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Um contraponto necessário ao meu amigo Filinto
Faço aqui uma pausa pessoal,li recentemente um artigo seu,apaixonado, em defesa da guinada confrontadora do governo. Com sua inteligência provocadora e olhar afiado, argumenta que o momento exige firmeza, coragem e ruptura com padrões de subserviência externa.
Respeito profundamente sua leitura e reconheço o valor de seu alerta sobre o risco de acomodação diante das potências globais. Mas seguimos por trilhas distintas.
Enquanto o presidente Lula assume uma postura cada vez mais combativa no cenário político e internacional, é preciso perguntar: essa estratégia serve à soberania nacional — ou ao projeto de poder de um governo acuado pela realidade?
Nos últimos meses, o presidente Lula abandonou a conciliação e assumiu abertamente o confronto como método de governo. Vetou o aumento do número de parlamentares, reagiu com dureza ao chamado “PL da Devastação”, desafiou o Congresso com recursos ao STF e, mais recentemente, bateu de frente com Donald Trump após a imposição unilateral de tarifas sobre produtos brasileiros.
Aos olhos de seus apoiadores, Lula está apenas retomando seu papel histórico de sindicalista combativo, defensor do povo e adversário dos “poderosos”. Mas um olhar mais atento revela que o que se vende como soberania pode estar encobrindo uma estratégia de sobrevivência política, com potencial devastador para o Brasil — especialmente para a população que o presidente alega defender.
Populismo disfarçado de coragem
O embate com Trump pode render manchetes favoráveis nas redes e alimentar o discurso anti-imperialista que sempre mobilizou setores da esquerda latino-americana. Mas essa retórica tem consequências.
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Sanções, bloqueios tecnológicos ou represálias econômicas — como o bloqueio ao sinal de GPS, vital para setores como agricultura, aviação e segurança — não ferem políticos em Brasília. Ferem o pequeno agricultor, o trabalhador informal, o caminhoneiro, o desempregado.
Chamar isso de soberania é, no mínimo, desonesto.
A manipulação de uma população fragilizada
Lula sabe que parte significativa do eleitorado não acompanha os detalhes técnicos nem os impactos reais das decisões políticas. Isso permite que o governo alimente uma narrativa emocional, colocando o presidente como herói solitário que enfrenta uma tríade de vilões: Congresso, Bolsonaro e Trump.
Essa simplificação explora a vulnerabilidade de cidadãos com pouco acesso à informação crítica ou ferramentas cognitivas para interpretar o contexto. A estratégia não é informar, mas inflamar. Não é educar, mas instrumentalizar.
Os riscos de uma escalada irresponsável
Transformar o governo em um espetáculo de MMA político pode excitar os radicais, mas os riscos para o país são concretos.
Paralisação legislativa e chantagens cada vez mais onerosas.
Isolamento comercial e diplomático em um mundo que caminha para a multipolaridade;
• Desaceleração econômica, desemprego e queda na renda real;
• Perda de confiança institucional e desorganização do ambiente de negócios.
No fim das contas, quem paga essa conta não são os congressistas, nem os presidentes estrangeiros. É o povo brasileiro.
Acredito que o confronto, quando não sustentado por uma estratégia sólida e um plano de desenvolvimento real, pode ser apenas uma forma sofisticada de disfarçar a crise. É preciso mais que indignação: é preciso direção.
Não é provocando Donald Trump nem desafiando o Congresso que se conquista soberania. É investindo em ciência, reconstruindo pontes diplomáticas e garantindo estabilidade para que o Brasil se imponha pelo que constrói — e não pelo que grita.
O que o Brasil realmente precisa
A verdadeira soberania não se conquista com discursos inflamados, mas com investimentos em autonomia tecnológica, integração internacional inteligente e estabilidade institucional. O país precisa de resultados — não de retórica.
A narrativa de Lula como o gladiador do povo pode garantir aplausos no curto prazo. Mas se a economia tropeçar, se os serviços públicos entrarem em colapso e se o isolamento político se intensificar, nem a base mais fiel sustentará o preço da imprudência.
O Brasil precisa de um estadista — não de um incendiário.
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