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Tatiana Roque e outras secretárias reassumem mandatos na Câmara para se posicionarem nas eleições estaduais de outubro, enquanto estado enfrenta paralisia institucional

Rio de Janeiro – Enquanto o Rio de Janeiro permanece enredado em uma crise institucional sem precedentes, a Câmara de Vereadores assistiu nesta terça-feira ao retorno de uma tática política conhecida: secretárias municipais deixando seus postos no alto escalão para retomarem cadeiras legislativas com vista direta às eleições estaduais de outubro. Tatiana Roque, Joyce Trindade e Tainá de Paula não apenas reassumiram seus mandatos – sinalizaram, com essa ação, que a disputa pelo governo estadual já começou enquanto as instituições ainda buscam definir como será preenchida a vaga deixada pela renúncia de Cláudio Castro.
A movimentação reflete estratégia política já conhecida no Brasil. Secretários deixam cargos administrativos para se reposicionarem como legisladores justamente quando eleições se aproximam, momento em que a projeção pública no Legislativo oferece plataforma mais robusta para campanhas. Mas, desta vez, o cenário de fundo amplia o significado dessas escolhas individuais para algo mais profundo: enquanto a Câmara recebia seus antigos ocupantes, o Rio debatia se haveria eleição direta ou indireta para governador – questão que permanece em suspenso no Supremo Tribunal Federal.
Tatiana Roque retornou como vereadora licenciada, assumindo a cadeira que havia deixado a cargo do suplente Wagner Tavares. Ela saiu da Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia, cargo que ocupou nas gestões tanto de Eduardo Paes quanto de Eduardo Cavaliere. Ambos prefeitos da sigla PSD que fizeram apostas distintas em suas agendas de inovação.
"Quero dizer da minha honra de voltar para esta casa em um momento em que o Rio enfrenta uma situação difícil, justamente com Casas Legislativas do nosso estado tentando dar um golpe, tentando eleger de forma ilegítima um governador que ninguém elegeu, em quem ninguém votou", afirmou Roque em seu discurso de retorno, já voltando seus olhos à conturbada sucessão estadual. Suas palavras capturaram a tensão que permeia a política fluminense: a sensação de que as instituições estão em risco, e que a legitimidade democrática está sendo erodida por negociações nos corredores do poder.
Roque é filiada ao PSB e já havia sido eleita vereadora anteriormente, mantendo sua base no Legislativo mesmo enquanto ocupava cargo de confiança no Executivo municipal. Sua fala no plenário não deixou dúvidas sobre seu posicionamento na crise: não apenas retornava ao legislativo, mas o fazia como crítica explícita ao que percebia como tentativa de "golpe" nas casas legislativas estaduais para "eleger de forma ilegítima um governador".
A seguir, Joyce Trindade reassumiu a cadeira do suplente Flavio Pato. Trindade deixou a Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Mulher para retomar seu mandato. Seu discurso de retorno manteve tom mais institucional, focando em direitos das mulheres – tema central de sua atuação no Executivo municipal.
"É uma honra retornar à Câmara de Vereadores no último dia de março, um mês em que debatemos com afinco e responsabilidade a violência contra a mulher, mas, especialmente, as ações para enfrentar esses desafios e garantir vida e dignidade às mulheres da cidade do Rio", declarou Trindade, vinculada ao PSD. Seu retorno sinaliza continuidade temática na agenda de gênero e políticas públicas para mulheres.
Tainá de Paula, eleita pelo PT e reconhecida como uma das vereadoras mais votadas do Rio, saiu da Secretaria de Ambiente e Clima para retomar mandato na cadeira da suplente Luciana Novaes. De Paula é arquiteta e urbanista, formação que marcou sua atuação na secretaria focada em sustentabilidade e políticas ambientais. Seu retorno fortalece a bancada petista na Câmara em contexto onde o PT busca visibilidade nas disputas estaduais.
Houve ainda a volta de Feliupe Michel, ex-secretário do Envelhecimento Saudável, que retomou a cadeira do suplente Jorge Felippe. As quatro mudanças ocorreram simultaneamente, sinalizando estratégia coordenada entre diferentes legendas – PSB, PSD e PT – em posicionamento para ciclo eleitoral estadual.
O retorno desses secretários à Câmara ocorre em contexto onde o Rio de Janeiro vive seu pior momento institucional em décadas. O governador Cláudio Castro renunciou em março após ameaça de cassação pelo Supremo Tribunal Federal. O vice-governador Thiago Pampolha já havia renunciado em 2025 para assumir posto em órgão administrativo, deixando o estado sem vice. Com essa dupla vacância, o estado enfrentou paralisia administrativa e indecisão sobre como seria preenchido o cargo.
A crise ganhou contornos ainda mais complexos quando o Supremo Tribunal Federal começou a debater se a substituição seria por eleição direta ou indireta. Pesquisas mostram que 59,54% dos fluminenses preferem eleição direta, enquanto apenas 25,33% aceitam escolha indireta pela Assembleia Legislativa. A população atribui a maior responsabilidade pela crise ao STF (44,19%), não aos partidos políticos. O tribunal marcou para 8 de abril julgamento que definirá se haverá eleição direta ou indireta para governador.
Nesse cenário de incerteza institucional, o retorno de secretárias municipais ao Legislativo ganha dimensão simbólica amplificada. Não se trata apenas de tática eleitoral comum – trata-se de posicionamento político em momento onde legitimidade democrática está em questão. Essas mulheres retornam ao Legislativo justamente quando a população reclama por maior participação nas decisões que definem o futuro do estado.
Tatiana Roque, em particular, não deixou ambiguidade em seu discurso. Sua crítica direta às "Casas Legislativas do nosso estado tentando dar um golpe" reflete posicionamento político claro em debate que permeia toda a sociedade fluminense. A questão não é apenas quem governará o Rio, mas como se escolherá esse governador – questão que toca na própria legitimidade das instituições democráticas.
O PSB de Roque busca ampliar visibilidade estadual em contexto onde seu presidente estadual, Alessandro Molon, tem relevância na disputa de 2026. O PSD de Joyce Trindade busca manter força em Legislativo municipal enquanto negocia posição nas eleições estaduais. O PT de Tainá de Paula tenta recuperar espaço político que perdeu em gestões municipais anteriores.
Mas, para além das estratégias partidárias individuais, o retorno desses secretários sinaliza algo mais profundo: a política fluminense já se movimenta para próximo ciclo enquanto instituições ainda buscam estabilidade institucional. O Rio não apenas sofre vácuo de poder no Executivo estadual – sofre erosão de legitimidade em suas estruturas mais básicas. Quando secretárias retornam ao Legislativo durante crise institucional, o ato deixa de ser apenas decisão de carreira e passa a ser posicionamento político sobre o futuro do estado.
A Câmara do Rio recebeu seus antigos ocupantes em clima ambíguo. De um lado, o retorno representa reafirmação de legitimidade do Legislativo municipal, que permanece funcional mesmo enquanto instituições estaduais entram em colapso. De outro, sinaliza que ciclo eleitoral já começou para muitos atores políticos – e que a crise institucional que paralisa o estado não impediu que a velha máquina política municipal retomasse seu funcionamento.
O Supremo Tribunal Federal decidirá em 8 de abril se o Rio terá eleição direta ou indireta. Mas, na prática, a Câmara de Vereadores já começou a definir seus próprios posicionamentos. Tatiana Roque, Joyce Trindade, Tainá de Paula e Feliupe Michel não retornaram ao Legislativo apenas para cumprir formalidades – retornaram para se posicionarem em disputa que definirá o futuro político fluminense pelos próximos anos.
Fontes consultadas
Wikipédia – Tatiana Roque Extra Globo – Mudanças no primeiro escalão Diário do Rio – PSB com nova liderança Tempo Real RJ – Tatiana Roque assume PSB Instagram – Tainá de Paula
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