Dor que virou missão: a aliança de Ralph Gracie e Tayane Gandra em busca de representatividade política no Rio

Em meio à celebração dos 55 anos do mestre do Jiu-Jitsu, pré-candidatos unem trajetórias marcadas por lutas pessoais para levar às eleições de 2026 uma pauta focada em saúde, inclusão e doenças raras

O tatame sempre foi o território de Ralph Gracie. Membro de uma das dinastias mais poderosas do esporte mundial, ele construiu uma carreira que atravessa gerações.

Aos 55 anos, completa um novo ciclo: deixou o centro do ringue para ocupar um lugar na política. Pré-candidato a deputado estadual, Ralph quer representar no Legislativo fluminense as mesmas causas que abraçou fora das arenas.

Ao lado dele, uma mulher que aprendeu a lutar dentro de hospitais. Tayane Gandra é o nome que o Brasil conheceu pelo reencontro com o filho após 16 dias de coma. Desde então, transformou a dor em movimento. As eleições de 2026 chegam como o próximo passo dessa caminhada.

O encontro entre os dois aconteceu durante a festa de aniversário de Ralph, na padaria João Padeiro, na Barra da Tijuca. Mas não foi apenas uma celebração. Foi o palco de um anúncio político.

O tatame mais difícil

A política, Ralph conhece por dentro. Em 2024, lançou pré-candidatura a vereador do Rio. Agora, em 2026, amplia o horizonte e busca uma vaga na Assembleia Legislativa.

A mudança de patamar reflete o amadurecimento de um projeto que começou nos ringues e hoje se expressa em propostas.

"Estamos trocando o tatame por um tatame muito mais difícil, que é a política", disse Ralph durante a entrevista. "A política não é fácil, não é mole. Mas a gente está com o objetivo de tentar realmente fazer a diferença."

Sétimo grau da faixa preta de Brazilian Jiu-Jitsu, Ralph é filho de Robson Gracie e neto de Hélio Gracie, criador do Jiu-Jitsu brasileiro. Com academias espalhadas pelo mundo, ele construiu uma base sólida. Sua entrada na política representa a tentativa de traduzir a disciplina das artes marciais em gestão pública.

A reviravolta de uma mãe

Tayane Gandra sabe o que significa enfrentar o Estado para garantir direitos. Seu filho, Guilherme Gandra Moura, de 11 anos, nasceu com epidermólise bolhosa, doença genética rara e autoimune que fragiliza a pele e as mucosas, causando bolhas e feridas por todo o corpo.

Em 2023, um vídeo emocionou o país. Gui havia passado 16 dias em coma. Quando acordou, procurou pela mãe. O reencontro, filmado e compartilhado, acumulou milhões de visualizações. A partir da comoção, Tayane canalizou a atenção em uma causa concreta.

Usou a plataforma LegislAqui, da Assembleia Legislativa do Rio, para propor um projeto de lei. Aprovada por unanimidade em setembro de 2023 e sancionada pelo governador Cláudio Castro em outubro, a Lei 10.142/2023 ficou conhecida como Lei Gui.

Ela instituiu o Programa Estadual de Assistência Especializada em Epidermólise Bolhosa na rede pública e criou uma pensão especial para pacientes ou seus responsáveis.

A luta de Tayane, porém, não parou no Estado. Em abril de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou em Brasília um projeto que estende o benefício para todo o país, garantindo pensão mensal de um salário mínimo a pessoas com epidermólise bolhosa. O texto seguiu para o Senado.

"Às vezes, a exposição é necessária para que outras pessoas sejam ajudadas", afirmou Tayane.

O poder da informação que salva

Recentemente, Gui passou por mais uma cirurgia de dilatação de esôfago, a nona desde o início do tratamento. O procedimento, necessário porque a doença afeta o esôfago e dificulta a deglutição, foi compartilhado por Tayane em tempo real nas redes sociais.

O que ela não esperava era o efeito colateral positivo. "Somente nessa brincadeira, 16 pessoas eu consegui ajudar que não sabiam da existência de uma profissional qualificada para esse procedimento", contou.

O episódio revela o poder da informação compartilhada. Mães de crianças com condições raras enfrentam diariamente o desconhecimento do sistema de saúde e a falta de informação sobre profissionais especializados. O trabalho de Tayane preenche essa lacuna.

Reconhecimento internacional

Guilherme Gandra Moura não é apenas um paciente. Torcedor fanático do Vasco da Gama, foi eleito pela FIFA o Melhor Torcedor do Ano em 2024, em cerimônia que contou com homenagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O prêmio reconheceu a resiliência de um menino que enfrenta dores diárias, mas mantém o sorriso.

Em dezembro de 2025, Gui participou da transmissão do pré-jogo da final da Copa do Brasil pela GE TV, mostrando que sua influência atravessa o esporte. Em maio de 2026, passou pela nona dilatação de esôfago, com a mãe ao lado, informando cada etapa para milhares de seguidores.

Ralph Gracie resumiu o sentimento ao explicar por que decidiu apoiar Tayane. "Eu vejo retidão nela. É um motivo nobre, é um motivo de dor. Não é um motivo que está vindo de graça.

Eu vi essa dor no seu filho. Não tem como eu não abrir meu coração e trazer uma pessoa que faz a diferença para o meu lado."

Duas candidaturas, um propósito.

A parceria entre Ralph e Tayane dispensa coligações formais. "Não tenho coligação nenhuma com ela, mas eu apoio pela causa dela, pela importância que tem de botar essa mulher lá dentro", afirmou Ralph. O mestre do Jiu-Jitsu concorre a uma vaga na Alerj. Tayane mira a Câmara dos Deputados, em Brasília.

O que os une é a vivência de uma dor que se transformou em missão. Ralph passou por um milagre com o próprio filho. Tayane enfrenta batalhas diárias com Gui. Ambos sabem que o sistema público de saúde falha com pacientes raros e que a política, muitas vezes distante da realidade das famílias, precisa de representantes que conheçam o problema por dentro.

Uma agenda legislativa em construção.

A pauta que os dois levarão às urnas tem três eixos principais. O primeiro é a ampliação da Lei Gui para todo o território nacional, garantindo pensão e assistência especializada a todos os pacientes com epidermólise bolhosa no Brasil.

O segundo é a criação de uma política nacional de doenças raras, que inclua centros de referência, protocolos clínicos unificados e financiamento federal estável. O terceiro é a inclusão de pacientes atípicos em políticas públicas de saúde, educação e assistência social.

Tayane conhece os gargalos do sistema. A epidermólise bolhosa exige curativos especiais, insumos hospitalares de alto custo e uma equipe multidisciplinar. Muitas famílias não conseguem acesso pelo SUS ou pelos planos de saúde.

Ela própria enfrenta essa luta diariamente.

"Estamos plantando para que no futuro nossos filhos colham tudo aquilo que a gente pode proporcionar a eles de uma maneira honrosa", disse Tayane.

O legado dos Gracie na política

A família Gracie não é estranha ao poder. Robson Gracie, pai de Ralph, foi uma figura influente no Rio de Janeiro, e o clã sempre manteve proximidade com círculos políticos.

A candidatura de Ralph representa a continuidade desse patrimônio, agora voltado para a representação popular.

Ralph, porém, faz questão de distinguir sua trajetória. "Eu quero fazer o bem de verdade. Estou aqui para ajudar. Trazer ela aqui para quê? Para ajudar ela, para a gente se ajudar e ela poder chegar num lugar melhor, num lugar que ela tenha poder de ajudar os outros."

O tatame, diz ele, ensinou que a grandeza não está em vencer, mas em levantar o outro. A política, ele descobriu, pode ser a extensão desse princípio.

Quem é Tayane Gandra?

Tayane Gandra Orrico é pré-candidata a deputada federal pelo PSDB e uma das principais ativistas brasileiras na defesa de pessoas com doenças raras.

Mãe de Guilherme Gandra Moura, o Gui, de 11 anos, que convive com epidermólise bolhosa, Tayane ganhou notoriedade nacional em 2023 quando o vídeo do reencontro com o filho, após 16 dias em coma, viralizou e comoveu milhões de brasileiros.

A partir da exposição, canalizou a atenção pública para uma causa concreta: propôs, por meio da plataforma LegislAqui da Alerj, o projeto que se tornou a Lei Gui (Lei Estadual 10.142/2023), criando o Programa Estadual de Assistência Especializada em Epidermólise Bolhosa e pensão especial para pacientes no Rio de Janeiro.

Em abril de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou versão federal da lei, que aguarda votação no Senado. Tayane mantém presença ativa no Instagram (@tayanegandra), onde compartilha o tratamento do filho e orienta outras famílias.

Recentemente, ao documentar a nona dilatação de esôfago de Gui, ajudou 16 famílias a localizarem profissionais qualificados para o mesmo procedimento. Seu filho foi eleito pela FIFA o Melhor Torcedor do Ano em 2024.

Tayane representa a converrência entre ativismo digital, mobilização legislativa e representação política, levando para a arena eleitoral uma pauta que emerge da vivência direta com as falhas do sistema de saúde pública brasileiro.

Por Robson Talber, @robsontalber 

Repórter Antonio Lemos @djportugues

Sigam e compartilhem o nosso Instagram @jornalultimahoraonline

 

Por Ultima Hora em 26/05/2026
Aguarde..