Eu vi o Brasil. E não gostei não

Eu vi o Brasil. E não gostei não

Entre o crucifixo e o rebolado.

Fui na plateia do programa do Luciano Huck porque levei as crianças de uma excursão escolar.

A galera estava sendo "preparada": funk de putaria — só esse, não tocou o melódico —, mão pra cima, rebolado, todo mundo empolgado.

As crianças olhavam. Eu olhava as crianças.

No auge da euforia, a primeira atração: Padre Marcelo Rossi.

Estranhamente, o público seguiu empolgado.

"Se acontecer um barulho perto de você…" — e a plateia foi junto.

Os pequenos repetiram, sem saber o que faziam.

Depois vieram as atrações.

A trajetória de dois atores ao longo dos anos.

Cenas de pegação, beijo, cama.

A pergunta pro padre:

— O senhor tá gostando?

Ele disse que sim, com aquela cara de quem não sabe onde enfiar o crucifixo.

Uma mãe na fileira de trás tampou os olhos do filho com a mão. Mas não saiu.

Veio o quadro da dança.

Sensual, colado.

Câmera no padre.

— O que achou, padre?

Constrangido, ele solta um "legal".

Uma das minhas crianças perguntou: "Tio, ele não gostou, né?"

Em seguida, propaganda de remédio. Brindes. Jovens ganhando comprimido pra reumatismo e falta de vitamina D.

O que uma criança de nove anos entende de vitamina D?

Por fim, um dos atores fala emocionado sobre ter desconstruído o próprio gênero ao interpretar uma drag queen no teatro.

Justamente ele, um sex symbol dos anos 2000.

Dessa vez, ninguém pergunta nada pro padre.

Pedem só pra ele cantar mais uma.

E eu ali.

Não como fã. Como inspetor. Como adulto responsável.

Assistindo a um programa de domingo.

Programa pra família.

Fruto daquele meio até cair da árvore e perceber que não era meu lugar ali — nem delas.

Porque a verdade é essa: eu não era o público. E as crianças muito menos.

Mas fomos todos tratados como se fôssemos.

O programa não se pergunta quem está ali. Ele apenas supõe que todo brasileiro quer a mesma coisa: putaria, padre, remédio e emoção — tudo junto, sem intervalo pra respirar.

E aí eu entendi.

O brasileiro caga na pia e lava a louça no vaso.

Porque não dá conta dos conflitos que ele mesmo produz.

Ele quer o sagrado e o profano na mesma colherada —

desde que ninguém diga isso em voz alta.

Só que eu tinha crianças olhando.

E elas não tinham a minha ironia. Nem o meu espanto.

Elas tinham só a pergunta:

— Tio, por que o padre tá triste?

— Tio, o que é reumatismo?

— Tio, essa dança é igual à da escola?

Quando eu comentei com os outros responsáveis,

as pessoas se assustaram.

É como ver um acidente.

Todo mundo assiste.

O pânico só começa quando aparece o sangue.

Mas o sangue, ali, era invisível.

Era o tempo de infância sendo consumido ao vivo.

Era a normalização do absurdo ensinada antes da tabuada.

Eu vi o Brasil na minha frente.

Levei crianças.

E ele é exatamente isso.

 

Autor: Ronald Luis

Por Ultima Hora em 08/04/2026
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