Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Queridos leitores e leitoras, o Brasil assistiu, na última quinta-feira, a um daqueles momentos que parecem até obra de ficção: generais, coronéis e aliados de Jair Bolsonaro condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Não era série da Netflix, era a vida real. Após duas semanas de expectativa, veio a sentença definitiva contra o núcleo da tentativa de golpe. Pela primeira vez na história do país, civis e militares de alta patente são condenados criminalmente por conspirarem contra a democracia.
Em 1979, a anistia ampla, geral e irrestrita livrou torturadores, golpistas e cúmplices, ensinando a lição errada: atacar a democracia sempre terminava em perdão. Décadas depois, o bolsonarismo tentou a reprise — afronta às instituições, bravata autoritária e fantasmas de farda. Só esqueceram que o Brasil, mesmo cambaleando, já aprendera alguma coisa com os erros do passado.
A decisão do STF deixou claro que há diferença entre bucha de canhão e cérebro da operação. Quem apenas obedeceu pode receber penas mais leves; já quem mandou, financiou ou instigou sente agora o peso da Justiça. Acabou a farra do ‘só cumpri ordens’. O Senado discute uma proposta que segue essa lógica: punir exemplarmente líderes e instigadores, enquanto ameniza a punição dos obedientes de plantão.
O voto do ministro Luiz Fux foi uma verdadeira ginástica retórica. Condenou Mauro Cid, o delator, mas absolveu outros com base nos mesmos argumentos usados para condenar em casos anteriores. Questionou foro, questionou primeira turma, questionou tudo. Para uns, prudência; para outros, incoerência suspeita. Ficou a impressão de que Fux quis sussurrar: “golpe é grave, mas dá para ajeitar o processo e aliviar uns amigos”.
Enquanto isso, as ruas contaram outra história. A Paulista, vestida de verde e amarelo, mostrou que a ultradireita ainda respira — e respira fundo. Já os protestos contra a anistia no Congresso minguaram, sem fôlego para competir. O paradoxo é cristalino: golpistas condenados no tribunal, mas celebrados no asfalto. O contraste do último fim de semana passado não deixa dúvidas: manifestações pró-Bolsonaro lotaram ruas, enquanto a defesa da democracia, embora legítima, segue sem a mesma capacidade de arrastar multidões. Mesmo inelegível, Bolsonaro ainda move massas; já a bandeira democrática, embora nobre, continua com pouco apelo popular. Resultado: a ultradireita mantém músculo e, dependendo do candidato, pode sim balançar a reeleição de Lula.
Nunca antes na história deste país se viu democracia dar menos Ibope que a promessa de um golpe mal ensaiado.
Essa percepção se confirma nas pesquisas. O Datafolha desta semana mostra que a aprovação de Lula chegou a 33% (ótimo ou bom) — seu melhor índice no ano —, enquanto a reprovação (ruim ou péssimo) bateu 38% e outros 28% avaliam o governo como “regular”. Ou seja, mesmo diante de uma condenação histórica, a popularidade do presidente só respira, não decola. Emoção nas ruas nem sempre se converte em voto, e a defesa da democracia, por si só, não move eleitor. O Planalto ganhou algum fôlego, mas Lula continua a governar com metade do país desconfiado e um Congresso que mais parece balcão de negócios do que poder da República.
A eleição de 2026 se aproxima em outro patamar. A condenação dos golpistas é histórica, mas não comove tanto quanto o preço do arroz no supermercado. No Brasil, democracia é um valor nobre — mas só até a conta de luz chegar. Candidatos terão de exibir currículo democrático e propostas convincentes, mas, na prática, o eleitor quer saber se vai conseguir pagar o fiado da padaria. Para Lula, o desafio é reforçar credibilidade sem ficar preso ao sermão moral, enquanto enfrenta um Congresso que sonha com auto blindagem e polpudas emendas e uma ultradireita que nunca cansa de esticar a corda. Nesse caldo, sua reeleição está longe de ser garantida. Porque, convenhamos: se a economia patinar, abre-se espaço para o tal ‘outsider’ — essa figura messiânica que aparece a cada ciclo prometendo varrer a velha política, mas que geralmente só muda a vassoura.
Se essa condenação não tiver consequência, será apenas mais um capítulo decorativo. O Brasil não precisa de sentenças para embelezar livros de história; precisa de penas cumpridas, processos transparentes e vigilância pública para que os generais e seus discípulos não saiam pela porta dos fundos como heróis de ocasião.
O passado nos ensina: a anistia de 1979 transformou ‘virar a página’ em convite para golpistas. Hoje, com a sentença, a história é outra: golpe tem custo. Temos a chance de ensinar a lição correta: golpe dá cadeia. Mas será preciso mais do que toga e martelo — será preciso que a sociedade cobre, nas urnas e nas ruas, para que a democracia deixe de ser a eterna coadjuvante da política brasileira
Até a próxima — e que a democracia não vire figurante enquanto o circo dos golpistas segue lotando plateia.
Filinto Branco – colunista polític
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!