do despacho do comando é que o termômetro ganhava validade. Antes disso, o frio era boato, moleza ou subversão térmica.

Capítulo 7 – O enigma do “cabral”

Chamava-se cabral o compêndio sagrado dos macetes, das questões recicladas, das fórmulas de ouro e da sabedoria anterior aplicada às avaliações militares do presente. Era mais que um caderno: era um mapa da mina acadêmica, transmitido silenciosamente de geração em geração como herança tática da sobrevivência intelectual.

Diziam que tudo começou com um visionário homônimo, talvez um rapaz reprovado em espírito, mas genial em estratégia, que no passado longínquo compilou tudo o que realmente importava para passar nas provas — e só isso. Parece que não estava preocupado com a prática do dia a dia, mas só com o resultado nas provas.

Provavelmente sem qualquer parentesco com o pseudo descobridor do Brasil, esse Cabral alternativo era visto como o verdadeiro patrono da sabedoria clandestina, mas legal. Se o Estado cobrava repetição, o Cabral oferecia repeteco. Se os professores exigiam decoreba, ele fornecia a partitura.

Cabral não era fraude — era adaptação darwinista ao sistema. Estudar com ele era pecado só se houvesse propaganda. Não era para todos, pois a classificação final dos cursos definia a antiguidade funcional. E havia muita competição por causa disso. Não era só passar de ano. E, no fundo, todos sabiam: não era trapaça, era inteligência aplicada com senso de oportunidade e sigilo.

Capítulo 8 – O código estético dos fardados

Entre os muitos pecados não escritos da caserna, dois se destacavam com rigor quase litúrgico: chupar picolé e usar guarda-chuva — estando fardado. O primeiro era visto como um atentado à compostura viril. O segundo, um ultraje à honra estoica do soldado, que deveria ser superior até à meteorologia. Sentir calor? Que fraqueza. Proteger-se da chuva? Que ofensa.

A farda não apenas vestia — ela blindava. A estética da virilidade exigia sacrifício. Não havia espaço para gestos que evocassem doçura ou autoproteção. A postura era de resistência, mesmo que o sol rachasse o crânio ou a tempestade ensopasse a alma. Quem ousasse desafiar esse código — mesmo com um inocente picolé ou o singelo guarda-chuva — arriscava algo pior que a repreensão: ganhar um apelido eterno.?E na caserna, apelido não era só brincadeira. Era identidade oficial não reconhecida em boletim.

Capítulo 9 – Tampões de ouvido: só para os fracos

O estampido dos tiros — de pistolas, fuzis, obuseiros ou canhões — era sempre ensurdecedor. O zumbido que ficava nas cabeças depois era uma espécie de trilha sonora da caserna, uma sinfonia involuntária que podia durar horas. Mas o uso de abafadores, tampões ou mesmo bolinhas de algodão era malvisto.?“Fraqueza”, diziam os mais duros.

Na mística da superioridade marcial, o ouvido tinha que ser de aço.?Sentir dor era treinamento. Reclamar, rendição. E assim seguimos — a maioria calada, outros zumbindo como se tivessem uma abelha nas ventas, mas todos aceitando. Hoje, passadas décadas, os efeitos são palpáveis: perda auditiva, zumbido crônico, consultas frustradas com otorrinos, e busca por aparelhos auditivos. Mas à época, a ordem era clara: ou se fazia o ouvido de ferro... ou se virava motivo de piada.

Capítulo 10 – Saltos, guelras e diagnósticos tardios

(Quando o joelho pagava e a dignidade tossia)

Saltitar de cócoras segurando o fuzil à frente com os braços esticados — o infame pulinho de galo “armado” — ou erguer-se do chão de um salto só esticando-se com mãos na nuca — o cruel canguru — era rotina nos treinamentos físicos da caserna. Repetíamos isso às dezenas, às vezes centenas. A juventude se cansava muito, mas executava os exercícios sem reclamar (apenas murmurando como protesto legítimo em volume institucionalmente ignorável).

Entretanto, os joelhos e os tornozelos... ah, as grandes vítimas. Essas articulações silenciosas só vieram apresentar a dolorosa conta décadas depois, em forma de artroses, meniscos inflamados, cartilagens ausentes, tudo só remediado com cirurgias, fisioterapias sistemáticas e próteses caras que hoje apitam em detectores de metal nos aeroportos.

Mas o tormento das pernas começava bem antes. Antes mesmo da farda, havia a inspeção médica para incorporação. Um ritual de aceitação com toques de tortura moral. Para muitos, o ponto alto (ou baixo) era a fila dos peladões, aguardando a temida “vista de guelra”: de costas, dobrar o tronco até a horizontal, sem vergar os joelhos, e tossir — tudo sob o olhar impassível de profissionais da saúde treinados para não rir (ou rir depois).

Se o candidato tossia fraco, tinha repeteco. E a humilhação ganhava replay técnico. A dignidade, ali, precisava ser vestida com paciência e bom humor. Era o primeiro teste real para a caserna: entrar sem reclamar, tossir sem orgulho, e pular com obediência — mesmo que os efeitos colaterais só fossem plenamente compreendidos trinta, quarenta anos mais tarde, quando o ortopedista sorria com compaixão e dizia: "o senhor serviu ao Exército? Ah, então já sei..."

Capítulo 11 – As pequenas heresias e os grandes castigos

(Porque no quartel, um chiclete, um passo ou um broche podem custar a alma)

Alguns espaços na caserna não eram apenas físicos — eram simbólicos.
O pátio central, por exemplo, era um verdadeiro solo sagrado. De dia, só podia ser atravessado em formação, sob o rigor do passo certo e do olhar dos superiores. Fora disso, era como pisar no altar com chinelo. Heresia pura.

À noite, porém, esse mesmo pátio ganhava outra função: campo de prova para tarefas “avaliativas”. Numa dessas, quando novato tive de atravessá-lo medindo sua extensão com palitos de fósforo — um por um. Perdi a conta antes da metade. Outros juravam ter chegado a mais de 30 mil. O mistério permanece... assim como o trauma lombar.

Mas não era só onde se andava. Era também o que se mastigava. Mascar chiclete, durante qualquer atividade profissional ou formatura, era considerado um atentado à honra da farda. Para alguns superiores, era sinal de insolência, de desdém, de degradação moral. Bastava ser flagrado com o maxilar em movimento e o fim de semana podia virar miragem. Havia até quem engolisse o chiclete ao avistar o superior — e quem colecionasse advertências por reincidência mandibular.

E se o pátio era sagrado, e o chiclete profano, os “castelinhos” da gola eram quase relíquias. Pequenos broches metálicos que simbolizavam o próprio quartel (organização militar) — carregavam a honra do militar que servia ali. E foi por isso que a frase “Piruei os castelinhos” ganhou fama. Dita em tom meio cínico, meio solidário, era uma espécie de testamento em tempo real:

— "Piruei os castelinhos!" — diziam os colegas do soldado prestes a ser punido ou expulso.

Era como entregar a própria dignidade ao companheiro mais próximo, na esperança de que ao menos os broches fossem herdados com respeito. Esses ritos menores — atravessar um chão proibido, mascar um chiclete, perder a joia da gola — diziam muito mais do que pareciam. Eram códigos de conduta e controle, onde o exagero cumpria a função de manter a tropa alinhada pela tensão constante.

E assim se vivia: entre o riso contido e o medo cerimonial.

Porque no quartel, até a saliva pode ser subversiva.

Capítulo 12 – Dormir já pronto e os mistérios da manutenção no escuro

(Porque na caserna, o descanso é apenas uma pausa estratégica na tensão)

Na lógica militar, o tempo não é apenas dinheiro — é salvação do castigo. Por isso, a preocupação com os segundos era obsessiva. Alguns recrutas chegavam ao ponto de dormir semi envelopados em fardamento, com a calça já vestida, o cinto no lugar e a camiseta dobrada de um jeito que pudesse ser vestida numa única puxada.

Havia quem fosse além: fazer a barba antes de dormir, já prevendo que, se o tempo apertasse pela manhã, pelo menos o rosto estaria liso e imune a advertências.

Era o “sono tático”, aquele em que o corpo descansa, mas a mente permanece de prontidão. Essa mesma lógica regia o treinamento de desmontagem e a remontagem de armamentos. Fazer essas operações contra o relógio já era o normal esperado. Agora, exercitá-lo de olhos vendados, era uma demonstração de destreza e controle total.

Os olhos vendados davam o tom cerimonial da prova: você não podia ver, mas tinha que saber.

O cronômetro marcava o ritmo. As peças deviam ser reconhecidas pelo tato, como se fossem extensões da própria mão. Cada segundo economizado era uma vitória. Cada falha, uma possível reprimenda. Hoje, talvez, um soldado europeu acionasse o seu sindicato por algo assim.

Mas ali, aquilo era mais que treino — era símbolo. A guerra imaginária contra a perda de tempo era tão importante quanto a guerra real contra o inimigo. Porque no quartel, dormir já era se preparar. E montar coisas no escuro… era enxergar com o instinto treinado.

Capítulo 13 – Honras, noivas e churrascarias falindo

(Porque no quartel, fama e fome andam lado a lado — e às vezes tropeçam)

Em cada tropa há sempre um: o garanhão falante, aquele que narra suas aventuras noturnas com riqueza de detalhes e um vocabulário mais dramático do que um romance de banca. Era o caso de um certo colega nosso, que costumava entrar no alojamento como quem entra num cabaré vitorioso, relatando suas façanhas sem pudor nem pausa.

Até que um dia, com uma postura inesperadamente firme, ele entrou, olhou a todos com seriedade e declarou:

— Senhores, a partir de hoje, não admito mais brincadeiras. Estou noivo dela.

Silêncio sepulcral.

A tropa, que até então gargalhava com os relatos, congelou. E dali em diante, por mais que se tentasse conter… a fama da moça foi solenemente preservada. Mas não foi.
A caserna tem memória longa e língua afiada. E o noivado virou lenda.

Outro episódio digno de câmara lenta e fundo épico era a operação churrascaria de rodízio. Era caro. O soldo era curto. Mas a missão era simbólica: “quebrar a banca”.

Planejávamos como um comando em marcha:

— Jejum voluntário desde o café da manhã.

— Chegada em bloco ao restaurante, ao meio-dia em ponto.

— Roupas civis discretas, mas elásticas e resistentes.

O rodízio virava um campo de batalha. Os garçons suavam. As carnes rareavam. O gerente suava mais que o espeto. E o relógio andava devagar… até o sol começar a se pôr.

Pagávamos, sim. Mas o estrago estava feito. O gerente, lívido, revia os estoques do dia como quem contabiliza perdas de guerra. As churrasqueiras esfriavam em silêncio.

E nós saíamos — barrigas gloriosas, bolsos vazios, almas em paz. Entre o amor envergonhado e a fome coletiva, a caserna seguia sua saga. Porque o soldado pode não ter muito, mas quando tem história ou apetite, nada o detém.

Capítulo 14 – O zoo zombado e os ritos do riso cruel

(Onde apelidos grudam como tatuagem e o escárnio, às vezes, beira o julgamento eterno)

Na caserna, ninguém escapava do batismo informal: o apelido. Era uma espécie de rito de iniciação, um nome alternativo — nem sempre carinhoso — que substituía o nome de batismo e, por vezes, até o de guerra.

Havia os clássicos da fauna: Cachorro, Macaco, Cavalo, Jacaré, Bambi, Catarro. Outros vinham de objetos inusitados ou de algum deslize que, uma vez cometido, jamais seria esquecido: Guimba, Parafuso, Tripé, Trinca-ferro, Bunda. Quem escapava? Apenas os invisíveis — aqueles que não chamavam atenção nem para o bem nem para o mal.

Os oficiais também ganhavam os seus, mas com bem mais ironia. Os apelidos, nesses casos, circulavam sussurrados, como relíquias orais de resistência simbólica. Havia o “Jiboiazinha”, o “Peninha”, o “Limãozinho”, o “Oncinha”, o “Farelo”, quase tudo no diminutivo. A criatividade era proporcional ao medo.

Mas nem tudo era brincadeira. Às vezes, a zombaria virava crueldade — como quando, certa feita, insinuaram que um temido tenente encontrara sua esposa, de tão feiosa (segundo os padrões internos da época), durante uma patrulha no mato. Era uma piada repetida em cochichos, com cara de zombaria viral.

Hoje, com a sensibilidade de outros tempos, a gente vê o quanto essa cultura do escárnio envernizado de riso escondia julgamentos profundos. Afinal, agora não existem esposas feias — só maridos malcriados. Mas, à época, o silêncio dos subordinados dizia muito: ninguém ousava rir alto, mas todos tinham ouvido. Na lógica militar da convivência forçada, os apelidos colavam na pele como tatuagens involuntárias. Alguns duravam só até o fim do curso. Outros, até hoje.

Capítulo 15 – Cortes que humilhavam, cartas que curavam

(Porque na caserna, vaidade e saudade andam lado a lado – só que em sentidos opostos)

A barbearia da tropa era um templo da humilhação estética. Em tese, bastava colocar uma cuia imaginária sobre a cabeça e passar a máquina zero ao redor, que ficava como o diabo gosta. Mas havia um célebre barbeiro — conhecido e temido — que levava o ofício a outro patamar: o "cara de cavalo", um esteta da navalha, artista do corte em estilo “esquartejamento”.

Cada movimento seu era um ultraje à vaidade juvenil. Entrava-se moço. Saía-se mártir.
Os cortes vinham em ângulos vertiginosos e desafiavam a simetria universal. Dizia-se que nem o próprio espelho queria refletir o resultado. E o mais espantoso: os Tenentes ainda elogiavam — chamavam de "corte militar padrão prussiano".

Enquanto a máquina ceifava cabelos com crueldade poética, havia outro lugar na caserna onde o silêncio imperava: a agência dos Correios. Antes da internet, e quando as ligações telefônicas eram luxo ou lenda, o correio era sagrado. Ninguém ainda nem sonhava com o advento dos celulares. Um elo vivo com o mundo de verdade — onde moravam os pais, os amores e as saudades. Ninguém zombava de quem esperava uma carta. Ali, cada envelope carregava mais que palavras: trazia cheiro de casa, da namorada, beijos imaginados, notícias do mundo de fora.

Era comum ver os mais sensíveis discretamente chorando pelos cantos, carta na mão e coração no aperto. Alguns sequer tinham permissão para sair nos fins de semana. A carta, para esses, era mais que consolo: era respiro de existência. Assim era a caserna:
— de um lado, a risada cruel da careca malfeita.
— de outro, o silêncio reverente da carta lida com os olhos úmidos.

E talvez por isso, quem sobrevive àquilo tudo sem endurecer por dentro, merece uma verdadeira condecoração.

Capítulo 16 – Valsas oficiais, perfumes oficiosos

(Entre bailes de gala e encontros de caserna, o amor marchava em todas as direções)

Entre tantas missões delegadas à rapaziada, havia uma que causava alvoroço e excitação coletiva: representar o quartel nos bailes de debutantes. Tratava-se de um ritual diplomático-social. A farda era passada com zelo, os sapatos reluziam como espelho, e o velho ônibus verde levava os escolhidos até cidadezinhas próximas, onde esperavam jovens dos seus 15 anos à beira do sonho, famílias sorridentes e valsa com direito a mestre de cerimônia ator de novela de televisão.

Para os militares, a missão rendia valsas, sorrisos, futuros namoros… e, às vezes, uma sogra ciumenta anos depois. Era a diplomacia sentimental em ação. O Exército dançava — e, ao dançar, conquistava corações, fatias de bolo e docinhos de aniversário.

Mas nem todo romance era de salão. Do lado de fora da oficialidade, havia um fenômeno paralelo: as chamadas VOs — Verde-Oliva, garotas mais humildes que orbitavam o universo militar fascinadas pelo charme da farda, pela rigidez do corte de cabelo e pela aura de "heróis fardados".

Entre elas, uma ficou célebre sem que a maioria dos pares jamais soubesse seu nome real. Era reconhecida pelo perfume doce e penetrante — Vaness, desodorante da moda. A flagrância era a sua marca registrada e também sua armadilha. Os encontros com ela eram discretos… mas o perfume denunciava tudo. Bastava um soldado voltar exalando aquele cheirinho, e o alojamento inteiro já sabia.

O aroma ficou tão associado a suas escapada democráticas que passou a ser evitado por todos — como se carregasse o peso de um segredo coletivo. Um frasquinho plástico de Vaness, largado em algum canto, podia gerar desconfiança ou nostalgia imediata.

Era assim que a tropa criava seus próprios códigos e mitologias.

Entre o romantismo da valsa e o instinto da caserna, havia todo um mundo de histórias não registradas. Mas todas perfumadas — algumas com Vaness, outras com Lembranças.

Capítulo 17 – Nadar ou afundar: as provações aquáticas da caserna

(Entre o pânico, a superação e a plataforma dos bravos)

A água, elemento tão poético para alguns, era vista na caserna como um campo de batalha. Para quem tinha trauma, boiava como um pedaço de pau ou simplesmente entrava em pânico com duas gotas nos olhos, o apelido vinha rápido: “NNN” — Nunca Nadou Nem Nadará.

Esses valentes — ou infelizes — passavam semanas sendo forçados a aprender a nadar. E se não aprendiam, inventavam o que ficou conhecido como “nado cagalhão”: uma boiada desesperada, braços ao lado do corpo agitando sem direção, e fé em Deus. No fim, anos depois, quase todos saíam diplomados como “sobreviventes aquáticos”, mesmo que flutuassem mais por milagre do que por técnica.

Mas a água também era cenário de heroísmo — ou de tortura psicológica disfarçada de rito de passagem. Na extremidade do conjunto aquático, havia a famigerada plataforma das nuvens: 10 metros de altura, concreto gasto, escadas enferrujadas, e cheiro de medo. De lá, saltavam os iniciados para a piscina mais profunda como grandes pregos retos também chamados de “Jesus” — primeiro caindo primeiro com os pés, depois, os mais ousados, de a cabeça.

Era um dos grandes desafios, um dos supremos. A pressão da assistência era imensa. O silêncio na borda da plataforma, sepulcral. Todos que estavam nas piscinas ficavam olhando o corajoso. Uns pulavam no impulso, outros precisavam de incentivo... verbal, ou físico, mas tinha alguns que arregavam vencidos pelo sopro dos ventos e desciam de volta pelas escadas.

No entanto, quem superava a plataforma ganhava respeito. Não apenas pela coragem, mas pela transformação silenciosa que só quem encara o próprio medo de frente compreende.

Hoje, talvez, a plataforma esteja interditada — ordem do Ministério Público, ou da insensatez dos cultores da segurança a qualquer custo. Mas o eco dos corpos entrando no líquido gelado ainda vive nas memórias. Porque ali, mais do que água, se mergulhava na própria vulnerabilidade.

Capítulo 18 – Banheiros de guerra e campeonatos do sabonete voador

(Onde não havia porta, mas sobrava criatividade — e espírito esportivo)

Banheiro de tropa era uma selva à parte. Um campo minado de sons, cheiros e silêncios cúmplices. As cabines — quando existiam — não tinham portas. E a privacidade era um conceito que só aparecia nos manuais de direitos humanos, jamais no cotidiano do quartel.

Havia códigos de sobrevivência invisíveis: bater na parede lateral para marcar território, nunca olhar diretamente para o colega na posição “aviãozinho” sobre as latrinas de chão, e jamais, sob hipótese alguma, soltar um comentário jocoso enquanto alguém fazia força em silêncio.

Mas os veteranos, mesmo nesse ambiente hostil, davam um jeito de se divertir. E foi ali que nasceu o lendário CUBOL — o esporte predileto dos banheiros grandes.

A quadra? O piso escorregadio da linha de chuveiros. As traves? Duas sandálias havaianas. A bola? Um sabonete novinho. Os jogadores? Novatos pelados e molhados, deslizando de joelhos e fundilhos como se a honra estivesse em jogo.

A regra era simples: marcar gols e não deixar o sabonete escapar do controle — literalmente. Havia gritos abafados, aplausos discretos e um espírito competitivo digno de Copa do Mundo… em versão aquática e frontalmente nua.

Claro que tudo isso era feito longe dos olhos dos superiores. Um barulho fora de hora, e o jogo era encerrado pela chegada de algum oficial mal-humorado — geralmente armado com cara feia e um pito pronto.

Ali, entre o constrangimento e o riso, aprendia-se que o improviso era uma arma legítima da juventude. Porque, quando não se tem porta no banheiro... a criatividade vira tranca.

Ah, e havia ainda uma lenda perene nos chuveiros coletivos:
nunca, jamais, deixe cair o sabonete no chão. Porque para abaixar e pegá-lo, era preciso mais coragem do que para rastejar em cascalho.

Capítulo 19 – A teologia do brilho: coturnos, fivelas e o santo Kaol

(Porque na caserna, reluzir era quase rezar)

A aparência do soldado era coisa séria. Muito séria. Coturnos, fivelas, botões, tudo tinha que brilhar como se o próprio General viesse inspecionar com uma lupa de joalheiro e espírito de inquisidor.

O coturno, por exemplo, não podia apenas estar limpo. Tinha que ofuscar a visão do observador. Para isso, os rapazes desenvolviam técnicas avançadas de polimento: graxa importada, cera de vela, cuspe emocional, casca de banana, ferro de passar roupa, cocô de galinha desidratado e, para o polimento final, um pedaço de meia-calça alheia. Era alquimia pura. Alguns diziam que um coturno bem lustrado já fez oficial se engasgar de emoção.

Mas havia um outro artefato de culto, igualmente venerado: a fivela dourada.
Seu brilho deveria ser suficiente para sinalizar aviões ou refletir o nascer do sol em dias nublados. O segredo? Kaol, o limpador de metais mais devocional da história militar.

O frasco de Kaol era objeto de fé: seu cheiro adocicado impregnava o ar dos alojamentos e servia de batismo para os mais novatos. Aplicava-se com flanela, algodão ou até cotonete. Alguns passavam tantas camadas que a fivela ganhava relevo. O brilho era insano — e exigido. Aparecer com fivela fosca era tão grave quanto tropeçar na bandeira nacional.

O curioso é que todo esse esforço estético contrastava com o uso real do uniforme.
Durante os treinamentos pesados, a farda era jogada na lama, esfolada no cascalho, coberta de suor, poeira e lágrimas. Mas o culto ao brilho permanecia. Era uma espécie de liturgia militar estética, onde o soldado expressava disciplina por meio do reflexo metálico.

No fim, tanto o coturno quanto a fivela deixavam de ser simples partes do vestuário.
Tornavam-se símbolos. Relíquias de combate visual. Sacramentos do zelo institucional. Totens do orgulho que, às vezes, brilham mais que a própria missão.

Capítulo 20 – O drama da farda: entre o pátio à poeira do cascalho

(Porque o uniforme era sagrado — até virar trapo de guerra)

Na caserna, a farda não era apenas vestuário: era identidade, respeito, régua de disciplina e até fator de sobrevivência social. Perder uma peça era como perder o próprio nome. Um gorro extraviado causava comoção coletiva. Surgiam teorias conspiratórias, buscas frenéticas e, em casos mais graves, falsificações artesanais com materiais civis.

Para não perder o fim de semana ou ser excluído da formatura, valia tudo: escambo de peças entre colegas, empréstimos secretos à noite, e até aquela clássica técnica de “camuflar” uma ausência com gestos ensaiados e olhar altivo. A farda era mais do que pano: era honra costurada com linha de medo.

Mas, paradoxalmente, essa farda tão zelada nos pátios cerimoniais era sacrificada sem piedade durante os treinamentos de rastejo em cascalho. Sob o sol inclemente, em meio à poeira e pedras cortantes, os soldados eram ordenados a se arrastar com o fuzil ao lado do corpo, como se deslizassem rumo ao próprio batismo de dor.

Ali não havia gorro, vinco ou alinhamento. Havia suor, sangue e remendos. Era por isso que muitos reservavam uma farda especial, conhecida como "farda de ralo" — já remendada, desbotada, sofrida. Uma espécie de uniforme reserva para a guerra contra o atrito, a aspereza e o sadismo instrucional.

Os cotovelos raspados, os joelhos em carne viva e os fundilhos esfolados viravam medalhas não condecoradas — mas sentidas a cada banho gelado. O orgulho, ainda assim, era mantido: porque a farda resistia, mesmo aos trancos.

Assim era a vida do uniforme: valorizado como relíquia no pátio, sacrificado como pele no terreno.

Capítulo 21 – A Coreografia do passo certo e a culinária do controle

(Porque quem marcha fora do compasso come fígado e saboreia salitre)

No mundo castrense, um pé fora da cadência era visto como heresia. Trocar o passo em plena marcha podia equivaler a um crime contra a pátria, contra o pelotão e, principalmente, contra o ego do comandante. Corrigia-se isso com castigo coletivo: muitas de voltas no pátio ao som do mantra imortal — “Esquerda, direita... esquerda!”

A pedagogia era clara: um erro individual punia o grupo inteiro.

A lição: marchar juntos, errar juntos, sofrer juntos. A consequência: aprender a obedecer sem pensar, apenas seguindo o compasso da massa.

Mas não era só nos desfiles que a encenação imperava. Havia também o teatro do rancho, onde a tropa era alimentada segundo o princípio universal da dúvida gastronômica. Os nomes dos pratos, criados pelo imaginário popular, mereciam registro histórico. Tínhamos o arroz “unidos enceremos”, que nunca se soltava. O ensopado “Lavoisier” — porque nada se cria, tudo se reaproveita. O peixe da sexta-feira “à la morte lenta”, cujo odor antecedia sua chegada. E o infame “Jesus está chamando” — um bife de fígado que causava arrepios em estômagos sensíveis.

Os sucos, muitos preparados com pó de pacotinhos, eram enigmáticos: laranja, goiaba, maracujá, mate queimado ou algum líquido de origem desconhecida. E as rosquinhas... desmoralizantes. Tão duras que muitos as guardavam como armas improvisadas.

À noite, era servida uma ceia com ritual próprio. Quem fosse até a boca do rancho era contemplado com o lendário “broxante” — uma caneca generosa de leite morno com outro pozinho branco misterioso, que chamávamos de salitre. A crença popular dizia que era para "acalmar os ânimos", ou melhor, “baixar o fogo interno” dos jovens guerreiros.

Claro, em dias de visita oficial, o fogão se transformava. O feijão vinha espesso, o arroz solto, a carne parecia de verdade e até sobremesa surgia. Era a versão culinária do passo certo: tudo no ritmo perfeito, servindo à estética da inspeção.

No dia seguinte, tudo voltava ao normal. E a rotina continuava: marchar em silêncio, comer sem perguntar, digerir sem pensar. Porque no quartel, tudo era encenação. A marcha era símbolo de ordem. A comida, símbolo de controle. A disciplina, muitas vezes, era digestiva.

Capítulo 22 – O evangelho do sabão azul e a patrulha da faxina

(Porque limpeza era virtude, e o sabão era sacramento)

Poucos itens militares foram tão versáteis, resilientes e simbólicos quanto o lendário sabão em pó azul, distribuído pelo Subtenente aos seus “peixes”. Ele lavava tudo: farda, cueca, coturno, caneca, marmita, banheiro, latrina, chão... e, nas horas mais difíceis, até a alma.

Era o Bombril da caserna — com mil e uma utilidades e um perfume duvidoso, que misturava limpeza com saudade. Aquilo sim era adaptabilidade em pó. Bastava uma colher do sabão azul e a tropa se tornava apta a enfrentar qualquer cenário — da guerra biológica no alojamento ao combate contra as manchas amarelas no mictório.

Mas o sabão azul não agia sozinho. Havia sua aliada moral: a patrulha da faxina. Mesmo com rotina apertada, havia o “dia do faxinão”, que não era dia... era ritual. Um desfile coreografado de vassouras, baldes, panos de chão e olhares de julgamento.

A operação limpeza era conduzida como manobra tática: a companhia em forma, o encarregado distribuindo funções com cara de general, e os panos marchando rumo ao inimigo invisível — a sujeira institucionalizada.

Quem limpava mal, era "reconvidado" a fazer melhor. E recebia orientações pedagógicas dos oficiais mais... amorosos. Geralmente os mesmos que sabiam exatamente onde a imundície havia sido deixada — e que tipo de punição melhor ensinava a removê-la. Sim, limpar era disciplina. Faxinar era honra. E o sabão azul, um hino em forma de pó.

Capítulo 23 - O culto às hierarquias invisíveis

Mesmo quando fora do horário e do uniforme, a hierarquia pairava no ar como entidade onipresente. Na fila da lanchonete ou no ônibus e no trem, a precedência era respeitada como mandamento divino. Um toque sutil no ombro seguido de um olhar de superioridade, e um grunhido de “vocês viraram o almanaque militar de cabeça pra baixo?” bastavam para que a fila se reorganizasse por antiguidade.

Mundo à parte, sem deixar de enfatizar que a hierarquia como fantasma constante é um conceito precioso, necessário.

Capítulo 24 – O Santuário da bagunça viril

(Entre as fotos da Playboy, o cheiro de mofo e os sagrados restos de munição.)

As partes internas das portas dos velhos armários de metal pareciam confessionários silenciosos da alma militar juvenil. Havia de tudo: fotos da namorada, bilhetes da mãe, recortes de revistas, mas principalmente, as onipresentes garotas da Playboy, coladas com fita adesiva como troféus estéticos da masculinidade da época.

Era um tempo em que expor sensualidade nas paredes internas do armário era tão comum quanto esconder comida vencida. Ainda assim, o cuidado com a censura era constante. A qualquer momento, podia haver uma revista inopinada de armários — e aí, nada escapava: nem a moça sorridente da página central, nem a batata chips guardada atrás do coturno, nem a lata de leite condensado com dois furos na tampa.

As garotas de papel eram então recolhidas com frieza, trituradas e jogadas no lixo, como se o esquadrão da moral e dos bons costumes precisasse reafirmar sua autoridade em celulose.

Mas os armários iam além da pornografia contrabandeada. Eram buracos negros da organização militar. Neles cabia tudo: vestimentas civis e militares, roupas sujas, cuecas inclassificáveis, alimentos ressecados ou fermentando, formigas, baratas e um indefectível cheirinho de armazém vencido.

Às vezes surgia até um velho estojo de munição de artilharia, já detonada, guardada como recordação ou para presentear alguém muito querido. Dizia-se sempre que era um “presente pra namorada”, com cara de mistério.

Era uma mistura de relicário, depósito e trincheira emocional. Um pequeno território onde o caos encontrava repouso — e onde a tropa podia, enfim, ser humana.

Capítulo 25 – Insetos e répteis territorialistas

Campo é campo. Formigas, aranhas, abelhas, lagartos, mutucas, cobras e pernilongos gigantes eram os legítimos donos daquelas paragens. Nós, apenas visitantes ocasionais — e malquistos. Mas nada se comparava ao terror supremo: os marimbondos que faziam morada nas latrinas de campanha. Ali, sim, era travada a verdadeira guerra.

Bastava um passo em falso, um barulho abrupto ou um jato inoportuno, e o enxame surgia do interior sombrio como uma força de reação especial da natureza. O ataque tipo enxame era fulminante. Até o mais valente dos rapazes largava tudo — inclusive as calças — e saía rebolando em ziguezague, tentando salvar a dignidade que ainda restava.

Alguns, no desespero, tropeçavam e... caíam onde ninguém quer cair. E o que antes era apenas medo virava trauma, com direito a silêncio constrangedor no caminhão da volta.

Capítulo 26 – A água do cantil e o culto às corridas

(Quando beber era roleta russa e correr um mandamento com sequelas)

Beber água no mato era sempre uma experiência sensorial completa. Ora quente como caldo de pedra esquecido ao sol, ora enriquecida com ingredientes surpresa — pequenas larvas, folhas, bolhas de sabão ou aquele sabor metálico que fazia pensar em resíduos radioativos.

Cada carga de cantil era uma roleta russa hídrica. E ainda assim, bebíamos, sôfregos. Porque o corpo pedia, e o protocolo mandava. Quem nunca saboreou essa “experiência líquida” improvisada, ainda não conheceu o verdadeiro gosto da caserna.

E para quem achava que o maior risco vinha do cantil, bastava dar uma olhada nos joelhos e tornozelos da tropa alguns anos depois.

Diz a lenda que um famoso médico militar norte-americano, o Dr. Kenneth Cooper — autor do best-seller Aerobics — veio ao Brasil para uma palestra dirigida a jovens militares entusiasmados com o treinamento físico. Ele defendia com paixão os exercícios aeróbicos, especialmente as longas corridas diárias. Foi ele quem idealizou o fatídico “teste de Cooper”.

Foi o bastante. Sua fala virou doutrina. Inspirados por seu entusiasmo e pelo carisma do jaleco estrangeiro, muitos passaram anos correndo como se não houvesse articulações. Cada metro percorrido era registrado em livretos pessoais, onde se anotavam os quilômetros de cada jornada, os batimentos cardíacos de esforço e de recuperação, com fervor quase religioso. Alguns afirmavam, sem modéstia, já ter dado hipotéticas voltas ao mundo.

A moda pegou. Havia quem corresse pela manhã, à tarde e, se deixassem, também sonhasse correndo. Mas, como todo dogma aplicado sem discernimento, os efeitos começaram a aparecer: dores nos joelhos, inflamações nos calcanhares e tendão de Aquiles, colapsos de menisco, hérnias de disco, e até alguns sustos cardíacos. Era esforço demais para corpos que não foram projetados como molas de titânio.

Anos depois, o próprio Dr. Cooper voltou ao Brasil. E — surpresa! — desdisse boa parte de sua antiga pregação. Esclareceu que o povo havia exagerado, que a ideia não era essa, que o ideal mesmo era caminhar com vigor, mas sem exageros.

Pena que o joelho da rapaziada já não voltava mais ao lugar. E nem a água voltava ao estado potável. Na caserna, entre goles duvidosos e corridas mal planejadas, o corpo continuava devotado à pátria... com sequelas incluídas no pacote.

Capítulo 27 – A liturgia da tesoura e o culto ao corte rente

(Porque disciplina também se mede em milímetros de cabelo)

Poucos objetos conseguiram gerar tanta aversão e constrangimento quanto o famigerado Cartão Capilar. Um pedaço de papelão impresso de poucas gramas, mas de peso simbólico colossal. Era o passaporte semanal para a moral.

O ritual era sagrado: toda semana, o militar deveria apresentar o cartão ao Tenente do pelotão, que o assinava com desdém, atestando se o corte de cabelo estava dentro dos padrões exigidos pela Força Terrestre. Nas demais Forças, diziam, havia mais flexibilidade. Aqui, não. Aqui, cabelo era doutrina.

A justificativa oficial para o procedimento era a higiene — prevenção contra piolhos e outras pragas. Mas a prática ignorava se o cabelo já era ralo, rebelde, inexistente ou artisticamente obediente. O que importava era a assinatura. Sem ela, sem moral. Sem moral, sem fim de semana.

Preso por um clipe à identidade militar, o cartão era mais temido que exame de saúde e mais fiscalizado que o fuzil na formatura. Havia quem esquecesse o corte... e falsificasse a rubrica. Mas bastava um rabisco duvidoso para que o céu desabasse: castigo, advertência e, claro, uma visita compulsória à barbearia institucional — conhecida, aliás, por transformar cabeças em obras geométricas de desconstrução capilar.

Não importava se o militar havia marchado sob sol escaldante, enfrentado missões noturnas ou dormido mal. Se o corte estivesse “alto”, o juízo vinha implacável. E o que era “alto”? Isso variava conforme o humor — e a lupa — do avaliador.

A cena repetia-se como um rito tribal: fileiras de recrutas sendo examinadas como gado em exposição, com olhares clínicos vasculhando costeletas e nucas.

Transformaram o cabelo — ou a ausência dele — num sacramento de obediência. A tesoura virou símbolo de pureza militar. Cabelo em excesso? Rebeldia ideológica.?Fios fora do padrão? Sinal de decadência moral.

E assim, entre cortes milimétricos e assinaturas compulsórias, o cartão de cabelo se consolidou como símbolo de um controle que começava pela cabeça — literalmente. Antes de moldar o pensamento, era preciso moldar a aparência.

Afinal, uma mente livre até pode pensar.?Mas jamais pode parecer desalinhada. Contudo, se o gajo quisesse manter a cabeça totalmente raspada, tinha que pedir permissão e gozar da boa vontade do seu comandante. Isso podia representar um sinal perigoso de rebeldia.

Capítulo 28 – A regra de ouro: rir é resistir

(O riso como escudo, antídoto e código de sobrevivência)

Aqui, uma reverência à memória e ao impacto duradouro da formação militar. Nem todos percebiam, à época, que muitos dos exageros cometidos nos instruíam, mas também humilhavam alguns. Havia uma pedagogia do espezinhar, disfarçada de formação. Coisas que se repetiam de geração para geração e que não estava escrita em lugar algum.

E, sem perceber, aprendíamos que a salvação estava no riso. Ríamos do absurdo, da dor, da punição injusta, do companheiro molhado de lama, do que se cagava ou da própria desgraça cotidiana. Ríamos sem motivo — ou porque só rindo era possível aguentar. O riso era a válvula de escape. Era também o elo invisível que unia aquele bando de adolescentes atrapalhados, sujos e feridos, transformando-os em uma irmandade de sobreviventes.

Rir não era fraqueza. Era estratégia. Era resistência.?A gente pode até ter saído do quartel, mas o quartel nunca saiu de dentro da gente.?Não importa onde a vida nos tenha levado — ao comando de empresas, às filas do INSS, ao sofá da aposentadoria ou ao batente das lutas em ambientes civis ou mesmo militares — uma parte de nós ainda responde ao toque da corneta, ainda dobra roupa com vinco, ainda lustra o sapato com zelo, ainda arruma diariamente a própria cama, e olha o relógio às 6h sem saber por quê.

Este compêndio é mais do que uma sátira.?É um relicário de absurdos que, somados, nos moldaram. E hoje, entre a risada e a saudade, talvez possamos admitir:?o Exército não nos ensinou apenas a marchar —?ensinou-nos a rir, mesmo quando doía.

Capítulo 29 – O relógio do alojamento – a presença simbólica

(A eternidade em minutos militares)

Tic-tac... tic-tac... a noite inteira. Na parede do fim do alojamento, reinava um grande relógio da marca DIMEP, e nem precisava ser iluminado como um farol de vigília, pois todos respeitavam a sua autoridade sonora. Seu ponteiro marcava as horas — e os destinos — com uma regularidade quase solene. Os de ouvidos mais sensíveis diziam que seu som metálico podia ser ouvido desde a escada dos banheiros, a uns 100 metros de distância. Não importava o cansaço ou a escuridão: o tic-tac estava sempre ali, marcando o tempo com disciplina marcial.

Era mais que um instrumento — era testemunha. Observava silenciosamente tudo que se passava no grande salão onde dormíamos: sonhos, pesadelos, tosses abafadas, risos proibidos, orações sussurradas, orquestra de roncos e flatulência mal controlada.

Ali, sob sua vigília, cabia tudo: saudade, medo, esperança e aquele frio da madrugada

Por Ultima Hora em 11/05/2025
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