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Queridos leitores e leitoras, o artigo de hoje traz um misto de tristeza e esperança, na expectativa de que bons exemplos iluminem nossos ilustres líderes políticos.
Nosso estimado José “Pepe” Mujica decidiu acelerar o passo rumo ao descanso eterno. Com ele, desaparece uma das últimas referências da política como serviço — e não como carreira: coerência entre discurso e prática, não escada para o poder. Imaginem: um ex-guerrilheiro que passou mais tempo na prisão do que muita gente em teletrabalho, presidente do Uruguai (2010–2015) e, ainda assim, mais simples do que um influenciador digital pós-férias em Mykonos.
Recusou instalar-se no Palácio Suárez. Preferiu sua modesta quinta nos arredores de Montevidéu, ao lado de Lucía Topolansky, dedicando-se à horta, aos cães e a um campo de lavanda quase tão famoso quanto sua cozinha rusticamente encantadora. O Fusquinha azul de 1987, fiel companheiro, continua a berrar "vruu vruu" pelos bairros elegantes da capital, lembrando a todos que ostentação é coisa de quem não tem história para contar. “Quem vive com pouco é mais livre”, dizia ele — sem teleponto, sem marqueteiros, apenas verdade.
Eis o contraste incômodo: a “esquerda caviar” que fala de pobreza enquanto afirma não haver “verbas para sequer uma caneta ou uns analgésicos” para o povo e, no mesmo dia, brinda com champanhe de mil reais e almoça num restaurante com estrela Michelin. Assim como alguns prefeitos do nosso Grande Rio, que proclamam nos palanques a defesa das favelas e dos mais desfavorecidos, mas têm mais carimbos de viagem pela Europa do que visitas às comunidades que dizem representar. Discurso popular, prática burguesa. Bandeiras vermelhas nos comícios; taças de vinho caríssimo nos bastidores.
Mujica não precisava de apelidos nem de Instagram para alavancar sua imagem. Doava parte do salário e recusava o palácio oficial com um tranquilo “não, obrigado, estou bem na minha horta”. Foi, talvez, o último estadista a provar que decência não é fraqueza — é força. Que fazer política com coerência não exige roupa de grife nem tapete vermelho.
Agora, sem Mujica, cabe à esquerda latino-americana — e à nossa “esquerda gourmet” — responder: continuará escolhendo petiscos ou princípios? É possível pregar justiça social entre selfies em iate e coquetéis ao pôr do sol?
Entre um reparo mordaz e outro, fica o legado: a política pode ser coisa séria, mas sem festa chique. Que o Fusquinha azul continue a dar nas vistas, lembrando-nos sempre que o poder nunca deve pesar mais do que a honestidade.
Por hoje é só. Tristeza não combina com inspiração. Até a próxima!
Filinto Branco – colunista político
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