Ezequias, o Rodoviário que escreve, prega e inspira: Uma história de garra e propósito

Ezequias, o Rodoviário que escreve, prega e inspira: Uma história de garra e propósito

Imagine um rodoviário que, além de despachar ônibus, despacha ideias, fé e palavras que acertam direto no coração. Esse é Ezequias Nunes da Silva, um verdadeiro "motorista de almas", que virou referência entre os colegas de profissão com seus livros, sua fé e sua história de superação. Um homem simples, mas com motor potente: movido a propósito.

Nascido em Nova Iguaçu, em 1970, Ezequias pegou estrada cedo. Saiu do Exército direto pra graxa, trabalhando como auxiliar de lubrificação numa empresa de ônibus. À noite, com a cidade quieta, ele já estava no batente. “Enquanto uns sonham dormindo, eu sonho acordado, trabalhando”, costuma dizer, com aquele sorriso de quem encara a vida de frente.

Subiu degrau por degrau: foi cobrador, fiscal, operador e hoje é despachante da Expresso São Francisco, em Nilópolis, onde é respeitado não só pelo profissionalismo, mas também pela postura, educação e palavras que sempre têm um quê de sabedoria.

O escritor do coletivo

Mas não pense que ele se limita às planilhas da garagem ou ao vaivém dos ônibus. Ezequias também é escritor. E dos bons. Lançou seu primeiro livro, O Leão Ferido, em 2015, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Um feito histórico. “Entrei naquele pavilhão com o coração acelerado. Não era só um rodoviário com um livro. Era um rodoviário que queria ser ouvido. E fui”, relembra com emoção nos olhos.

Agora, em 2024, ele lança Rodoviário Nota 10, uma obra que é quase um espelho de bolso pro trabalhador do volante. “A ideia era simples, mas profunda: fazer o rodoviário se olhar. Dar nota pra si mesmo. Tá sendo paciente? Tá controlando o estresse? Tá tratando bem os passageiros mesmo nos dias de raiva?”, explica.

No livro, ele monta uma espécie de “perfil ideal” com base na palavra RODOVIÁRIO, cada letra representando uma qualidade. “Isso aqui não é autoajuda, é autoanálise. Eu sei o que é dirigir cansado, tomar patada de passageiro e ainda assim ter que manter o sorriso. Não escrevi da teoria, escrevi da prática.”

Entre o volante e o altar

Além dos livros e da profissão, Ezequias é pastor em uma igreja de Belford Roxo. Prega, aconselha, ouve. Ele diz que o segredo é saber onde colocar o coração. “Na cabine do ônibus ou no púlpito da igreja, eu sei que estou guiando vidas. E vida não tem GPS, a gente tem que ter sensibilidade pra perceber pra onde ela tá indo.”

Trabalha à noite, das 21h às 4h, e aproveita o dia entre a escrita, os estudos e o cuidado com a família e com a fé. “É cansativo, sim. Mas é melhor se cansar por algo que te faz sentido do que viver descansado e vazio.”

Inteligência emocional é o combustível

Uma de suas maiores inspirações é Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional. “Vi uma entrevista onde Goleman falava de um motorista de ônibus em Nova York que, mesmo sem receber um bom dia, dava bom dia pra todos com o mesmo sorriso. Aquilo me bateu. Porque é assim com a gente também: ou você controla o seu dia, ou ele te atropela.”

E completa com uma frase que virou bordão entre os colegas:
“Rodoviário não só dirige ônibus. Dirige esperança, paciência, sonhos e, às vezes, até a salvação de alguém.”

O exemplo que roda por aí

Casado com Luciana, professora, e pai de João Lucas, que também trabalha no setor de operações da mesma empresa, Ezequias se emociona ao ver a trajetória da própria vida se estendendo nos passos do filho. “Quando vejo meu filho seguindo esse caminho, com ética e respeito, meu peito enche. A gente não quer luxo, a gente quer dignidade. E isso a gente conquista com trabalho e fé.”

Entre buzinas, livros e orações, Ezequias vai deixando sua marca. Mostra que o uniforme azul também pode carregar inteligência, espiritualidade e empatia. “Eu não quero ser lembrado só como um bom funcionário. Quero ser lembrado como alguém que tentou fazer diferença. Mesmo que fosse dentro de um ônibus, entre um ponto e outro.”

Por: Arinos Monge.

Por Coluna Arinos Monge em 24/05/2025
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