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O deputado federal Ricardo Galvão (PSOL-SP), físico que assumiu a vaga de Guilherme Boulos na Câmara dos Deputados, criticou nesta segunda-feira (11) aspectos do Projeto de Lei Antifacção que tramita no Congresso Nacional. Em entrevista exclusiva, o ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) alertou para os riscos de caracterizar organizações criminosas como grupos terroristas e defendeu o fortalecimento da Polícia Federal no combate ao crime organizado.
"Seria um erro muito grande tipificar a criminalidade como terrorismo", afirmou Galvão, reconhecendo que o relator Guilherme Derrite (PP-SP) modificou parcialmente a proposta após pressões, mas manteve pontos controversos. O cientista destacou que a lei antiterrorismo pode abrir precedentes perigosos para intervenções externas no país.
O parlamentar, que ganhou projeção nacional em 2019 ao ser demitido do INPE após confronto com o então presidente Jair Bolsonaro sobre dados de desmatamento, trouxe uma perspectiva técnica para o debate. "Crime e terrorismo são coisas distintas. O terrorismo pode existir até para não ter ganho econômico. O crime é muito bem caracterizado por objetivo econômico", explicou, diferenciando as duas modalidades.
Complexidade do crime organizado na Amazônia
Galvão apresentou dados alarmantes sobre a presença do crime organizado na região amazônica, conectando a discussão à realização da COP-30 em Belém. "Só na Amazônia existem 26 organizações criminosas. O PCC está lá, atravessam fronteiras, não têm fronteiras. A situação é bastante complexa", revelou, demonstrando a dimensão nacional e transnacional do problema.
O cientista reconheceu a necessidade de medidas enérgicas contra o crime organizado, apoiando o aumento de penas para grupos que utilizam armas pesadas e controlam grandes territórios. "Quando os grupos criminosos utilizam armas de uso exclusivo das forças armadas e controlam áreas muito grandes, as penas devem dobrar de tempo. Isso é correto", concordou.
No entanto, Galvão manifestou preocupação com a inclusão dessas medidas na lei antiterrorismo. "Isso é perigosíssimo para o país, porque abre espaço para intervenções exteriores", alertou, argumentando que a caracterização como terrorismo pode justificar ações de organismos internacionais em território brasileiro.
Defesa da Polícia Federal
Um dos pontos mais críticos da análise de Galvão foi a redução do papel da Polícia Federal proposta no projeto original. "O que mais nos preocupa é tirar substancialmente o poder da Polícia Federal", declarou, usando uma analogia com filmes policiais americanos para ilustrar seu argumento.
"Todos assistimos filmes policiais dos Estados Unidos. Começa um crime numa cidade, aquilo se estende para algo federal, imediatamente vem o FBI. Não é a polícia local, não é a polícia do estado", comparou, defendendo que crimes que atravessam fronteiras estaduais devem ser de competência federal.
O deputado considerou "absurdo" que a Polícia Federal tenha que pedir autorização para polícias estaduais para atuar em casos de crime organizado. "O crime percola por todos os estados. É absurdo pensar que a Polícia Federal tenha que pedir licença para o Estado atuar", criticou, defendendo a autonomia da corporação federal.
Educação como solução de longo prazo
Questionado sobre soluções estruturais, Galvão reconheceu a importância da educação, mas ponderou sobre sua aplicabilidade imediata. "A educação vai ser sempre muito importante, mas sempre é uma coisa de futuro. Nós estamos numa situação emergencial", avaliou, indicando a necessidade de medidas de curto e longo prazo.
O cientista demonstrou sensibilidade social ao reconhecer a realidade das comunidades vulneráveis. "Quem mora numa favela, numa comunidade, sabe o que acontece", afirmou, citando pesquisas de opinião que mostram apoio da população às ações de segurança pública no Rio de Janeiro.
Apesar do apoio popular, Galvão criticou a forma como as operações têm sido conduzidas. "Foram ações que não foram estruturadas de forma inteligente", avaliou, sugerindo a necessidade de abordagens mais sofisticadas no combate ao crime organizado.
Trajetória acadêmica e política
Ricardo Galvão traz para o Congresso Nacional uma bagagem acadêmica diferenciada. Físico renomado, foi presidente do INPE entre 2016 e 2019, período em que defendeu a transparência dos dados sobre desmatamento na Amazônia, entrando em conflito direto com o governo Bolsonaro.
Sua demissão do INPE em 2019 repercutiu internacionalmente, sendo vista como um ataque à ciência e à transparência de dados ambientais. O episódio consolidou Galvão como uma voz respeitada na defesa da pesquisa científica independente e da preservação ambiental.
Perspectiva científica no debate político
A presença de Galvão na Câmara dos Deputados representa uma tentativa de trazer rigor científico para debates tradicionalmente dominados por posições ideológicas. Sua formação acadêmica oferece uma perspectiva diferenciada sobre questões complexas como segurança pública e meio ambiente.
O deputado demonstrou humildade característica ao recusar o título de "maior figura intelectual" do Congresso. "Nunca gosto de falar em maior, porque sou mineiro. Em Minas Gerais nunca falamos que somos maiores que ninguém", brincou, mantendo o perfil discreto que marca sua trajetória acadêmica.

Por Robson Talber @robsontalber, Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
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