Declínio de um ocidente que confunde desespero e coragem

Por Wellington Calasans 

Declínio de um ocidente que confunde desespero e coragem

O Ocidente não está apenas perdendo influência geopolítica — ele está desesperado. E o desespero, como se sabe, é um péssimo conselheiro. Enquanto a arquitetura financeira global, sustentada por décadas de dívida privada e hegemonia do dólar, começa a rachar nas bases, as elites ocidentais recorrem ao que sempre souberam fazer melhor: guerra. 

Não por ideais, não por democracia, mas como válvula de escape para um sistema econômico que já não consegue mais sustentar a ilusão de crescimento infinito. O mecanismo é simples: quando o crédito se esgota e a dívida se torna insustentável, o Estado precisa de um inimigo externo para justificar mais gastos militares, mais endividamento e mais controle social. A Ucrânia é apenas o mais recente teatro dessa tragédia cíclica.

Esse colapso interno é disfarçado com uma narrativa moralista e unilateral. Enquanto Trump oscila entre ameaças de tarifas e elogios rasgados a Xi Jinping, a máquina do “deep state” segue impulsionando sanções, armando Kiev com mais US$ 2 bilhões em armas e pressionando aliados a cortar laços com Moscou e Pequim. 

Mas o mundo já não engole mais essa farsa. A ascensão de uma Japonesa como Sanae Takaishi — que surpreendentemente descola do papel menor de ser fantoche de Washington e recusa-se a entrar na guerra comercial contra a China — mostra que até os aliados mais próximos estão cansados da arrogância ocidental. 

Pior: Tóquio, Seul e Pequim já negociam uma área monetária trilateral que pode tirar 15% do comércio global da órbita do dólar. Isso não é apenas uma ameaça econômica; é um sinal de que a multipolaridade já está em marcha, independentemente da vontade de Bruxelas ou Washington.

Diante disso, o Ocidente reage com o que lhe resta: propaganda e militarização. Generais franceses anunciam abertamente que se preparam para a “próxima guerra contra a Rússia”. Polônia ameaça interceptar o avião presidencial de Putin. Keir Starmer, em Londres, herda a obsessão imperial de Churchill e transforma o Reino Unido num braço armado do genocídio em Gaza e da guerra por procuração na Ucrânia. 

Tudo isso enquanto os EUA insistem num “congelamento” do conflito que Moscou rejeita há anos — não por teimosia, mas porque sabe que qualquer cessar-fogo nas linhas atuais seria um novo Brest-Litovsk: uma rendição disfarçada que custaria sua soberania estratégica. O Ocidente, cego por sua própria narrativa de excepcionalismo, não entende que já não pode ditar as regras do jogo.

Por trás dessa escalada há uma verdade incômoda: o sistema financeiro ocidental está falido. Como bem expõe Mark Keenan, o dinheiro não é neutro — ele é criado como dívida por bancos privados, gerando uma espiral de extração que exige crescimento perpétuo. 

Quando esse crescimento para, o sistema entra em crise. E a única saída que resta ao establishment é exportar essa crise — seja por meio de sanções, seja por meio de guerras. Mesmo que o resultado esperado seja a derrota, o importante é ocupar o espaço no imaginário popular.

Assim, a Ucrânia vira um campo de batalha para testar armas, esgotar a Rússia e justificar o aumento do orçamento da OTAN. Gaza vira um laboratório de limpeza étnica sob o manto da “segurança”. E a China é demonizada não por ameaçar ninguém, mas por oferecer um modelo alternativo de soberania tecnológica, monetária e energética.

O Ocidente está preso num perigoso loop de negação. Recusa-se a aceitar que o mundo unipolar morreu, que a Rússia não será humilhada como em 1991 e que a China não será contida por tarifas ou narrativas. Em vez de negociar com realismo, prefere acreditar em fantasias de domínio eterno — mesmo que isso signifique arrastar o planeta para o abismo. 

Como sabemos, a história não perdoa quem insiste em lutar contra a realidade. E, como Putin já deixou claro, a próxima escalada pode ser de um nível que o Ocidente não está preparado para suportar. E o Ocidente já sabe que não está.

Por Ultima Hora em 30/10/2025
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