Entre poder e elevação

Entre poder e elevação

Walter Felix Cardoso Junior

wfelixcjr3.carrd.co

Participei recentemente de um debate acirrado no Curso de Filosofia, numa dessas salas virtuais em que jovens estudantes defendem ideias com entusiasmo e pressa. Foi ali que percebi um deslocamento silencioso, mas profundo, no eixo de referências que orienta parte do pensamento contemporâneo.

Os mais jovens, convictos e afoitos, defendiam com entusiasmo a prevalência das contribuições de Nicolau Maquiavel e de Antonio Gramsci como fundamentos de eficácia para certos modelos ideológicos em curso.

O que me chamou a atenção, contudo, não foi a defesa em si — legítima no campo das ideias —, mas a quase ausência de qualquer referência ao legado espiritualista e humanista de Allan Kardec, que também era objeto da comparação, como se esse conjunto de valores tivesse sido discretamente empurrado para fora do horizonte de relevância.

Talvez não estejamos apenas diante de uma mudança de autores preferidos, mas de uma substituição mais profunda: a troca da pergunta sobre o aperfeiçoamento moral do ser humano pela obsessão com a conquista, a conservação e a manipulação do poder em sua forma mais direta.

Maquiavel nos ensinou a olhar o poder sem ingenuidade. Gramsci nos ajudou a compreender a disputa cultural como campo de formação das consciências. Ambos, cada qual a seu modo, ofereceram instrumentos importantes para decifrar a realidade política. Mas instrumentos de análise não são bússolas morais.

Quando a inteligência se separa da elevação interior e da moral universal, pode tornar-se apenas técnica de domínio. Quando a cultura se afasta da verdade espiritual do homem, pode converter-se em engenharia de consentimento. E, quando o poder deixa de ser meio para servir o próximo, torna-se fim em si mesmo — e passa a organizar o mundo à sua própria imagem.

É aí que Kardec retorna, não como relíquia doutrinária, mas como contraponto necessário. Sua contribuição talvez não esteja na eficácia imediata das estratégias humanas, mas na lembrança de que nenhuma sociedade se sustenta apenas por astúcia, organização narrativa ou hegemonia cultural. Uma civilização que despreza a dimensão moral do espírito pode até vencer debates, eleições e batalhas simbólicas. Mas perde, aos poucos, a própria alma.

O jovem costuma se encantar com sistemas que prometem transformação rápida. A maturidade, porém, ensina que nem toda transformação eleva. Algumas apenas reorganizam ressentimentos, deslocam privilégios e trocam os nomes dos dominadores.

Por isso, a questão talvez não seja escolher entre Maquiavel, Kardec ou Gramsci, como se estivéssemos diante de uma disputa escolar entre autores. A questão é mais grave: que tipo de ser humano cada matriz ajuda a formar?

Maquiavel ajuda a compreender o poder. Gramsci ajuda a compreender a cultura como arena. Kardec, por sua vez, recoloca no centro aquilo que nenhum projeto político deveria esquecer: a responsabilidade moral do espírito diante da vida, do outro e das consequências de seus próprios atos.

Sem essa terceira dimensão, a política vira cálculo; a cultura vira instrumento; e o homem vira massa modelável. E talvez tenha sido exatamente isso que me inquietou naquele debate: não o brilho das citações, nem a paixão dos jovens debatedores, mas a sensação de que faltava uma pergunta anterior a todas as outras. Não apenas: como transformar o mundo? Mas, antes disso: para elevar o quê — e em nome de qual verdade sobre o homem?

Por Ultima Hora em 28/04/2026
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