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Dora Zanin alerta para juros insustentáveis e dependência externa que ameaçam a produção rural brasileira

O agronegócio brasileiro, setor responsável por mais de 20% do Produto Interno Bruto nacional, enfrenta uma das crises mais severas de sua história recente, segundo denúncia da empresária Dora Zanin durante o evento Rio Mais Agro, realizado no Rio Centro.
A produtora rural, que possui operações nos estados do Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, revelou uma realidade que contrasta drasticamente com o discurso oficial de prosperidade do setor.
Durante entrevista exclusiva no maior evento de agronegócio do país, Zanin expôs os desafios enfrentados pelos produtores rurais em um cenário de alta dos juros e crescente carga tributária. A empresária, que é CEO da Zanix e conselheira do COSAG-FIESP, alertou que a taxa de juros de 15% do CDI tornou-se um obstáculo intransponível para a sustentabilidade das operações agrícolas.
"Ninguém aguenta pagar juro de 15% de CDI, entendeu? E mais esses impostos que esse ministro Haddad está colocando", declarou Zanin, questionando a viabilidade econômica do atual modelo de financiamento rural. Segundo a empresária, os produtores enfrentam um cenário onde os custos financeiros consomem uma parcela desproporcional da receita, comprometendo investimentos essenciais para a manutenção da produtividade.
A dependência externa de fertilizantes emergiu como outro ponto crítico da análise apresentada pela produtora. O Brasil, maior produtor mundial de soja e algodão, importa fertilizantes principalmente da Rússia, Ucrânia e Irã, países envolvidos em conflitos geopolíticos que afetam diretamente a segurança do abastecimento. Zanin criticou a falta de uma política nacional efetiva para a produção interna de fertilizantes, citando obstáculos burocráticos e ambientais que impedem o desenvolvimento do setor.
"Se nós temos fertilizantes, como é que nós somos o maior produtor de algodão do mundo, o maior produtor de soja do mundo? Importamos fertilizantes da Rússia, da Ucrânia e ainda do Irã", questionou a empresária, destacando a contradição entre o potencial produtivo nacional e a dependência externa. A situação se agrava com o preço da ureia importada, que chegou a R$ 550 por tonelada, onerando significativamente os custos de produção.
Um dos aspectos mais controversos abordados por Zanin foi a implementação do sistema Prodes pelo Banco Central, que restringe o acesso ao crédito para produtores com apontamentos de desmatamento. Segundo a empresária, existem 5.413.000 apontamentos no país, muitos deles baseados em imagens de satélite imprecisas que geram multas e restrições injustas. "Muitos desses apontamentos não são verdadeiros, porque as imagens do Instituto Espacial não conseguem ver com precisão", denunciou.
A empresária relatou casos específicos onde sua empresa de tecnologia em imagens conseguiu reverter multas milionárias ao provar a inexatidão dos dados satelitais. "Outro dia apurei um caso que tinha uma multa altíssima de 8 milhões e tinha um apontamento mais 3 anos antes de virar a lei em 2008. Aí nós fizemos as imagens e o juiz aboliu a multa", exemplificou, questionando se essas medidas visam realmente a proteção ambiental ou representam uma forma de pressão política sobre o setor.
O setor também enfrenta uma onda de recuperações judiciais de empresas intermediárias, como Lavoro e AgroGalaxy, que deixam produtores em situação vulnerável. Zanin criticou o modelo de intermediação que retém entre 25% e 30% da renda dos produtores, defendendo a implementação de plataformas de venda direta que eliminem esses custos adicionais.
"A indústria tinha que vender direto pro produtor. Nós tínhamos que ter um B2B e um B2B de exportação, sem trades no meio também", propôs.
A questão da soberania territorial emergiu como uma preocupação central na fala da empresária. Zanin denunciou a crescente aquisição de terras brasileiras por capital estrangeiro, especialmente chinês, alertando para os riscos à segurança nacional. "Sou absolutamente contra a venda de terra para estrangeiro.
Os chineses estão comprando energia, estão comprando tudo, tão comprando terra e desrespeitando o código florestal", afirmou, defendendo políticas que priorizem produtores brasileiros no acesso à terra.
A empresária questionou por que os bancos financiam imóveis urbanos, mas não facilitam a compra de terras produtivas por agricultores nacionais. "Por que os bancos emprestam dinheiro para comprar casa, apartamento, loteamentos e não emprestam dinheiro para comprar as fazendas?", indagou, argumentando que as propriedades rurais oferecem garantias superiores devido ao valor da terra e da produção.
O Plano Safra 2025/2026 foi classificado por Zanin como insuficiente para atender as demandas do setor. A empresária criticou a redução dos recursos destinados ao seguro rural, especialmente em um momento em que o Rio Grande do Sul enfrenta catástrofes climáticas sem precedentes. "O seguro, diminuir o seguro, né? E o governo cortou R$ 450 milhões na safra passada e até agora nada foi anunciado", lamentou.
A situação se torna ainda mais complexa quando considerada a pressão internacional sobre práticas ambientais, que muitas vezes ignora os avanços tecnológicos e sustentáveis já implementados pelo agronegócio brasileiro. Zanin defendeu o papel da Embrapa e dos produtores rurais no desenvolvimento de tecnologias que transformaram o cerrado em uma das regiões mais produtivas do mundo, questionando políticas que parecem desconhecer essa realidade.
A empresária fez um apelo direto às autoridades governamentais para que reconheçam a gravidade da situação enfrentada pelo setor. "Queria fazer um apelo para tanta gente, pro que tá mandando no país, para que eles olhem esse lado difícil que ninguém fala, esse lado do que pesa", declarou, solicitando diálogo efetivo com os produtores para compreender os desafios reais do campo.
Zanin concluiu sua intervenção enfatizando a importância estratégica do agronegócio para o Brasil e para o mundo. "Nós temos água, nós temos terra. O mundo quer vir pro Brasil e precisa da gente. Nós temos que ter jurisdição, justiça e apoio do governo para os produtores", afirmou, reforçando que o setor possui potencial para alimentar o planeta, mas necessita de condições adequadas para operar.
A fala da empresária revela uma realidade complexa onde o sucesso aparente do agronegócio brasileiro mascara dificuldades estruturais que podem comprometer a sustentabilidade do setor a longo prazo. As questões levantadas por Zanin ecoam preocupações de produtores em todo o país, sinalizando a necessidade urgente de políticas públicas que reconheçam e abordem esses desafios de forma efetiva.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
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Por Robson Talber
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