Crédito fácil, dívida difícil

Por Lívia Louvel

Crédito fácil, dívida difícil

O crédito de consumo no Brasil evoluiu em tecnologia, mas não necessariamente em consciência. Em poucos cliques, parcelas se multiplicam, limites são ultrapassados e decisões financeiras passam a acontecer em tempo real, com menor tempo de reflexão.

Por trás da conveniência, cresce um modelo de consumo baseado na antecipação de desejos, nem sempre compatível com a renda.

Segundo dados da Serasa, em abril de 2025 mais de 71 milhões de brasileiros estavam negativados. O número indica que quase dois em cada cinco adultos no país não conseguem manter suas dívidas em dia.

O endividamento, longe de ser uma exceção, tornou-se uma marca estrutural da economia popular.

Incentivado por um casamento entre crédito e publicidade, antecipa desejos e minimiza consequências.

Ao longo dos anos, a sofisticação tecnológica da indústria financeira aumentou. Aplicativos, limites personalizados e ofertas no checkout digital facilitam o consumo.

Entretanto, essa modernização não veio acompanhada de empoderamento real do consumidor, muito pelo contrário.

A lógica da prestação que “cabe no bolso” passou a reger decisões que ignoram o custo total da dívida e também os riscos futuros.
A publicidade, por sua vez, evoluiu para capitalizar experiências.

Não se trata mais de vender apenas produtos ou serviços, e sim de construir uma promessa emocional: felicidade, pertencimento, autoestima. O impacto é sentido especialmente nas classes CDE, que passaram recentemente por um processo de bancarização e acesso ao crédito, porém sem a devida inclusão financeira no sentido mais profundo.

Existe uma característica nesse grupo que exige atenção: se a parcela cabe no orçamento do mês, o crédito é considerado viável — independentemente da taxa de juros ou do impacto cumulativo. Isso cria um ambiente onde o controle de gastos se fragiliza e as dívidas, mesmo pequenas, se tornam impeditivos reais à sobrevivência.

É comum ver famílias que não conseguem comprar alimentos ou remédios porque o cartão está comprometido com parcelas passadas de bens não essenciais.

Esse quadro se agrava em um ambiente de juros elevados, informalidade persistente, instabilidade fiscal e ausência de políticas públicas eficazes voltadas à inclusão econômica e à educação financeira.

O Brasil atravessa uma conjuntura complexa, marcada por inflação resistente, crescimento moderado e incertezas estruturais que ampliam a vulnerabilidade das camadas de menor renda.
A mudança não será individual. É preciso ação coordenada entre governos, setor financeiro, mídia e sociedade civil para capilarizar conhecimento, ajustar incentivos e criar redes de apoio que rompam o ciclo do endividamento.

Informar é apenas o primeiro passo. É necessário também ajustar modelos de concessão de crédito, adequar comunicações publicitárias e incentivar alternativas que ampliem a autonomia econômica dos brasileiros.

O crédito pode ser uma alavanca de mobilidade social — mas, para isso, precisa deixar de operar como resposta imediata ao consumo e passar a integrar uma estratégia de longo prazo para inclusão econômica.

Entre empoderamento e armadilha, o que define o rumo é a qualidade da informação, o desenho das políticas públicas e a capacidade do sistema financeiro de reconhecer que, sem educação financeira e proteção adequada, o risco é de toda a sociedade.
 

Lívia Louvel é economista e escreve às quintas-feiras. Na coluna Perspectiva, traduz os movimentos da economia em análises que geram valor e orientam decisões.

Por Ultima Hora em 28/06/2025
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