Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Por Carlos Arouck
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs, na quarta-feira (1/7), sanções contra o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, sua colaboradora Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e as empresas Victory Trading, Pixwave Soluções de Pagamentos e Wave Construções Inteligentes, além de uma empresa portuguesa. Trata-se da primeira ação do tipo desde que os EUA classificaram o PCC (e o CV) como organização terrorista.
Segundo as autoridades americanas, o grupo lavou mais de US$30 milhões em cripto ativos para o PCC, com operações concentradas especialmente na Flórida. As sanções bloqueiam todos os bens sob jurisdição americana e proíbem qualquer transação com cidadãos ou empresas dos Estados Unidos.
Uma das empresas sancionadas, a Victory Trading, recebeu R$514,5 milhões da Wave Intermediações, integrante da rede Arpar, estrutura investigada pela CPMI do INSS por lavagem de dinheiro no esquema liderado pelo conhecido “Careca do INSS”. Segundo o relatório final da comissão, a rede movimentou mais de R$39 bilhões.
Parte das empresas sancionadas operam no ambiente de fintechs e serviços financeiros da região da Faria Lima, em São Paulo. Elas utilizam contas intermediárias, plataformas de pagamento e criptomoedas para dificultar o rastreamento dos recursos.
Com o objetivo de mirar organizações suspeitas de lavar dinheiro do tráfico internacional de drogas para o PCC, a Polícia Federal deflagrou a Operação Exchange,na sexta-feira (3/7). A investigação apura a movimentação de mais de R$10 bilhões por meio de empresas de fachada e operações financeiras complexas. A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 10,4 bilhões em bens, valores e criptoativos. Os mandados foram cumpridos em São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira foi presa. Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado como o principal operador do esquema, está foragido.
Investigações da Polícia Federal com base em celulares apreendidos de Victor Shimada revelaram áudios em que ele demonstra preocupação com a atuação americana. Em uma gravação de agosto de 2024, Shimada diz a um interlocutor: “Esse papo vai dar FBI, mano. Você entendeu? Não é brincadeira. Os caras estão investigando pesado.” Confissões de pessoas presas nos Estados Unidos ajudaram as autoridades americanas a mapear a estrutura brasileira comandada por Shimada e Stella.
Por que a classificação como terrorista muda o jogo
Um ponto pouco destacado pela imprensa brasileira é o impacto real da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, efetiva a partir de junho deste ano.
Antes dessa designação, o combate a essas facções por parte dos EUA era feito basicamente pelo FBI e pela DEA, que dependiam de autorizações judiciais para acessar dados bancários e informações de empresas americanas.
Com a classificação como terroristas (FTO e SDGT), o tema passa a ser tratado também pela CIA e pela NSA, agências com mandatos mais amplos em matéria de contraterrorismo e inteligência. Isso significa maior flexibilidade operacional, recursos técnicos avançados e capacidade de monitoramento global muito superior, incluindo sistemas de vigilância de comunicações e análise de dados em larga escala.
Na prática, empresários brasileiros, especialmente os que atuam no setor financeiro ou de cripto ativos, que mantêm relações com estruturas ligadas ao PCC ou ao CV, podem enfrentar riscos muito maiores de serem identificados, mesmo que acreditem estar “protegidos” por camadas de empresas de fachada ou pelas criptomoedas. As sanções e as operações recentes mostram que o cerco está se fechando de forma coordenada entre Washington e a Polícia Federal.
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!