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Secretária de Cultura, esposa do prefeito e condenada por apropriação indébita, vira foco de crise após demolição do patrimônio histórico, e ampliam os questionamentos sobre moralidade administrativa
Castelo (ES) – A cidade amanheceu em clima de indignação nesta semana após a demolição, durante a madrugada de Domingo, de um casarão histórico com mais de 90 anos, ligado à tradicional família Vivacqua — grupo de grande relevância na formação econômica e social do município e do sul do Estado, e que integra a linhagem da polêmica atriz e ativista radicada e assassinada no Rio de Janeiro, Luz del Fuego.
A residência, considerada por muitos como um dos marcos da memória local, havia sido adquirida pela prefeitura em 2007 e era vista por parte da população como um potencial espaço para preservação histórica e cultural. A destruição do imóvel, realizada fora do horário convencional, intensificou críticas e levantou suspeitas sobre a tentativa de evitar mobilização popular.
Patrimônio e identidade cultural
A família Vivacqua é frequentemente comparada, em relevância regional, aos Matarazzo em São Paulo, devido à sua influência na ocupação territorial e no desenvolvimento econômico do sul do Espírito Santo. Ao longo do final do século XIX e início do XX, membros da família tiveram papel central na recepção de imigrantes italianos, promovendo arrendamentos e vendas de terras que ajudaram a moldar a identidade local.
O casarão demolido era um dos símbolos desse período — tanto pela arquitetura quanto pelo valor histórico associado à imigração italiana na região.
Revolta popular e críticas ao projeto
Nas redes sociais, moradores expressaram indignação com a decisão. Muitos afirmam que o imóvel deveria ter sido restaurado e transformado em centro cultural ou museu. Um dos comentários compartilhados resume o sentimento geral:
“Casa dos Vivacqua que deveria ser restaurada, infelizmente foi demolida hoje, dizendo que é para a construção de uma ‘Fontana di Trevi fake’. Isso desvalorizará a original na Itália.”
A proposta da Secretaria de Cultura seria substituir o casarão por uma fonte inspirada na Fontana di Trevi. A ideia, no entanto, vem sendo criticada por moradores que consideram o projeto inadequado, especialmente por estar previsto para uma rua sem saída e sem vocação turística consolidada.
Questionamentos políticos e jurídicos
A gestão do prefeito João Paulo Nali (Republicanos) já era alvo de questionamentos antes mesmo da demolição, especialmente pela nomeação de sua esposa, Leia Ringuier Nali, para as Secretária Municipal de Lazer, Esportes e Juventude e de Secretária Municipal de Turismo, Eventos e Cultura — pasta que, além de funções institucionais, inclui a gestão direta de recursos públicos por meio do Fundo Municipal de Cultura.
O Ministério Público do Estado do Espírito Santo sustenta que a nomeação fere princípios constitucionais da moralidade e da probidade administrativa, destacando que Leia possui condenação criminal transitada em julgado por apropriação indébita — crime que ela própria confessou no processo — além de ter sido ré em outra ação por furto qualificado mediante fraude, na qual a materialidade foi reconhecida, mas houve absolvição por se tratar de relação conjugal com a vítima.
Para o MP, o histórico compromete sua idoneidade para exercer função pública, sobretudo em um cargo que envolve justamente a administração de recursos financeiros, levantando um questionamento central que ecoa entre moradores: como alguém com esse histórico pode ser responsável pela gestão de verbas culturais do município?
Além disso, outra nomeação controversa citada por moradores é a de uma viúva do vice-prefeito falecido em 2025 para outra secretaria na administração municipal, ampliando o debate sobre critérios de ocupação de funções públicas.
Demolição na madrugada amplia tensão
O fato de a demolição ter ocorrido durante a madrugada é apontado como um dos principais agravantes da crise.
Para muitos moradores, a escolha do horário teria como objetivo evitar protestos presenciais e reduzir a visibilidade da ação.
Especialistas em patrimônio histórico frequentemente destacam que a descaracterização ou eliminação de bens culturais sem amplo debate público pode configurar não apenas perda material, mas também simbólica — afetando a identidade coletiva de uma comunidade.
Memória em disputa
O episódio reacende um debate recorrente em cidades do interior brasileiro: o equilíbrio entre desenvolvimento urbano e preservação histórica. No caso de Castelo, a demolição do casarão da família Vivacqua passa a representar, para parte da população, um marco de possível apagamento cultural, depois de inúmeras perdas do tipo.
Enquanto isso, cresce a pressão para que órgãos de controle, como o Ministério Público, aprofundem a apuração sobre os critérios que levaram à decisão — e sobre a legalidade dos atos administrativos envolvidos.
A cidade agora se divide entre o que foi perdido e o que será construído no lugar — uma fonte inspirada na Europa ou um vazio difícil de preencher na memória local.
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